A IA deveria simplificar o trabalho. Mas está criando mais carga e ruído
Para Jim VandeHei, do site Axios, a tecnologia está multiplicando informações, decisões e ruído. Ele propõe um método de três etapas para reduzir a sobrecarga

A inteligência artificial ainda não está simplificando a vida. Em vez disso, está produzindo mais opções, mais decisões e mais ruído.
Para Jim VandeHei, cofundador e CEO da Axios, a resposta para essa sobrecarga não está em mais um aplicativo de produtividade. Está em um método de três etapas que ele chama de “confrontar, eliminar e ampliar”.
Em entrevista ao podcast Rapid Response, apresentado por Robert Safian (ex-editor-chefe da Fast Company), VandeHei explica o que aprendeu ao administrar a Axios a partir desses princípios – experiência que incluiu convocar uma reunião da liderança com o assunto “vamos acabar com a merda”.
Robert Safian – Antes de publicar seu livro "Simplify" (Simplifique), você escreveu um artigo sobre como se preparar para uma reunião do conselho da Axios e disse que percebeu que tudo poderia mudar em um mês. Adoro esta frase que você destacou, de que a velocidade de um mundo de IA está ultrapassando nossa capacidade, como seres humanos, de compreendê-lo. Como essa aceleração das mudanças faz você se sentir?
Jim VandeHei – Parte de mim acha isso estimulante. Eu gosto de mudanças. Gosto de tentar pensar em como uso essa tecnologia para melhorar nosso negócio, nossa relação com os consumidores de notícias.
Mas as coisas estão acontecendo rápido demais. Qual tecnologia eu uso? Qual é a IA melhor? O que ela consegue fazer hoje que não conseguia fazer ontem? Agora é difícil para mim pensar em um horizonte de mais de seis ou sete semanas sobre aquilo de que me sinto realmente confiante em relação ao negócio.

Vou dar um bom exemplo. Na mídia, seis meses atrás, de 30% a 40% do nosso tráfego vinha da busca do Google, e todas as empresas de mídia viram esse número despencar. Agora, é 5% ou 10% do nosso tráfego.
Estamos falando de milhões de pessoas que eram clientes ou que chegavam até nós e experimentavam nosso conteúdo e que já não fazem mais isso, e isso aconteceu praticamente da noite para o dia.
Nos últimos dois meses, houve um aumento enorme no número de bots que estão atacando sites, tentando obter informações, tentando obter dados, e eles estão poluindo a web aberta. E isso é algo novo.
Acho que é por isso que existe uma sensação de "Além da Imaginação" [seriado de TV] neste momento, em que as pessoas estão ouvindo falar dessa tecnologia que poderia acabar com a humanidade e que você poderia abrir uma empresa com uma única pessoa. E a maioria fica tipo: “não sei, eu realmente não uso isso. Por que tanto alvoroço?”.
Acho que a zona de demarcação está entre as pessoas nas empresas que usam a tecnologia de forma persistente e agressiva e aquelas que não usam. As primeiras estão vivendo em um mundo diferente neste momento.
em média, desperdiçamos 25% da semana fazendo coisas que nunca deveríamos ter feito ou que não agregam nenhum valor à empresa.
Então, se você for ao Vale do Silício, as pessoas pensam: “meu Deus, isso é como 1999. O mundo está mudando. Estou na vanguarda. Tudo está prestes a explodir.”
Mas aí você vai para Oshkosh e a maioria das pessoas fica tipo: “sei lá, estou apenas administrando minha empresa, cara.” E acho que isso é natural até certo ponto, porque é uma tecnologia nova.
Introduzir qualquer tipo de tecnologia em uma empresa existente é difícil porque, mesmo que seja a tecnologia mais incrível de todas, você precisa conectá-la a todos os seus sistemas complicados que construiu ao longo da última década, e isso necessariamente é uma bagunça.
Eu chamo isso de “meio bagunçado”, que é onde acho que a maioria das empresas está agora. Elas estão começando a usar IA. Estão fazendo protótipos. Estão percebendo o potencial e, então, se dão conta: “ah, preciso conectar isso ao meu reservatório de dados.”
Robert Safian – "Simplify" começa com uma frase contundente: a IA não está simplificando sua vida. Ela está produzindo em massa mais opções, mais decisões, mais ruído. Você também acaba caindo nesse ruído?
Jim VandeHei – Com certeza. E acho que, para a maioria, no curto prazo, ela é uma máquina de criar complexidade, principalmente porque agora qualquer pessoa consegue escrever razoavelmente bem se usar IA para ajudar na escrita.
Qualquer pessoa pode fazer uma pesquisa profunda sobre uma nova ideia, ou pedir para a IA fazer a pesquisa por ela e depois despejar aquilo em um e-mail e enviar para o chefe. Então, de repente, todos nós estamos recebendo mais e-mails, mais ideias. Isso significa simplesmente: “meu Deus, agora tenho mais decisões para tomar?”.

Esse é o ponto central do livro. Como podemos ajudar você, fora e dentro do trabalho, a eliminar o máximo possível de coisas que faz por hábito, por inércia, apenas porque é assim que sempre fizemos, para que você possa ampliar as coisas que realmente quer fazer?
Pode parecer simples. Será que é mesmo preciso um livro para fazer isso? E o que descobrimos ao administrar nossa empresa dessa maneira é que sim, você precisa de um livro para fazer isso, porque não fazemos isso naturalmente.
Se você não tiver um sistema, se não tiver instruções sobre como simplificar sua empresa, suas reuniões, sua estrutura de gestão, o trabalho que você faz como funcionário, simplesmente não vai sair disso. Vai continuar fazendo as coisas como sempre fez.
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Dados da "The Economist" e de outras fontes mostram que, em média, desperdiçamos 25% da nossa semana fazendo coisas que nunca deveríamos ter feito ou que não agregam nenhum valor à empresa. Fazemos isso por hábito.
Pense em 25%. Isso significa dois anos e meio de cada década que eu desperdicei fazendo coisas que não quero fazer ou que não deveria estar fazendo.
Robert Safian – Você adora atacar as coisas em grupos de três. Seu modelo é “confrontar, eliminar e ampliar”. A parte do confronto não é a ação em si. É a parte mental, certo? É se abrir para o fato de que você tem os hábitos errados.
Jim VandeHei – É confrontar: por que faço isso? Ninguém se faz essa pergunta tão simples. Uma empresa, uma vida, ganham um impulso próprio e, a menos que tenha pontos de checagem para perguntar “precisamos fazer essa reunião? Isso é algo que eu poderia deixar de fazer?”, você vai continuar fazendo coisas que não necessariamente precisa fazer.
Confrontar é apenas fazer essa pergunta, seja em casa ou no trabalho: “preciso fazer isso? Por que estou fazendo isso?”. Esse simples exercício permite que você dedique um minuto e depois decida: “eu poderia eliminar isso?” – que é o segundo passo – ou “eu poderia dizer não a essa obrigação?”.
Se você conseguir eliminar algumas coisas e dizer não, então poderá ampliar, que é a parte divertida. Faça as coisas de que gosta. Faça as coisas que vão render uma promoção, mais dinheiro, mais atenção ou o que quer que você esteja buscando no trabalho. Mas é preciso ter um sistema.
Começamos isso há cerca de dois anos e meio na Axios. Todo esse sistema de simplificação era simplesmente a maneira como administrávamos a empresa. E a razão pela qual escrevemos o livro é que vimos a mudança mágica que isso provocou em nossa empresa: de repente, as pessoas estavam mais focadas, mais produtivas e, o mais importante, mais felizes.
Há alguns meses, convoquei uma reunião da equipe de liderança com o assunto “vamos acabar com a merda”. A ideia era sentar ao redor da mesa e ouvir tudo o que as pessoas consideravam estúpido dentro da empresa: reuniões, processos e produtos. Queria passar uma ou duas horas ali eliminando tudo o que não precisava mais existir.