A IA é mesmo a culpada pelas demissões nas big techs?

É difícil saber se a IA é de fato a razão por trás das demissões ou apenas a narrativa que as empresas querem apresentar aos investidores

inteligência artificial provoca corte de empregos em big techs
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Matt O'Brien 6 minutos de leitura

A única coisa que N. Lee Plumb sabe com certeza sobre ter sido demitido da Amazon é que isso não teve nada a ver com falta de alinhamento com os planos de inteligência artificial da empresa.

Plumb, que liderava a área de “habilitação de IA” de sua equipe, diz que usava de forma tão intensa a nova ferramenta de programação com IA da Amazon que acabou sendo identificado internamente como um dos principais usuários da plataforma.

Muitos presumiram que as 16 mil demissões anunciadas pela Amazon na semana passada refletiam o esforço do CEO Andy Jassy para “reduzir a força de trabalho total à medida que ganhamos eficiência ao usar IA extensivamente em toda a empresa”.

Mas, assim como acontece em outras companhias que vincularam mudanças no quadro de funcionários à IA – como Expedia, Pinterest e Dow –, é difícil para economistas, ou mesmo para funcionários, saber se a IA é de fato a razão por trás das demissões ou apenas a narrativa que a empresa quer apresentar aos investidores.

“A IA precisa gerar retorno sobre o investimento”, diz Plumb, que trabalhou oito anos na Amazon. “Quando você reduz o número de funcionários, demonstra eficiência, atrai mais capital e o preço das ações sobe. Então, é possível que a empresa já estivesse inchada, reduza o quadro de pessoal, atribua isso à IA e pronto: você tem uma boa história de valorização”, afirma.

Em comunicado enviado por e-mail, a Amazon disse que a IA “não foi o motivo da grande maioria dessas reduções”. “Essas mudanças têm como objetivo continuar fortalecendo nossa cultura e nossas equipes, reduzindo camadas hierárquicas, aumentando o senso de responsabilidade e ajudando a diminuir a burocracia para ganhar velocidade e autonomia”.

IMPACTO DA IA SOBRE O MERCADO DE TRABALHO

Plumb foge um pouco do perfil típico de um funcionário da Amazon por outro motivo: ele também está concorrendo – segundo ele mesmo, como uma “aposta improvável” – a uma vaga no Congresso pelo Texas, com uma plataforma focada em frear a dependência da indústria de tecnologia de vistos de trabalho para “substituir trabalhadores norte-americanos por mão de obra estrangeira mais barata”.

Mas, independentemente do que tenha custado seu emprego, o ceticismo de Plumb em relação à substituição de trabalhadores por inteligência artificial é compartilhado por muitos economistas.

“A verdade é que simplesmente não sabemos”, diz Karan Girotra, professor de gestão na escola de negócios da Universidade Cornell. “Não porque a IA não seja incrível, mas porque ela exige muitos ajustes e grande parte dos ganhos acaba ficando com os funcionários individualmente, não com a organização. As pessoas economizam tempo e entregam o trabalho mais cedo.”

demissão e substituição de humanos por IAs
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Mesmo que um empregador passe a operar mais rápido por causa da IA, leva tempo para ajustar a estrutura de gestão de uma empresa de forma que permita operar com menos pessoas. Girotra não está convencido de que isso esteja acontecendo na Amazon, que, segundo ele, ainda está reduzindo o excesso de contratações feito durante a pandemia.

Um relatório do Goldman Sachs afirma que o impacto geral da IA sobre o mercado de trabalho ainda é limitado, embora alguns efeitos possam ser sentidos em “ocupações específicas como marketing, design gráfico, atendimento ao cliente e, especialmente, tecnologia”.

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Essas são áreas que envolvem tarefas alinhadas aos pontos fortes da atual geração de chatbots de IA generativa, capazes de escrever e-mails e textos de marketing, criar imagens sintéticas, responder perguntas e ajudar a escrever código.

Ainda assim, a divisão de pesquisa econômica do banco afirmou, em seu mais recente relatório mensal de acompanhamento da adoção de IA, que desde dezembro “poucos funcionários foram afetados por demissões corporativas atribuídas à IA”. O relatório, porém, foi publicado em 16 de janeiro, antes de Amazon, Dow e Pinterest anunciarem seus cortes.

DEMISSÕES E CORTES DE CUSTOS NAS BIG TECHS

O Pinterest foi o mais explícito, ao afirmar que a IA levou ao corte de até 15% de sua força de trabalho. A empresa disse estar “fazendo mudanças para avançar ainda mais em nossa estratégia orientada por IA, o que inclui a contratação de talentos com proficiência em IA. Como resultado, tomamos a difícil decisão de nos despedir de alguns membros da equipe”.

A mensagem foi reiterada em um documento no qual a empresa afirmou estar “realocando recursos para cargos e equipes focados em IA, que impulsionam a adoção e a execução da tecnologia”.

leva tempo para ajustar a estrutura de gestão de uma empresa de forma que permita operar com menos pessoas.

A Expedia adotou um discurso semelhante, embora os 162 profissionais de tecnologia demitidos incluíssem cargos especificamente ligados à IA, como cientistas de machine learning. Já a Dow vinculou suas 4,5 mil demissões a um novo plano que “utiliza IA e automação” para aumentar a produtividade e melhorar o retorno aos acionistas.

Os 16 mil cortes corporativos da Amazon fizeram parte de uma redução mais ampla no número de funcionários da gigante do e-commerce. Ao mesmo tempo, a empresa anunciou que também eliminaria cerca de cinco mil postos no varejo, como resultado da decisão de fechar quase todas as lojas Amazon Go e Amazon Fresh.

Isso se soma a uma rodada anterior de 14 mil demissões em outubro, levando o total para mais de 30 mil cortes desde que Jassy sinalizou, pela primeira vez, uma reestruturação impulsionada por IA. Como muitas empresas, a Amazon vem pressionando seus funcionários a buscar mais eficiência com a tecnologia.

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Na semana passada, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, disse que 2026 será o ano em que “a IA começará a mudar dramaticamente a forma como trabalhamos”.

“Estamos investindo em ferramentas nativas de IA para que funcionários na Meta consigam fazer mais, valorizando os colaboradores individuais e reduzindo as equipes”, afirmou em uma teleconferência sobre resultados da empresa. “Já estamos vendo projetos que antes exigiam grandes equipes serem realizados por uma única pessoa extremamente talentosa.”

MAIS PRODUTIVIDADE, MENOS EMPREGOS

Até agora, as demissões da Meta este ano se concentraram nas divisões de realidade virtual e metaverso. Também pesam sobre o emprego as mudanças na alocação de recursos do setor para o desenvolvimento de IA, que exige gastos massivos com chips, data centers que consomem muita energia e talentos especializados.

Em junho, Jassy disse aos funcionários da Amazon para serem “curiosos sobre IA, se educarem, participarem de workshops e treinamentos, usarem e experimentarem IA sempre que possível, colaborarem com suas equipes para inventar mais rápido e de forma mais ampla para os clientes – e para fazer mais com equipes mais enxutas”.

humanos substituídos por IA

Plumb afirma que seguiu isso à risca e que demonstrou sua proficiência no uso da ferramenta de programação com IA da Amazon (chamada Kiro) para “resolver problemas gigantescos” no sistema de remuneração da empresa.

“Se você não estivesse usando a ferramenta, seu gestor recebia um relatório e conversava com você sobre isso”, conta Plumb. “Havia apenas cinco pessoas em toda a empresa que usavam o Kiro mais do que eu ou tinham alcançado mais resultados.”

Para Girotra, é possível que o aumento de produtividade com IA esteja levando as empresas a cortar cargos de gerência intermediária. Mas, segundo ele, a realidade é mais simples: quem decide as demissões “só precisa cortar custos e fazer isso acontecer. Não acho que essas pessoas realmente se importem com qual é o motivo.”


SOBRE O AUTOR

Matt O'Brien é repórter de tecnologia da AP. saiba mais