A IA encurta o caminho. E se ele for a melhor parte?

Thomas Bangalter, ex-Daft Punk, levanta uma questão sobre criatividade em tempos de respostas cada vez mais rápidas

inteligência artificial como fator inibidor da criatividade
Créditos: Jorm Sangsorn/ Adobe Stock/ Onur Polat/ Unsplash

Carlos Henrique Vilela 4 minutos de leitura
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Sempre gostei muito de Daft Punk e continuo acompanhando o que Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo fazem desde o fim da dupla.

Recentemente, em uma entrevista sobre inteligência artificial, Bangalter disse que não tem muito interesse no uso criativo da tecnologia.

Vindo de alguém que passou boa parte da carreira explorando a relação entre humanos e máquinas, e num momento em que a IA provoca discussões cada vez maiores na indústria fonográfica, a afirmação me chamou a atenção.

Para Bangalter, parte da criação acontece antes de conseguirmos explicar direito o que estamos procurando. Tem tentativa, erro, intuição e coisas que surgem sem estar no plano.

Já a IA generativa costuma partir de uma descrição do que se pretende obter. O próprio Daft Punk construiu sua música explorando intensamente a tecnologia, mas as máquinas eram parte do processo, não entregavam a música pronta.

Em outra entrevista, agora com Devonté Hynes, Bangalter contou que, depois de anos produzindo música eletrônica, passou a identificar os equipamentos e as técnicas por trás dos sons que ouvia. Parte do mistério desapareceu e ele começou a buscar ferramentas que ainda fossem capazes de surpreendê-lo.

Em “Touch”, do álbum "Random Access Memories", chegou a trabalhar com cerca de 250 pistas no Pro Tools, testando, descobrindo, explorando. Depois desse processo gigantesco, passou dois anos apenas com um piano e uma GoPro. Ele não abandonou a tecnologia. Apenas deixou de querer sempre a mesma coisa dela.

Bangalter, no entanto, não defende que criar precise ser mais demorado ou complicado. O que chama atenção é a busca por situações em que ele próprio ainda não sabe exatamente o que vai encontrar.

A ferramenta interessa também pelo que pode revelar no percurso, e não apenas pela capacidade de executar uma intenção definida previamente.

Essa questão vai muito além da música. A inteligência artificial promete encurtar etapas: criar alternativas para uma campanha, gerar layouts, escrever uma primeira versão ou transformar horas de trabalho em minutos.

chegar mais rápido e descobrir algo novo não são exatamente a mesma coisa.

Só que, na criação, a conta é um pouco diferente. Uma pesquisa pode levar a uma referência que ninguém estava procurando. Uma ideia ruim pode destravar outra. Uma conversa lateral pode mudar um briefing inteiro.

O processo não serve apenas para chegar a um resultado. Às vezes, é durante ele que mudamos de ideia sobre qual deveria ser o resultado.

Encontrar rapidamente uma solução convincente também passa a influenciar o que buscamos depois. Em um experimento apresentado na CHI, uma das principais conferências internacionais sobre interação entre humanos e computadores, 60 participantes receberam uma tarefa de ideação visual.

Aqueles que trabalharam com um gerador de imagens por IA ficaram mais presos ao exemplo inicial e produziram menos ideias, com menor variedade e originalidade. É o que os pesquisadores chamam de fixação, ou seja, depois que uma solução aparece, pode ficar mais difícil explorar possibilidades muito diferentes dela.

Leia mais: A IA pode aumentar a criatividade – mas não para todos

Em agosto, uma meta análise publicada no periódico "Behaviour & Information Technology" acrescentou outra dimensão a essa discussão. Os pesquisadores reuniram 19 estudos sobre cocriação entre humanos e IA e encontraram um pequeno, mas estatisticamente significativo, efeito de homogeneização.

O dado chama atenção pois o desempenho individual pode melhorar enquanto a produção coletiva se torna mais parecida. Podemos ganhar qualidade e perder diversidade ao mesmo tempo. Para marcas e empresas que vivem de diferenciação, isso deveria importar tanto quanto os ganhos de produtividade.

O momento em que a IA entra no trabalho também faz diferença. Uma coisa é recorrer a ela quando já existe uma ideia, para testar outros caminhos, encontrar variações ou colocar uma hipótese à prova. Outra é começar pedindo uma solução. Nesse caso, uma das primeiras respostas pode acabar definindo cedo demais o que ainda deveria estar em aberto.

estudo indica que a IA pode tornar alguns tipos de profissionais mais criativos
Crédito: Unsplash

Já o mercado acrescenta outra pressão. Quando algo que levava um dia passa a ser feito em uma hora, dificilmente as sete horas restantes voltam para pesquisa, repertório ou experimentação. O prazo encurta, o volume aumenta e a nova capacidade vira expectativa.

Aos poucos, o que surgiu como uma forma de ganhar tempo passa a definir quanto se espera que cada um produza. E aí sobra menos espaço justamente para as etapas em que ainda não sabemos exatamente o que estamos procurando.

Vista por esse ângulo, a provocação de Bangalter é mais interessante do que uma simples resistência à inteligência artificial.

Leia mais: O risco criativo de deixar a IA fazer todo o trabalho

Alguém que passou décadas usando tecnologia para fazer música continua buscando instrumentos capazes de surpreendê-lo. Não porque o caminho mais difícil seja necessariamente melhor, mas porque chegar mais rápido e descobrir algo novo não são exatamente a mesma coisa.

A IA é cada vez melhor em responder ao que pedimos. Mas parte da criação está justamente no tempo em que ainda não sabemos o que pedir.


SOBRE O AUTOR

Carlos Henrique Vilela é estrategista criativo e executivo, com mais de duas décadas de trajetória entre tecnologia, cultura, comporta... saiba mais