A inteligência artificial consegue explicar as zebras da Copa do Mundo?

Da análise tática aos impedimentos, inteligência artificial amplia o acesso a dados antes restritos às seleções mais ricas

inteligência artificial desenvolvida pela Lenovo para a Copa do Mundo da Fifa
Créditos: Immo Wegmann/ Unsplash/ ,Cristina Gaidau/ Getty Images

Victor Dey 5 minutos de leitura

A Copa do Mundo de 2026 tem sido excepcionalmente imprevisível. O novo formato, com 48 seleções, produziu uma sequência de resultados surpreendentes – como Cabo Verde (67º colocado no ranking mundial), estreante na competição, que empatou por 2 a 2 com o Uruguai após sair atrás no placar e depois segurou a Espanha, em um empate sem gols.

A fase eliminatória, agora disputada por 32 seleções, manteve essa tendência. O Paraguai eliminou a tetracampeã Alemanha nos pênaltis depois que um gol alemão na prorrogação foi anulado por um lance controverso revisado pelo árbitro de vídeo (VAR), que apontou uma falta dentro da área.

Um dos fatores que podem ajudar a explicar esse cenário é a "democratização" do acesso aos dados dos atletas e do torneio.

A Lenovo, fabricante de computadores e infraestrutura de computação, desenvolveu uma ferramenta de inteligência artificial que oferece às 48 seleções acesso aos dados oficiais da FIFA durante o torneio.

Batizado de Football AI Pro, o sistema funciona como um assistente que coordena múltiplos agentes de IA capazes de analisar mais de duas mil métricas específicas do futebol, além de petabytes de informações sobre rastreamento dos jogadores, desempenho e histórico de partidas.

Desta vez, todas as seleções começaram a Copa com a mesma base de dados, da experiente Espanha até a estreante Curaçao.

Isso levanta uma questão mais ampla para esta edição do Mundial: o que acontece quando ferramentas avançadas de inteligência aplicada ao futebol deixam de ser exclusividade das grandes potências e passam a estar disponíveis para todas as equipes?

IA EM CAMPO

O software pode ser acessado por celulares, permitindo que jogadores e comissões técnicas consultem os dados diretamente. Segundo uma fonte próxima à FIFA, equipes e atletas têm utilizado intensamente a plataforma após as partidas para revisar desempenhos individuais e coletivos e comparar os resultados com jogos anteriores.

O papel da Lenovo vai além das análises táticas. Em parceria com a FIFA, a empresa desenvolveu um modelo tridimensional alimentado por IA de todos os 1.248 jogadores inscritos na competição. Esses avatares digitais são utilizados nas revisões de impedimento e ajudam torcedores a visualizar lances polêmicos por diferentes ângulos.

Nos bastidores, servidores Lenovo ThinkSystem instalados no Centro Internacional de Transmissão da FIFA, em Dallas, processam e distribuem imagens ao vivo para mais de mil telas espalhadas pelos locais oficiais do torneio. Segundo a empresa, a tecnologia reduziu a latência das transmissões de aproximadamente 40 segundos para menos de cinco.

Um desses modelos 3D chamou atenção recentemente durante a partida entre Portugal e Colômbia, em Miami. A Colômbia chegou a marcar o gol da vitória nos acréscimos, quando o zagueiro Davinson Sánchez cabeceou para as redes após uma cobrança de escanteio. A revisão em vídeo, porém, apontou um impedimento por uma diferença mínima na posição de um dos dedos do pé do defensor.

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Inteligência artificial criada pela Lenovo para a FIFA (Imagem: Reprodução de tela)

Ken Wong, presidente global do grupo de Soluções e Serviços da Lenovo e responsável pela equipe que desenvolveu essas tecnologias, afirma que um dos objetivos da empresa é usar a tecnologia para melhorar a forma como o futebol é jogado, arbitrado e apresentado ao público.

"Somos muito conhecidos pelo nosso portfólio de hardware, dos dispositivos de bolso até a computação de borda e a nuvem. Mas temos trabalhado bastante para mostrar aos nossos clientes, incluindo a FIFA, como a Lenovo mudou e quais são nossas capacidades além dos computadores pessoais."

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Wong não afirma que oferecer acesso igual ao Football AI Pro produz resultados iguais dentro de campo. Segundo ele, a FIFA valorizou a plataforma justamente porque ela disponibiliza seus dados proprietários para todas as seleções.

"Antes, apenas as equipes mais poderosas podiam contar com analistas altamente qualificados e com capacidade computacional suficiente."

JOGADORES E SEUS GÊMEOS DIGITAIS

Antes do início da Copa, todos os jogadores passaram por um escaneamento digital. Segundo a Lenovo, o processo leva cerca de um segundo por atleta e gera o modelo tridimensional utilizado pelos sistemas de VAR e de impedimento semiautomático – inclusive no lance que encerrou a comemoração colombiana diante de Portugal.

Mas os atletas mudam ao longo de um torneio que dura mais de um mês. Eles podem perder peso, alterar a forma de correr após uma lesão ou apresentar sinais de fadiga diferentes daqueles observados no início da competição.

"O escaneamento é feito apenas uma vez, e pequenas mudanças provavelmente não alteram o resultado de forma significativa", afirma Wong. "Essas pequenas alterações não têm impacto substancial porque estamos constantemente aprimorando a precisão do sistema."

Segundo ele, a tecnologia nasceu fora do futebol. "Precisávamos desenvolver propriedade intelectual para criar um gêmeo digital capaz de coordenar robôs operando em um ambiente tridimensional exatamente como fazem no mundo físico. A mesma plataforma agora é aplicada aos avatares 3D para fornecer informações mais precisas ao julgamento dos árbitros."

A DIGITALIZAÇÃO DA ARBITRAGEM

Imagens estabilizadas por IA e modelos tridimensionais dos jogadores agora ajudam a embasar decisões sobre gols, faltas e impedimentos. Isso levanta uma questão prática sobre o papel da Lenovo no sistema de arbitragem do futebol.

Segundo Wong, a função da empresa limita-se ao fornecimento da tecnologia. "A Lenovo é uma fornecedora de tecnologia, e a FIFA organiza os maiores torneios de futebol do planeta. Nosso trabalho é explorar todas as opções tecnológicas para ajudá-la a alcançar seus objetivos."

Ele ressalta que a palavra final continua sendo do árbitro. Essa distinção é importante, embora esteja se tornando mais complexa na prática. Um árbitro que conta com modelos tridimensionais com precisão de centímetros trabalha com uma base de evidências muito diferente daquela disponível para quem precisava avaliar um impedimento a olho nu.

árbitros da Copa do Mundo 2026 usam câmeras corporais

O regulamento continua atribuindo a decisão final ao árbitro, mas essa decisão agora depende de um sistema tecnológico que influencia aquilo que ele vê.

A tecnologia desenvolvida pela Lenovo para a Copa do Mundo busca reduzir a diferença de capacidade analítica entre as federações mais ricas e o restante das seleções.

Ela não torna todas as equipes igualmente fortes nem determina, sozinha, o resultado das partidas. Mas oferece a todas elas acesso a um nível de dados e de poder computacional que, até pouco tempo atrás, estava restrito a um grupo seleto.

Em um Mundial marcado por um número maior de participantes e margens cada vez menores entre vitória e derrota, essa democratização da análise de dados pode ser uma das razões pelas quais a distância entre favoritos e azarões parece menor do que nunca.


SOBRE O AUTOR

Victor Dey é editor de tecnologia e escreve sobre inteligência artificial, ciência de dados, cibersegurança e metaverso. saiba mais