A jumentinha que virou símbolo da resistência aos data centers de IA

O avanço dos data centers em áreas rurais e próximas a zoológicos provoca uma nova frente de oposição, liderada por defensores dos animais

Crédito: G-R Mottez/ The New York Public Library/ Unsplash

Chris Morris 3 minutos de leitura
Favoritar no Google

Eloise é uma jumenta miniatura de Jerusalém de 1 ano que vive em Hernando, na Flórida, uma pequena cidade na região oeste do estado por onde turistas nunca passam. Ela leva uma vida relativamente tranquila, dividindo a fazenda com Elsie, a vaca; as cabras Honey, Dolly, Roger, Polly e Dodger; e Tom, o peru. Ainda assim, de alguma forma, Eloise se tornou o rosto da resistência à construção de data centers na região.

Em uma reunião do governo local realizada em junho no condado de Citrus, moradores entraram em confronto com advogados que exaltavam os benefícios dos data centers. Cerca de quatro horas depois do início do debate, um morador, ao discutir os efeitos nocivos do ruído de baixa frequência emitido pelos data centers, observou: “Há uma jumentinha ali mesmo na rua. O nome dela é Eloise. E o ruído de baixa frequência é crucial para Eloise.” (A história de Eloise foi contada na íntegra justamente nesta semana, graças aos incansáveis repórteres do Tampa Bay Times.)

Cinco horas depois, quando a comissão de planejamento rejeitou a proposta, um dos integrantes comentou: “Estou preocupado com Eloise, porque ela é uma espécie de rosto dessa proposta.”

De fato, basta visitar a região hoje para encontrar moradores usando camisetas com o rosto de Eloise estampado no peito. Ela se tornou um símbolo de mobilização dos opositores aos data centers. Mas não é o único animal a dificultar os planos das empresas do setor.

Leões, tigres e... Brad Paisley?

No início deste ano, moradores de Nashville iniciaram uma batalha contra a construção de um data center proposto ao lado do zoológico da cidade, e o cantor country Brad Paisley classificou o projeto como “um cenário de pesadelo absoluto”.

Representantes do zoológico afirmaram que o data center poderia causar impactos negativos nos animais sob seus cuidados, apesar das garantias dadas à comunidade pela desenvolvedora DC Blox.

“Ninguém apresentou estudos ou avaliações de impacto ambiental. Apenas deram sua palavra”, escreveu a organização sem fins lucrativos Nashville Zoo em uma petição para interromper o projeto. “Não podemos esperar anos para descobrir como essa instalação afetou negativamente nossos 1,4 milhão de visitantes, nossa comunidade local ou os 3 mil animais que confiam a nós seus cuidados.”

Invocar os animais parece estar funcionando. No início deste mês, o Conselho Metropolitano de Nashville autorizou o uso de desapropriação para adquirir um terreno pertencente à desenvolvedora, bloqueando os planos para o data center. Uma batalha judicial é esperada.

Vacas preocupadas

Criadores de gado em vários estados também manifestaram preocupação com a construção de data centers em áreas rurais, onde suas propriedades costumam estar localizadas. Agricultores do Texas, Utah e Geórgia alertaram recentemente para o consumo de água dessas instalações. A questão é especialmente relevante para produtores de estados que já enfrentam escassez hídrica.

“Uma vaca consome cerca de 35 galões de água por dia”, disse Andrew Coppin, CEO da empresa de agrotecnologia texana Ranchbot Monitoring Solutions. “Um data center utiliza aproximadamente a mesma quantidade que 140 mil vacas.”

Ambientalistas também entraram na briga, com a publicação de um relatório que analisa quais estados estão colocando espécies ameaçadas em risco em favor de data centers. A Virgínia liderou a lista, com 283 data centers e 79 espécies ameaçadas.

Embora a água seja uma preocupação nesse caso, outra ameaça é a extensa remoção de vegetação, que pode provocar fragmentação de habitats e perda de florestas.

Filhotes e gatinhos

Para quem consegue resistir ao charme de vacas e jumentas, o Alabama tem um apelo animal para impedir a construção de um data center que talvez seja ainda mais difícil de ignorar.

A Greater Birmingham Humane Society entrou com uma ação judicial em julho para impedir que uma desenvolvedora construa um data center de IA ao lado do campus onde a organização planeja instalar um hospital veterinário. Segundo a entidade sem fins lucrativos, o projeto coloca em risco 44 mil animais.

A ação afirma que a cidade de Birmingham acelerou o projeto da desenvolvedora “em velocidade relâmpago” neste ano ao contornar as leis de zoneamento, privando a sociedade de uma oportunidade de manifestar suas preocupações, incluindo os riscos do “ruído, que pode interferir em suas operações e ser prejudicial a animais e seres humanos”.

É uma batalha que a sociedade protetora dos animais conhece bem. Oito anos atrás, perdeu um terreno quando a cidade vendeu a propriedade para outra desenvolvedora de data centers. A empresa? A DC Blox, a mesma que atualmente está envolvida na disputa com o Nashville Zoo.


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é jornalista, escritor, editor e apresentador especializado em tecnologia, games e eletrônicos. saiba mais