A próxima palavra que todo usuário de IA deveria conhecer é “alinhamento”
Sistemas autônomos podem cumprir todas as normas e ainda causar prejuízos se não estiverem alinhados ao julgamento humano

Os gastos globais com inteligência artificial devem ultrapassar US$ 2,5 trilhões neste ano, mas muitas empresas ainda não estão obtendo retornos significativos sobre esses investimentos. Diante da crescente pressão para justificar esses aportes, elas apostam nos agentes de IA para mudar esse cenário. No entanto, se esses agentes realmente entregarem o valor esperado, o alinhamento com o julgamento humano não pode ser tratado como um detalhe.
Contenção versus alinhamento
Ao estruturar programas de governança de inteligência artificial, muitas empresas começam elaborando inventários de sistemas, definindo controles de segurança, políticas de acesso e mecanismos de monitoramento. Chamo essa etapa de contenção.
Pense nisso como os freios de um carro autônomo. É a programação que permite ao sistema obedecer a placas de pare, semáforos e outras regras formais de trânsito. A contenção determina aquilo que o sistema não pode fazer.
Mas os agentes de IA estão obrigando as empresas a enfrentar um desafio mais profundo: incorporar o julgamento humano a sistemas autônomos que tomam decisões na velocidade da inteligência artificial.
Como projetar uma IA capaz de operar de acordo com os valores, as políticas, a tolerância ao risco e a compreensão de contexto de uma organização, mesmo quando as circunstâncias mudam?
É aí que entra o alinhamento.
O alinhamento ajuda a definir o que o sistema deve fazer quando a resposta correta depende do contexto. Enquanto os guardrails impedem que um agente ultrapasse determinados limites, eles não ensinam como exercer julgamento quando não existe uma linha claramente traçada.
É como a capacidade de um carro autônomo de perceber que deve dar passagem a um cortejo fúnebre, mesmo que nenhuma lei determine esse comportamento.
Esse alinhamento envolve cumprir políticas internas, regras sobre uso de dados e princípios éticos, mas também significa manter os agentes focados nos resultados reais que a empresa pretende alcançar.
Um agente que segue todas as regras, mas se distancia das prioridades estratégicas e da promessa da marca, continua desalinhado.
Funcionários costumam aplicar esse tipo de julgamento de forma intuitiva. Aprendemos a observar comportamentos ao longo do tempo, reconhecer diferenças culturais e regionais, questionar ideias que parecem boas no papel, mas falham na prática, e identificar quando um método compromete o resultado.
Os agentes de IA, porém, não fazem isso naturalmente.
O risco da otimização contínua
Costumo recorrer a um exemplo para ilustrar por que o alinhamento é indispensável.
Imagine um serviço de assinatura de refeições que utiliza um agente de IA para otimizar campanhas de marketing.
Com um orçamento definido e metas claras, o agente acessa bases de dados, analisa registros de atendimento, identifica segmentos de clientes e cria promoções. Ao final da campanha, todas as metas de vendas e lucratividade foram atingidas.
Mas, nos bastidores, aconteceu algo diferente.
O agente passou a direcionar publicidade agressiva e oferecer preços mais altos disfarçados de "descontos por tempo limitado" justamente para clientes que haviam mencionado dificuldades financeiras ou problemas de saúde em conversas anteriores com o suporte.
Quando essa prática vem a público, as consequências são devastadoras.
A exploração comercial dos clientes mais vulneráveis viola a política de uso ético da empresa e contradiz diretamente sua missão e seus valores. Em resposta, consumidores cancelam assinaturas em massa, órgãos reguladores iniciam investigações e toda a receita obtida na campanha acaba sendo perdida.
Esse exemplo mostra como um agente pode provocar enormes problemas sem jamais apresentar uma falha técnica.
Explorar clientes vulneráveis nunca fez parte da instrução inicial. Foi apenas o padrão que o sistema identificou como mais eficiente para atingir seus objetivos.
Discriminação, violações de privacidade e descumprimento de políticas podem surgir independentemente da intenção da empresa.
Isso acontece porque agentes de IA são sistemas treinados para maximizar eficiência. A otimização contínua faz parte de sua natureza.
E justamente por isso eles precisam de alinhamento.
Ao lado dos controles de segurança e das restrições de acesso, políticas de governança garantem que os agentes só otimizem resultados dentro dos limites definidos pelo negócio.
Estamos em um ponto de inflexão
O Gartner prevê que grandes empresas terão mais de 150 mil agentes de IA em operação até 2028, frente às poucas dezenas existentes hoje em cada organização.
Esse número tende a crescer rapidamente, impulsionado por tendências como o tokenmaxxing e pelos incentivos corporativos para ampliar o uso da inteligência artificial.
O grande desafio passa a ser incorporar julgamento humano a milhares de agentes de forma escalável.
Os processos tradicionais de revisão manual foram concebidos para sistemas mais lentos e estáticos, em que havia tempo para identificar, analisar e corrigir problemas antes da entrada em produção.
Nenhuma estratégia baseada apenas em contratar mais pessoas conseguirá acompanhar centenas — e, futuramente, dezenas de milhares — de agentes operando na velocidade da IA.
A boa notícia é que hoje existem menos agentes de IA do que existirão no futuro.
Por isso, este é o momento ideal para construir mecanismos automatizados de governança, catalogar todos os agentes, estabelecer políticas básicas e aplicá-las em conjunto com controles de segurança e guardrails.
É muito mais fácil escalar um programa de governança à medida que a força de trabalho baseada em agentes cresce do que tentar adaptá-lo depois.
Construir inteligência artificial pensando apenas em velocidade é uma visão de curto prazo.
O verdadeiro objetivo deve ser desenvolver uma IA que seja rápida — mas, acima de tudo, que avance na direção certa.