A startup de IA criada por Ben Affleck agora pertence à Netflix

A InterPositive desenvolve ferramentas de inteligência artificial para cineastas e passa a integrar a estratégia da Netflix para produção audiovisual

Ben Affleck vende startup para Netflix (março 2026)
Netflix via Asset Share / BoliviaInteligente via Unsplash

Janko Roettgers 3 minutos de leitura

Apenas alguns dias após abandonar a planejada aquisição da Warner Bros. Discovery, a Netflix retorna com um negócio bem diferente: a gigante do streaming adquiriu a InterPositive, uma startup fundada pelo ator e diretor Ben Affleck, que desenvolve ferramentas de IA para cineastas.

Toda a equipe da InterPositive se juntará à Netflix como parte da aquisição. O próprio Affleck se tornará consultor do serviço de streaming. Os detalhes financeiros do negócio não foram divulgados.

Affleck fundou a InterPositive em 2022, após perceber que os modelos de vídeo de IA existentes não estavam prontos para produzir imagens com qualidade de Hollywood do zero. "Junto com uma pequena equipe de engenheiros, pesquisadores e criativos, comecei a filmar um conjunto de dados proprietário em um estúdio controlado, com todas as familiaridades de uma produção completa", afirma.

Com a ajuda desses dados de treinamento, a InterPositive desenvolveu seu próprio modelo de vídeo, otimizado para uso em ambientes de produção reais. "Também incluímos restrições para proteger a intenção criativa, de modo que as ferramentas sejam projetadas para uma exploração responsável, mantendo as decisões criativas nas mãos dos artistas", explica Affleck.

A InterPositive operou em sigilo até hoje, e um porta-voz da Netflix se recusou a compartilhar detalhes sobre a equipe da empresa. No entanto, uma breve investigação revelou que a InterPositive foi originalmente constituída como Fin Bone LLC, uma entidade que solicitou diversas patentes relacionadas a ferramentas de IA para produção cinematográfica nos EUA e no exterior. (Essas patentes creditam Affleck como inventor.)

"As pessoas geralmente pensam em [IA] como algo que cria algo do nada. Eu preciso digitar algo em um computador e ele vai me dar um filme. Não é assim que funciona.”

Ben Affleck

Uma queixa comum nesses pedidos é que os modelos de vídeo com IA existentes se concentram inteiramente no resultado visual final e não na maneira como os cineastas tradicionalmente constroem as cenas individuais — um sentimento compartilhado por Affleck em um vídeo que a Netflix publicou na manhã de quinta-feira (5), juntamente com o anúncio. “As pessoas geralmente pensam em [IA] como algo que cria algo do nada”, diz Affleck no vídeo. “Eu preciso digitar algo em um computador e ele vai me dar um filme. Não é assim que funciona.”

COMO É A TECNOLOGIA DA STARTUP VENDIDA POR AFLLECK

Em vez de gerar imagens do zero, a tecnologia da InterPositive exige que os cineastas filmem grande parte das cenas brutas primeiro. Essas imagens são então usadas para treinar um modelo de IA personalizado, que, por sua vez, pode ajudar com problemas comuns de pós-produção.

Leia mais: Como integrar a IA generativa no trabalho evitando o risco das alucinações

“Você pode usar seu próprio modelo para remover os cabos de segurança em cenas de ação, reenquadrar uma cena, recuperar uma cena que você perdeu, ajustar a iluminação, aprimorar os fundos”, diz Affleck.

A IA generativa tem sido controversa em Hollywood. Atores e sindicatos têm criticado duramente a tecnologia, temendo que os estúdios possam usá-la para substituir o trabalho humano por automação barata. “Eu entendo o ceticismo porque eu o compartilho”, diz Affleck, acrescentando que ficou assustado na primeira vez que viu a IA generativa em ação. No entanto, o ator e diretor também argumenta que é importante que a indústria cinematográfica não fique à margem: "Eu estava preocupado que essa tecnologia crescesse fora do ecossistema de cineastas e artistas".

Cena de desabamento de prédio na série argentina de ficção científica The Eternaut.
O Eternauta, da Netflix, teve o uso de IA na criação de efeitos visuais(Divulgação/Netflix)

A Netflix reconheceu publicamente o uso de IA em algumas de suas produções, incluindo a criação de efeitos visuais em sua série de ficção científica O Eternauta e o rejuvenescimento dos atores do filme Happy Gilmore 2, com Adam Sandler, em uma cena de flashback. A empresa também publicou diretrizes sobre como os parceiros de produção podem e não podem usar IA em conteúdo da Netflix.

"Trabalhamos com [aprendizado de máquina] e IA há muito tempo, mas sempre a serviço do uso responsável da tecnologia, e não da tecnologia pela tecnologia", afirma Elizabeth Stone, diretora de produtos e tecnologia da Netflix.


SOBRE O AUTOR

Janko Roettgers é repórter de tecnologia e autor da newsletter Lowpass.cc, que fala sobre o futuro da indústria do entretenimento. saiba mais