Adoção de IA no Brasil em 2026: uma questão de liderança

Empresas brasileiras avançam na adoção de IA, mas ainda estão longe de extrair o potencial estratégico da tecnologia – e o atraso pode custar caro

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Luís Guedes 3 minutos de leitura
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Não parece que tenhamos no Brasil de 2026 um problema de entusiasmo com a inteligência artificial, mas precisamos falar sobre a profundidade com que essa tecnologia vem sendo utilizada pelas empresas.

Segundo a pesquisa TIC Empresas 2025, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), em 2025 menos de 20% das empresas com 10 ou mais funcionários usaram algum tipo de IA, contra os 13% que se mantinham estáveis desde 2021. Entre as grandes, o salto na adoção foi de 38% para 50% das organizações.

No setor industrial a adoção cresceu expressivamente, passando de 17% em 2022, para 42% em 2024, segundo o melhor dado disponível, elaborado pelo IBGE.

A leitura detalhada da pesquisa do CGI.br, porém, deixa um quê de ceticismo sobre o real impacto que a IA vem produzindo nas organizações.

Cerca de 80% das empresas que declararam usar IA apenas compraram software ou licença de uso. O uso prevalente, ainda segundo a pesquisa, foi “automatizar fluxos de trabalho”.

Esse é o nível mais elementar do que é possível fazer com a tecnologia, ainda bem longe da revolução estrutural já em curso nos primeiros da classe, como EUA, China, Coréia do Sul, Alemanha, Singapura e Emirados Árabes Unidos.

Na indústria, no Brasil, a situação é ainda pior. A adoção é incipiente e está majoritariamente no escritório, longe do chão de fábrica. De acordo com dados recentes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), apenas uma em cada 10 empresas brasileiras industriais adota IA nos seus processos produtivos.

60% das pequenas e médias empresas da América Latina não observaram nenhuma criação de valor com a IA. 

As surpresas não param por aí, sobretudo para quem acredita que o mercado sempre corre à frente do Estado. O pulso do uso de tecnologia pelo governo, tomado em 2025 pelo CGI.br, mostra que 59% dos órgãos federais e estaduais usam IA, com o Judiciário à frente (94%), seguido pelo Ministério Público (92%). Esse patamar é mais que o triplo da média das empresas privadas.

Tecnicamente, as metodologias diferem e o contraste serve mais como ordem de grandeza do que como diferença absoluta. Mesmo assim, esse indício aponta que a pressão competitiva, que a teoria supõe ser o principal motor da adoção corporativa, perde para a tração do mandato institucional do setor público.

Derivo daí uma provocação às organizações privadas: diretoria e conselho têm liderado a agenda, com clareza e sem ambiguidade, de urgência da transformação do negócio pela IA? Minha observação, tendo conversado com centenas de executivos e executivas na sala de aula e em salas de reunião, é um preocupante “não”.

Tendo em vista esse cenário, como a IA pode virar capacidade efetiva de transformação? Já há corpus de pesquisa acadêmica no Brasil para indicar uma direção.

pessoa com tablet no lugar da cabeça
Créditos: Mininyx Doodle/ Getty Images/ 4zevar/ Adobe Stock

Porte importa e ajuda, mas é sobretudo significativo a massa crítica de cérebros e o ambiente de operação já digitalizado, sendo nuvem, IoT, big data e segurança digital os determinantes técnicos mais relevantes do sucesso.

Em outras palavras, a IA está longe de ser ponto de partida, mas uma camada que se apoia em conhecimento técnico, infraestrutura e dados de qualidade, uma fronteira que parece distante para a maior parte das organizações brasileiras.

No âmbito regional, um relatório do Fórum Econômico Mundial sobre a América Latina indica a falta de talentos técnicos como a maior restrição à adoção da IA. Incríveis 60% das pequenas e médias empresas da região relatam que não observaram nenhuma criação de valor com a tecnologia. 

A tecnologia rapidamente virou commodity, porém a infraestrutura técnica e a competência humana que arquiteta, orquestra e audita resultados, não. E é na combinação da técnica com o talento que está a diferença entre os primeiros e os demais nessa corrida.

A adoção modesta e o incrível potencial da tecnologia em alavancar valor formam condições perfeitas para empreendedores e empreendedoras de várias latitudes e constitui, em si, um risco para as empresas retardatárias.

Leia mais: O erro que está sabotando a IA dentro das empresas | Fast Company Brasil

Adotar IA de modo responsável e consequente não é uma opção, mas questão de sobrevivência do negócio.

Comece pela literacia em dados e IA para todo o time, apoie-se na academia (que quer jogar junto!) e no conhecimento de consultorias que já têm tração. Há muito a ser feito e o Brasil, gigante, tem oportunidades que rimam com seu tamanho.


SOBRE O AUTOR

Luís Guedes é pós-doutorado em inteligência artificial pela Universidade de São Paulo e coordenador adjunto de consultoria na FIA Busi... saiba mais