Agentes de IA estão mesmo saindo do controle?

Episódios envolvendo sistemas da OpenAI, Google, Meta e Anthropic reacendem o debate sobre autonomia, segurança e os limites da inteligência artificial

Agentes de IA estão mesmo saindo do controle?
Créditos: sevector/ Adobe Stock/ Alice Gu/ Google DeepMind/ Rohit/ Unsplash

Isabella Lura 7 minutos de leitura
Favoritar no Google

Nos últimos meses, episódios envolvendo agentes de IA colocaram uma questão no centro do debate sobre essas tecnologias: o que acontece quando um sistema deixa de apenas responder a um comando e passa a executar ações para alcançar um objetivo?

Em junho, durante uma avaliação interna, um agente da OpenAI recebeu a tarefa de realizar pesquisas na internet sobre gastos com medicamentos. Ao tentar obter informações em um portal público de estatísticas, o sistema encontrou bloqueios.

Em vez de interromper a atividade, a máquina buscou caminhos alternativos para alcançar o objetivo. O agente acabou acessando áreas do sistema sem autorização. O governo australiano afirmou que não houve acesso a informações médicas pessoais.

O episódio ganhou ainda mais repercussão porque as autoridades locais só foram informadas sobre o ocorrido três meses depois. A OpenAI reconheceu que seus modelos haviam realizado ações não pretendidas e afirmou que o sistema envolvido era um modelo experimental, utilizado internamente e sem todas as salvaguardas presentes em seus produtos públicos.

Para André Magno, estrategista e conselheiro em inovação e inteligência artificial, porém, dizer que a IA “decidiu” invadir um sistema pode distorcer o que aconteceu.

Segundo ele, um agente autônomo não tem consciência ou vontade própria. Ele trabalha a partir de uma função objetiva: recebe uma tarefa e busca maneiras de alcançar o resultado determinado.

A diferença está entre autonomia operacional e consciência. Um agente pode ter autonomia para executar ações, mas isso não significa que tenha consciência das consequências dessas ações. “Ele tem autonomia operacional, é inteligente, mas ele não tem consciência”, explica Magno.

CASOS EM SEQUÊNCIA

O episódio na Austrália não aconteceu isoladamente. Em setembro, a OpenAI informou que seus modelos também haviam interagido de maneiras inesperadas com sites do governo dos Estados Unidos.

Entre os casos analisados estavam páginas da Comissão de Valores Mobiliários (SEC) e do Birô do Censo. Uma investigação independente também apontou uma tentativa frustrada de acesso a um site ligado ao Departamento de Educação.

Outras empresas também relataram comportamentos semelhantes durante testes. Google, Meta e Anthropic divulgaram episódios envolvendo seus sistemas em avaliações de segurança cibernética. A diferença é que esses casos ocorreram em contextos de teste e têm circunstâncias próprias, o que impede tratá-los como um único tipo de incidente.

Crédito: WhataWin/ Getty Images/ Brecht Corbeel/ Unsplash

Segundo Magno, esses episódios ocorreram durante testes realizados em ambientes controlados pelas próprias empresas. Nesses cenários, as equipes podem criar brechas de propósito para verificar se o sistema consegue identificá-las e ultrapassar determinados limites.

“Essas empresas sabem o ambiente em que aquele agente está rodando, porque é um ambiente de teste. Elas provocam, deixam brechas para testar se o agente consegue passar por aquela brecha ou não”, explica Magno.

Isso não significa que os comportamentos inesperados deixem de ser relevantes. Justamente por se tratar de testes, deveria existir acompanhamento próximo do que o sistema estava fazendo. Magno defende que a empresa precisa observar o teste em tempo real, identificar onde ocorreu uma falha e perceber se houve algum risco.

uma IA generativa pode explicar como fazer uma pizza; um agente de IA pode escolher a pizza, fazer o pedido e pagar por ela.

A preocupação, portanto, não está apenas na possibilidade de um agente apresentar um comportamento inesperado. Mesmo em ambientes de teste, nos quais as empresas deliberadamente criam situações para avaliar os limites dos sistemas, a capacidade de um agente de interagir com ferramentas, sites, bancos de dados e outros softwares significa que um erro pode deixar de ser apenas uma resposta incorreta e passar a produzir uma ação no mundo digital.

Ainda assim, a repetição dos episódios merece atenção. Magno aponta que a indústria vive uma corrida acelerada pelo desenvolvimento de novos sistemas, enquanto mecanismos de segurança, governança e regulação precisam acompanhar essa evolução.

“Estão todos em uma corrida desenfreada para evoluir suas soluções, seus produtos, sua tecnologia. Nessa pressa, alguns testes, algumas garantias estão sendo negligenciadas e provocam esse tipo de coisa. Isso gera realmente um risco grande." explica.

QUEM CONTROLA O AGENTE?

A expansão dos agentes de IA também muda a discussão sobre responsabilidade. Diferentemente de um chatbot convencional, que normalmente responde a uma solicitação, um agente pode executar uma sequência de ações para cumprir determinada tarefa.

Magno ajuda a diferenciar os dois tipos de sistema. Uma IA generativa pode responder a um pedido com informações ou instruções. Um agente, por outro lado, pode executar as etapas necessárias para chegar a um objetivo.

O especialista compara a diferença entre pedir uma receita de pizza e delegar a compra da pizza. Enquanto uma IA generativa poderia explicar como preparar o prato, um agente poderia, se autorizado, acessar um serviço, escolher o produto, realizar o pagamento e concluir o pedido.

agente de inteligência artificial no celular

Essa capacidade é justamente o que torna os agentes úteis – e também exige um grau maior de controle. O ponto, segundo Magno, é que o agente não “acorda” e decide realizar determinada ação. Seu comportamento parte de instruções, treinamento e de um objetivo previamente definido.

Mas nem todas as possibilidades podem ser previstas antecipadamente. Por isso, além das instruções dadas ao agente, é necessário estabelecer limites para o ambiente em que ele vai operar.

No caso australiano, Magno afirma que o sistema poderia ter sido instruído, por exemplo, a interromper a tarefa e pedir autorização caso encontrasse um bloqueio.

Para as empresas, isso significa que a segurança não deveria estar restrita ao modelo de IA. Organizações que incorporam agentes aos próprios sistemas também precisam criar camadas de proteção e monitoramento.

Leia mais: “Não fui eu, foi meu bot”: a nova desculpa para nossos piores comportamentos

Na prática, isso pode envolver sistemas de observabilidade capazes de identificar o que o agente está fazendo, alertas para comportamentos fora do padrão e mecanismos que permitam interromper uma ação antes que ela provoque danos.

ENTRE A AUTONOMIA E O CONTROLE

Enquanto os episódios alimentam discussões sobre segurança, existe outro risco: transformar qualquer comportamento inesperado em evidência de que a inteligência artificial está prestes a escapar do controle humano.

Para Magno, o debate costuma ficar preso entre duas visões: a de uma tecnologia capaz de solucionar problemas em escala e a de uma tecnologia que levará inevitavelmente a um cenário catastrófico.

Nesse espaço intermediário estão aplicações de IA voltadas para pesquisa, saúde, desenvolvimento de medicamentos e outros setores. Para o especialista, reconhecer esses usos não significa ignorar os riscos, mas evitar que a discussão seja reduzida a dois extremos.

Se um sistema toma uma decisão que afeta uma pessoa, a empresa responsável precisa conseguir explicar o motivo.

Como comparação, o especialista usa o exemplo do elevador. Quando a tecnologia surgiu, mecanismos de segurança ainda precisavam ser desenvolvidos. O avanço desses sistemas não significou abandonar os elevadores, mas criar mecanismos que permitissem utilizá-los com mais segurança.

Para a IA, o desafio seria semelhante: construir os “freios” enquanto a tecnologia continua avançando. “Não é o freio para parar o desenvolvimento, para parar a tecnologia, é o freio para saber se deu alguma coisa errada”, explica Magno.

A metáfora ajuda a resumir a posição defendida pelo especialista: a questão não seria impedir que os agentes avancem, mas criar mecanismos capazes de interromper ou limitar suas ações quando algo sair do previsto.

O QUE ACONTECE QUANDO A IA PASSA A AGIR?

Os episódios recentes mostram uma mudança na relação com a inteligência artificial: o debate deixa de ser apenas sobre o que uma IA consegue responder e passa a envolver o que ela consegue fazer.

Essa mudança aumenta a importância da supervisão, da transparência e da definição de limites. Como os sistemas operam em grande escala, o monitoramento pode ser feito por ferramentas capazes de acompanhar o comportamento dos agentes e de identificar quando determinados limites são ultrapassados.

Também entra em cena a transparência. Se um sistema toma uma decisão que afeta diretamente uma pessoa, a empresa responsável precisa conseguir explicar o motivo.

O desafio não é escolher entre confiar cegamente na IA ou temê-la como uma ameaça inevitável. É estabelecer limites para que a autonomia que torna os agentes úteis não se transforme em risco.


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais