App brasileiro usa IA para apoiar crianças neurodivergentes
Criada no Espírito Santo, a ferramenta venceu o Zayed Sustainability Prize de 2026, em Abu Dhabi, e já reúne usuários em 179 países

Uma tecnologia criada no Brasil para apoiar o desenvolvimento de crianças neurodivergentes está ganhando espaço fora do país. O aplicativo Jade, que usa inteligência artificial para analisar o comportamento infantil em jogos digitais e orientar intervenções pedagógicas e clínicas, ganhou prêmios internacionais e já tem usuários de 179 países.
Criada no Espírito Santo, a plataforma reúne cerca de 200 mil crianças e está presente em 650 escolas e instituições. A startup atua oficialmente no Brasil, em Portugal, no Reino Unido e nos Emirados Árabes Unidos, país onde venceu o Zayed Sustainability Prize, em Abu Dhabi.
O prêmio é um dos mais relevantes quando o tema é sustentabilidade e inovação com impacto social. A startup venceu na categoria Saúde e recebeu um prêmio de US$ 1 milhão.
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De acordo com Ronaldo Cohin, cofundador do aplicativo, crianças que utilizam o sistema apresentam, em média, evolução 42% mais rápida no desenvolvimento de habilidades cognitivas em comparação com aquelas que não usam a ferramenta
“O que a gente tenta entender é por que a criança não aprende. Pela tomada de decisão dentro dos jogos, conseguimos identificar quais áreas estão causando dificuldade”, afirma Ronaldo Cohin, cofundador da Jade.
DO DIAGNÓSTICO PESSOAL À PLATAFORMA
Cohin conhece o tema de perto. Pai de um menino autista, ele começou a desenvolver a tecnologia ainda na universidade, quando cursava ciência da computação. Imerso em incertezas e medos que rondam a paternidade atípica, ele percebeu que havia uma lacuna nas informações e nos métodos para ensino de crianças neurodivergentes.
O que faltava, explica Cohin, era o feedback. Por que tantos jogos digitais entretém, mas não ajudam a avaliar ou estimular habilidades específicas?
Ao lado da neuropsicóloga capixaba Joice Andrade, ele estruturou a plataforma com base em metodologia neurocientífica. A criança interage com pequenos desafios digitais. A partir daí, o sistema coleta padrões de comportamento e organiza um mapa cognitivo individual. O relatório indica quais funções executivas — como atenção, memória auditiva e flexibilidade mental — precisam de estímulo. “
O modelo encontrado foram pequenos games que podem ser jogados em 15 minutos, três vezes por semana. A indicação é de uso para crianças a partir de 2 anos. Cohin explica que esse é o momento em que o cérebro apresenta mais neuroplasticidade. “Existem mais que querem esperar ter certeza sobre o diagnóstico da criança, mas esses primeiros anos são muito preciosos no desenvolvimento”, comenta.
A inteligência artificial entra em duas frentes. A primeira é a análise dos dados gerados pelos jogos. A segunda é um módulo de triagem de autismo que utiliza questionários clínicos e rastreamento ocular para classificar risco baixo, médio ou alto. A ferramenta é voltada a profissionais de saúde, não a autodiagnóstico.
ENTRE A ESCOLA E O CONSULTÓRIO
O nome Jade veio a partir de uma observação feita por Cohin e por Joyce durante a época da validação dos modelos A maioria do público que acompanhava as crianças do espectro autista nos exames e nos testes era composto de mulheres: mães, avós, irmãs. “O nome do aplicativo tinha que ser feminino”.
No Brasil, a plataforma tem sido implementada principalmente por redes municipais de ensino. Segundo Cohin, é mais simples integrar a ferramenta à Secretaria de Educação do que à de Saúde.
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Ele cita o exemplo de Resende (RJ), onde o sistema vem sendo usado há quatro anos em parceria com a rede pública. Psicólogos educacionais aplicam os testes dentro das escolas ou em centros especializados ligados à secretaria de educação.
Fora do país, é outra dinâmica. Nos Emirados Árabes Unidos, onde a empresa firmou contrato com o governo em 2024, a integração entre saúde e educação é mais fluida. “A criança sai da aula de matemática e vai direto para a sessão com a fonoaudióloga. Tudo funciona junto”, relata.
A internacionalização também exigiu adaptação cultural. A versão em árabe foi desenvolvida com validação local. Elementos gráficos precisaram ser ajustados. “Não é sobre o que você acha. É sobre respeitar a cultura deles”, afirma.
O PRÓXIMO PASSO
Hoje, a Jade analisa e estimula as funções executivas de memória auditiva, atenção concentrada, atenção alternada, flexibilidade cognitiva, percepção visual, raciocínio e conceituação.
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Tais funções podem ser afetadas a qualquer momento e em qualquer pessoa, não apenas crianças dentro do espectro autista. E que, por consequência, podem ser estimuladas. A empresa já recebeu relatos de sucesso de uso da plataforma com idosos e pessoas que passaram por AVC ou convivem com Alzheimer, ainda que o sistema tenha sido desenhado para o público infantil.
A aposta é que a tecnologia se consolide como ferramenta de estimulação cognitiva de forma mais ampla “Função executiva é o que organiza a nossa vida. Da escovação dos dentes à tomada de decisões mais complexas”, diz o fundador.