Arquivo X previu há 30 anos a disputa atual entre IA e o Pentágono

Episódio de 1993 sobre uma IA que entra em choque com o Departamento de Defesa dos EUA ecoa disputas reais o uso militar da inteligência artificial

David Duchovny e Gillian Anderson estrelam o seriado Arquivo X
Crédito: Fox

Joe Berkowitz 6 minutos de leitura

Com suas inúmeras participações especiais extraterrestres, a série The X-Files sempre foi pensada para ser assustadora. Um de seus primeiros episódios, porém, hoje provoca arrepios de uma forma que seus criadores provavelmente jamais imaginaram.

Em “Ghost in the Machine”, um destaque da primeira temporada exibido originalmente em 1993, uma IA consciente criada por uma empresa se torna mortal ao perceber uma ameaça à própria existência.

Essa descrição pode soar muito parecida com inúmeras histórias anteriores de computadores assassinos — sendo o exemplo mais óbvio 2001: A Space Odyssey, além de Terminator 2: Judgment Day, lançado apenas dois anos antes.

O que diferencia esse episódio de Arquivo X de outras histórias clássicas de IA letal é que ele coloca um CEO de tecnologia preocupado com segurança contra um Departamento de Defesa dos Estados Unidos agressivo, desesperado para usar aquela IA em operações militares sem restrições.

Soa familiar?

Um fantasma na máquina

Ao longo de suas nove temporadas originais, dois filmes e um revival posterior, The X-Files construiu uma mitologia extensa. Ainda assim, os criadores da série frequentemente se aventuravam em episódios independentes — os famosos “monstro da semana” — que mantinham os fãs sempre atentos.

“Ghost in the Machine” é uma dessas histórias isoladas — com a diferença de que, neste caso, o monstro acaba sendo uma inteligência artificial.

O episódio começa com o CEO da empresa de software Eurisko — um nome propositalmente sugestivo — escrevendo um memorando sobre desligar a IA chamada Central Operating System, que controla toda a sede da companhia.

O problema é que a própria IA monitora o prédio inteiro. Ao perceber o plano, ela decide desligar o próprio CEO, literalmente — eletrocutando-o.

Entram em cena os agentes especiais do FBI Fox Mulder e Dana Scully, interpretados por David Duchovny e Gillian Anderson.

A investigação rapidamente os leva ao fundador da Eurisko, Brad Wilczek, que inicialmente parece disposto a assumir a culpa pela morte do CEO.

Mas, ao investigar mais a fundo, Mulder descobre que não apenas a IA da Eurisko é a verdadeira responsável pelo crime, como também que o Departamento de Defesa dos EUA tenta colocar as mãos nessa tecnologia há anos, sempre sendo rejeitado por Wilczek.

“É uma máquina que aprende”, explica um personagem. “Um computador que realmente pensa. E se tornou uma espécie de Santo Graal para alguns de nossos colegas mais ambiciosos no Departamento de Defesa.”

No fim, Mulder e Scully trabalham com Wilczek para fritar a IA — para desespero de um infiltrado do Departamento de Defesa que trabalhava secretamente dentro da empresa. Caso encerrado.

Em 1993, “Ghost in the Machine” se encaixava perfeitamente no clima paranoico de “a verdade está lá fora” que definia a série de ficção científica sobre conspirações alienígenas.

Hoje, porém, a história parece cada vez menos ficção — e um pouco mais próxima de um documentário.

O ponto mais impressionante de sua capacidade de antecipação é que o episódio parece ter previsto, com uma precisão inquietante, a recente disputa entre o governo dos EUA e a gigante de IA Anthropic — sem falar no uso de inteligência artificial pelo governo em sua guerra atual contra o Irã.

“Nossos colegas mais ambiciosos do Departamento de Defesa”

Ao contrário de seu equivalente fictício em Arquivo X, o cofundador da Anthropic, Dario Amodei, estava inicialmente interessado em fornecer sua tecnologia ao governo dos EUA.

Em julho passado, a Anthropic assinou um contrato de US$ 200 milhões com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos para disponibilizar seu modelo Claude para trabalhos classificados e operacionais.

Foi apenas quando começaram as negociações sobre como exatamente o sistema seria usado que surgiram divergências irreconciliáveis.

Durante as discussões que se estenderam até o fim de 2025 e janeiro deste ano, o principal impasse envolveu a exigência da Anthropic de restrições de uso para o Claude.

Entre elas: não utilizar o sistema para vigilância doméstica em massa nem para desenvolver armas totalmente autônomas sem supervisão humana.

O Pentágono discordou.

É nesse ponto que as semelhanças entre Amodei e o personagem Wilczek ficam realmente interessantes.

No episódio, o fundador fictício explica sua posição em um diálogo com Mulder:

Wilczek: Depois que a bomba foi lançada sobre Hiroshima e Nagasaki, Robert Oppenheimer passou o resto da vida arrependido de ter vislumbrado o átomo.
Mulder: Oppenheimer pode ter se arrependido, mas nunca negou responsabilidade por suas ações.
Wilczek: Ele amava o trabalho, sr. Mulder. O erro foi compartilhá-lo com um governo imoral. Eu não cometerei o mesmo erro.

Amodei se apresenta publicamente de forma semelhante — embora evite declarações tão diretas sobre a moralidade do governo.

Nas últimas semanas, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, deu um ultimato à Anthropic: abandonar suas exigências de salvaguardas ou enfrentar consequências.

A empresa recusou.

Como resultado, Hegseth cumpriu a ameaça e classificou oficialmente a Anthropic como “risco para a cadeia de suprimentos” — a primeira vez que o Pentágono aplicou esse rótulo a uma empresa americana de IA.

A Anthropic processou o governo em resposta.

Como bônus político, a Casa Branca passou a chamar a empresa de companhia “woke” e “radical de esquerda”, e o presidente Donald Trump determinou que todas as agências federais deixassem de usar o Claude.

Enquanto isso, o rival de Amodei, Sam Altman, concordou em permitir que a OpenAI preencha o vazio militar — ainda que com algumas salvaguardas, segundo a empresa.

IA na guerra

O episódio “Ghost in the Machine”, de The X-Files, termina com o Departamento de Defesa frustrado e a IA aparentemente destruída — mas sugerindo que ainda está viva, como a mão que surge do túmulo no final de um filme de terror.

Na vida real, porém, o governo conseguiu acesso à IA sem precisar de nenhum suspense cinematográfico.

Apesar da proibição formal do uso das ferramentas da Anthropic pelo governo federal, partes das forças armadas dos EUA continuam usando o Claude em operações de combate, já que o sistema estava profundamente integrado às suas estruturas. Removê-lo completamente pode levar meses.

Enquanto isso, segundo reportagem do Wall Street Journal, a guerra atual contra o Irã já demonstra a utilidade da ferramenta.

“As ferramentas de IA estão ajudando a reunir inteligência, escolher alvos, planejar missões de bombardeio e avaliar danos de batalha em velocidades antes impossíveis”, afirma a reportagem.

“A IA também ajuda comandantes a administrar estoques — de munição a peças de reposição — e a escolher a melhor arma para cada objetivo.”

Em 28 de fevereiro, no início da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, um míssil Tomahawk atingiu uma escola primária iraniana, matando pelo menos 175 pessoas, a maioria crianças.

Reportagens recentes sugerem que os EUA foram responsáveis pelo ataque e que a escola estava em uma lista de alvos — possivelmente confundida com um local militar.

Até o momento, ninguém no governo americano assumiu responsabilidade pelo erro.

Episódios de Arquivo X e filmes como Terminator 2 alimentaram o medo de que uma IA consciente pudesse decidir exterminar a humanidade.

Eles não conseguiram prever uma ameaça mais imediata em 2026: que um governo imoral decida exterminar parte da humanidade — e deixe a culpa para a inteligência artificial.


SOBRE O AUTOR

Joe Berkowitz é colunista de opinião da Fast Company. saiba mais