China vira laboratório global para uso massivo de IA
Com milhões de usuários e apoio estatal, China amplia uso de IA em massa e fortalece ecossistema tecnológico próprio

Cerca de 50 pessoas se reuniram recentemente, em pleno dia útil, do lado de fora da sede de uma empresa chinesa de internet móvel, esperando ajuda para instalar um assistente de inteligência artificial.
A cena em Pequim se repetiu durante vários dias em diferentes eventos – e se repetiu em março em Shenzhen, polo tecnológico do sul da China – enquanto engenheiros auxiliavam multidões interessadas em configurar o popular agente de IA OpenClaw em seus laptops.
“Tenho medo de ficar para trás nos avanços tecnológicos”, disse Sun Lei, gerente de recursos humanos de 41 anos, durante um dos encontros promovidos pela Cheetah. Ela espera que a ferramenta ajude na busca e triagem de currículos em diferentes plataformas de recrutamento.
Mais de um ano depois de a DeepSeek, rival chinesa da OpenAI, surpreender o mundo com um modelo avançado de IA, a China se transformou em um grande laboratório de testes para o uso massivo dessas ferramentas.
Os modelos desenvolvidos nos Estados Unidos ainda lideram em poder bruto de computação. Mas consumidores e empresas chinesas adotaram a tecnologia em ritmo acelerado, impulsionando sua disseminação em praticamente todos os setores possíveis.
ADOÇÃO EM MASSA POSICIONA A CHINA COMO LÍDER GLOBAL
Os chineses estão usando IA para quase tudo: reservar viagens, planejar roteiros, pedir comida, chamar transporte.
De uma população de 1,4 bilhão de pessoas, mais de 600 milhões já utilizavam IA generativa em dezembro, segundo relatório do Centro de Informações da Rede de Internet da China, órgão ligado ao governo. O número representa um salto de 142% em relação ao ano anterior.
Com o crescimento recente do uso de agentes de IA (como o OpenClaw) por empresas chinesas, também disparou o consumo de dados pelos modelos de linguagem.

Mediado em “tokens” (unidades de informação que podem representar partes de palavras), o volume semanal processado por modelos chineses já supera o dos modelos norte-americanos, segundo a OpenRouter, plataforma que monitora tráfego e segurança entre diferentes sistemas de IA.
Produtos chineses equipados com IA, como carros e robôs, também avançam rapidamente. Isso inclui desde robôs humanoides com capacidades cognitivas sofisticadas até sistemas embarcados em veículos capazes de executar tarefas complexas, como reservar mesas em restaurantes.
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“A competição em IA claramente está migrando dos modelos para os ecossistemas”, afirma Lizzi Lee, pesquisadora do Centrode Análise da China, do Asia Society Policy Institute, com foco em economia e tecnologia. “Os usuários chineses estão atuando como testadores em tempo real, em escala massiva.”
Gigantes chinesas de tecnologia como Tencent, Alibaba e Baidu também correm para monetizar a IA. A Tencent integrou o OpenClaw ao WeChat, o superaplicativo chinês que reúne mensagens, pagamentos e delivery. Já a Alibaba vem incorporando IA agêntica aos seus fluxos de trabalho.
RESTRIÇÕES AJUDAM E ATRAPALHAM AS IAs CHINESAS
A China também tenta criar vantagens estruturais para o setor, investindo pesado na formação de talentos e garantindo acesso a eletricidade abundante e barata, insumo essencial para sistemas de IA altamente consumidores de energia.
Para alcançar avanços tecnológicos, incluindo em IA, líderes chineses prometeram crescimento anual médio de pelo menos 7% nos investimentos nacionais em pesquisa e desenvolvimento até 2030, dentro do atual plano quinquenal do país.
o volume semanal de tokens processado por modelos chineses já supera o dos modelos norte-americanos.
O governo também lançou um plano nacional chamado “AI Plus”, que prevê a integração da inteligência artificial em áreas como saúde e educação.
Em Shenzhen, tribunais chegaram a aumentar em 50% o número de casos processados no último ano, segundo autoridades locais, parcialmente graças a ferramentas de IA aplicadas ao sistema judiciário.
Mesmo assim, o acesso limitado aos chips mais avançados do mundo – consequência das restrições impostas pelos Estados Unidos – continua sendo um gargalo importante para o avanço chinês.
“Os controles de exportação desaceleraram a capacidade chinesa de fabricar chips e representam o calcanhar de Aquiles de muitos laboratórios de IA que dependem de semicondutores avançados”, diz Samm Sacks, pesquisadora sênior da New America, especializada em políticas tecnológicas chinesas.
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Ao mesmo tempo, essas restrições acabaram incentivando uma integração maior entre design, manufatura e adoção tecnológica dentro da cadeia local. “Com o tempo, essa dinâmica pode acelerar, e não frear, as ambições chinesas”, afirma Sacks.
DE SEGUIDORA A INOVADORA
Quando a DeepSeek lançou a prévia de seu aguardado modelo V4, uma mudança chamou atenção: o sistema passou a utilizar parcialmente chips produzidos pela Huawei. Na prática, isso reduz a dependência de fabricantes norte-americanos como a Nvidia.
Um relatório recente do Instituto de IA Centrada no Humano, da Universidade Stanford, afirma que a diferença de desempenho entre os principais modelos norte-americanos e chineses “praticamente desapareceu”.
Autoridades e empresas como Anthropic e OpenAI acusam startups chinesas de roubar tecnologias de IA dos EUA. Pequim nega as acusações e afirma que elas não têm fundamento.

Para Lian Jye Su, analista-chefe da consultoria Omdia, a distância entre China e Estados Unidos continuará diminuindo, apesar das restrições norte-americanas e da Grande Muralha Digital chinesa – o sistema de censura e controle da internet mantido pelo Partido Comunista.
Segundo analistas como Su, obstáculos como a censura tendem a ter impacto limitado sobre a expansão da IA no país, já que a tecnologia continua sendo testada, integrada e escalada dentro do ambiente digital controlado da China.
“Não vai demorar para que a China deixe de ser apenas uma rápida seguidora e passe a atuar como inovadora paralela”, afirma.
Com a colaboração de Shihuan Chen, Dake Kang e Matt O’Brien