Como uma IA está ajudando a proteger ursos na natureza
O BearID utiliza um algoritmo para localizar rostos de ursos em fotografias e identificá-los por reconhecimento facial

Quando um urso-pardo atacou um grupo de alunos do quarto e do quinto ano no oeste do Canadá, no fim de novembro de 2025, o episódio desencadeou mais do que uma operação de resgate para as 11 pessoas feridas – quatro delas com lesões graves.
As autoridades locais passaram a tentar identificar o urso específico envolvido no ataque para, a depender do resultado da avaliação, realocá-lo ou sacrificá-lo.
O ataque foi um comportamento extremamente incomum para um urso e levou a um esforço para entender exatamente o que havia acontecido e por quê. Isso significava encontrar o animal envolvido – que, segundo relatos de testemunhas, era uma fêmea acompanhada de dois filhotes.
Equipes de busca vasculharam a região a pé e de helicóptero e capturaram quatro ursos. Comparações de DNA com evidências coletadas no local do ataque inocentaram todos os animais capturados, que foram devolvidos à natureza. Após mais de três semanas sem localizar o urso responsável pelo ataque, as autoridades encerraram as buscas.
O caso evidencia a dificuldade de identificar ursos individualmente, algo que se torna crucial quando um deles apresenta um comportamento fora do comum. Para a maioria das pessoas, os ursos tendem a parecer muito semelhantes entre si. Observadores sem treinamento têm grande dificuldade para distingui-los.
O sistema usa deep learning para analisar imagens de ursos e identificar indivíduos específicos.
Avanços recentes em visão computacional e em outros tipos de inteligência artificial oferecem uma possível alternativa: reconhecimento facial para ursos.
Eu estudo como cientistas produzem conhecimento e tecnologias e como novas ferramentas estão transformando a ciência ecológica e as práticas de conservação. Parte da minha pesquisa acompanha o trabalho de cientistas da computação e ecólogos que desenvolvem sistemas de reconhecimento facial para animais.
Essas ferramentas, que refletem tanto avanços tecnológicos quanto o crescente interesse popular pela vida selvagem, podem remodelar a forma como cientistas e o público em geral compreendem os animais, ao permitir que criaturas antes anônimas passem a ser conhecidas como indivíduos.
NOVAS FORMAS DE IDENTIFICAR ANIMAIS
Uma ferramenta de reconhecimento facial para ursos chamada BearID está em desenvolvimento pelos cientistas da computação Ed Miller e Mary Nguyen, em parceria com Melanie Clapham, ecóloga comportamental que trabalha para o Conselho Nanwakolas das Primeiras Nações, realizando pesquisas aplicadas sobre ursos-pardos na Colúmbia Britânica.
O sistema usa deep learning – um subconjunto do aprendizado de máquina que se baseia em redes neurais artificiais – para analisar imagens de ursos e identificar indivíduos específicos.

O corpo dos ursos muda de forma drástica ao longo do ano: eles passam de magros logo após a hibernação, na primavera, para robustos e prontos para o inverno, no outono. No entanto, a geometria do rosto de cada um – a disposição de características chave como olhos e nariz – permanece relativamente estável ao longo das estações e dos anos.
O BearID utiliza um algoritmo para localizar rostos de ursos em fotografias e medir as distâncias entre esses pontos-chave. Cada animal possui um conjunto único de medidas, o que permite que uma foto tirada ontem seja comparada com outra registrada muito tempo antes.
Além de ajudar a identificar ursos que atacaram humanos ou que, de alguma forma, causam problemas às pessoas, essa identificação também pode auxiliar ecólogos e gestores ambientais a estimar com mais precisão o tamanho das populações de ursos.
FOCO EM ANIMAIS ESPECÍFICOS
Estudiosos da vida selvagem às vezes veem com ressalvas o foco em animais individuais. Dar nomes pode fazê-los “parecer menos ferozes”. Mas as decisões sobre manejo da vida selvagem são pensadas para grupos de animais e áreas de território.
Quando as pessoas criam vínculos com indivíduos específicos – inclusive ao lhes dar nomes –, as decisões se tornam mais complexas, tanto na natureza quanto em ambientes de cativeiro.

Quando o público se conecta emocionalmente com animais específicos, pode se opor a decisões de manejo que prejudiquem indivíduos em nome da saúde da população como um todo.
Por exemplo, gestores ambientais podem precisar realocar ou sacrificar animais para preservar o equilíbrio de uma população mais ampla ou de um ecossistema inteiro.
Leia mais: Animais realmente têm emoções? Estudo com IA revela
Por outro lado, conhecer e compreender os ursos como indivíduos também pode aprofundar o fascínio e as conexões que as pessoas já têm com esses animais.
Além de identificar animais problemáticos, acredito que ferramentas algorítmicas como o reconhecimento facial possam ajudar um público ainda maior a ampliar sua compreensão sobre os ursos como um todo, ao se conectar com um ou dois indivíduos específicos.
Este artigo foi republicado de "The Conversation" sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.