Corrida por IA impulsiona projetos de gás e preocupa especialistas

Boa parte da expansão dos data centers nos EUA deve ser abastecida por gás natural – e pelas consequências climáticas que vêm junto

fontes de energia para data centers de inteligência artificial
Créditos: Boom Supersonic/ Chris Robert/ Mariia Shalabaieva/ Unsplash

Naveena Sadasivam e Jake Bittle 5 minutos de leitura

A Boom Supersonic quer construir o primeiro avião comercial supersônico do mundo. Fundada em 2014, a empresa nasceu com a ambição de tornar as viagens aéreas muito mais rápidas (até duas vezes a velocidade dos jatos de passageiros atuais) ao mesmo tempo em que promete uma pegada ambiental menor.

Durante anos, a Boom concentrou seus esforços no desenvolvimento de tecnologia de motores de alto desempenho capazes de sustentar o voo supersônico.

Embora ainda não tenha apresentado seu jato revolucionário, a companhia identificou no ano passado uma aplicação nova, e potencialmente muito lucrativa, para sua tecnologia: gerar eletricidade para os data centers que alimentam o boom da inteligência artificial.

Muitos desses data centers buscam o tipo de energia flexível e disponível 24 horas por dia associada às turbinas a gás natural de ciclo combinado. Essas máquinas de grande porte queimam gás para girar turbinas e gerar eletricidade e, em seguida, capturam o calor residual para movimentar novamente as turbinas, aumentando a eficiência.

Dentro do universo da geração de energia por combustível fóssil, elas estão entre as opções mais eficientes para fornecer energia de base despachável. Mas, com a demanda por essas turbinas disparando e a oferta cada vez mais apertada, desenvolvedores têm recorrido a alternativas criativas.

O resultado dessa corrida é claro: boa parte da expansão dos data centers nos EUA deve ser abastecida por gás natural – e pelas consequências climáticas que vêm junto.

PROJETOS SE ESPALHAM PELO MUNDO

A Boom Supersonic fechou um acordo de US$ 1,25 bilhão com a desenvolvedora Crusoe, que está construindo um conjunto de data centers para a OpenAI. Pelo contrato, a fabricante fornecerá 29 turbinas a gás derivadas de motores a jato, que poderão ser instaladas em data centers espalhados pelos Estados Unidos.

O acordo é apenas um exemplo de como desenvolvedores e empresas de tecnologia estão se desdobrando para encontrar fontes de energia para os data centers que se multiplicam pelo país. O da Meta em El Paso, no Texas, será abastecido por mais de 800 mini-turbinas móveis.

Enquanto isso, a fabricante de equipamentos de construção Caterpillar forneceu motores a gás para um data center na Virgínia Ocidental. E a própria Crusoe utilizou turbinas “aeroderivadas” (baseadas em modelos de aviões) em seu gigantesco campus de data centers Stargate, em Abilene, no Texas.

prédio de data center da Meta instalado no estado da Geórgia, nos EUA
Data center da Meta instalado no estado da Geórgia, nos EUA (Crédito: Peter Essick)

A consultoria Global Energy Monitor relata que projetos que somam mais de 1 mil gigawatts de geração a gás estão atualmente em desenvolvimento no mundo – um salto de aproximadamente 31% apenas no ano passado.

Os Estados Unidos lideram essa corrida, respondendo por cerca de um quarto desse pipeline global. Mais de um terço da nova capacidade norte-americana será dedicada a alimentar data centers.

Essa corrida para expandir a geração a gás natural terá impactos relevantes para o clima. Nos primeiros momentos do boom dos data centers, defensores argumentavam que as novas instalações de IA seriam abastecidas por fontes renováveis, como parques solares e eólicos.

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Embora isso tenha ocorrido em alguns casos, os desenvolvedores também estão garantindo anos adicionais de uso de combustíveis fósseis. Uma análise de pesquisadores da Universidade Cornell estima que essa expansão pode adicionar até 44 milhões de toneladas de CO2 à atmosfera até 2030 – o equivalente às emissões anuais de cerca de 10 milhões de automóveis.

“É uma expansão enorme proposta”, afirma Cara Fogler, diretora adjunta de pesquisa, estratégia e análise do Sierra Club, que monitora a ampliação de usinas a gás por concessionárias. “Carvão que não está sendo desativado e gás planejado que tenta entrar em operação podem acabar bloqueando o avanço da energia limpa.”

ENERGIA EXCLUSIVA PARA DATA CENTERS

Impulsionados pelo boom da IA no Vale do Silício, desenvolvedores de data centers têm dificuldade para acompanhar a demanda crescente por capacidade computacional, principalmente porque garantir a enorme quantidade de eletricidade necessária para operar essas instalações se tornou um desafio.

A pressa resultou em longas filas para obter fornecimento das concessionárias de energia tradicionais. Como consequência, desenvolvedores e empresas de tecnologia passaram a assumir a geração de energia por conta própria, produzindo eletricidade no próprio local.

veja até quanto o consumo pode aumentar
Crédito: Freepik

O CEO da Bloom Energy, startup que fabrica células a combustível instaladas atrás do medidor para data centers, afirmou recentemente, em conversa com investidores, que a carteira de pedidos da empresa mais que dobrou no último ano.

Só o estado do Texas tem quase 58 gigawatts de geração a gás natural em diferentes estágios de planejamento e construção, segundo estimativas recentes do Global Energy Monitor. Quase metade das usinas em construção vai fornecer energia exclusivamente para data centers, sem conexão as redes elétricas regionais.

Os projetos também estão surgindo em áreas rurais com poucas perspectivas de desenvolvimento econômico. A desenvolvedora BorderPlex propõe um campus de data centers de US$ 165 bilhões no sul do Novo México.

A corrida para expandir a geração a gás natural terá impactos muito relevantes para o clima.

A instalação será abastecida por duas microrredes operando com turbinas a gás de ciclo simples, que apenas queimam gás para gerar energia, sem reaproveitar o calor residual. A capacidade prevista de 2.880 megawatts supera toda a geração da principal concessionária do centro do estado.

“Nunca vi algo desse tamanho antes, em termos de valor e escala”, afirma Colin Cox, advogado do Centro para a Diversidade Biológica, que se opõe ao projeto. “Chamar isso de microrrede desafia o bom senso.”

O desenvolvedor promete empregos e arrecadação de impostos para a região, mas o futuro é incerto. Ainda não está claro se a demanda por produtos de IA acompanhará os investimentos históricos feitos por empresas como a OpenAI.

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Se a bolha estourar, o estado pode ficar com turbinas a gás sem usuários – ativos que não seriam necessários e que, pelas leis climáticas locais, talvez nem pudessem ser utilizados. “Serão ativos encalhados”, diz Cox. “Não há muito o que fazer com uma turbina a gás além de queimar gás para fazê-la girar.”

Este artigo foi publicado no “Grist”, organização de mídia independente sem fins lucrativos dedicada à cobertura de questões climáticas. Leia o artigo original.


SOBRE O AUTOR

Naveena Sadasivam e Jake Bittle são jornalistas do site Grist. saiba mais