Depois dos agentes autônomos, a IA terá emoções sintéticas?
Se máquinas desenvolverem estados afetivos capazes de orientar suas decisões, estaremos diante de uma nova fronteira da inteligência artificial

Assistindo à série "Futuro Deserto", da Netflix, uma questão me chamou a atenção. Na trama, androides desenvolvidos para conviver com pessoas nos colocam diante de uma fronteira desconfortável entre comportamento programado e algo que se parece com sentimento.
É ficção científica. Mas talvez o mais interessante sejam as perguntas que antecipa: até que ponto as emoções continuarão sendo exclusivamente humanas?
Durante décadas, discutimos inteligência artificial pela perspectiva cognitiva: máquinas capazes de calcular, reconhecer padrões, compreender linguagem e tomar decisões.
Com a IA generativa e os agentes, acrescentamos a autonomia. Construímos sistemas que recebem objetivos, elaboram planos, utilizam ferramentas, executam tarefas e avaliam resultados.
Talvez a próxima fronteira seja a emoção.
Na década de 1990, Rosalind Picard, pesquisadora do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ajudou a estabelecer a computação afetiva, dedicada a estudar como computadores poderiam reconhecer, interpretar e responder às emoções humanas.
Hoje, sistemas analisam texto, voz, expressões e outros sinais para estimar estados emocionais. Mas reconhecer emoções é diferente de possuí-las.
Pesquisadores já experimentam arquiteturas nas quais estados artificiais semelhantes a emoções funcionam como variáveis internas, interferindo em memória, aprendizado e decisões.
Isso não significa que uma máquina esteja “sentindo” medo ou satisfação. Significa construir mecanismos computacionais com funções semelhantes às das emoções em nosso comportamento.
MÁQUINAS COM SENTIMENTOS?
Costumamos enxergar emoção e racionalidade como forças opostas. Biologicamente, porém, emoções também orientam decisões: o medo prioriza ameaças, a curiosidade estimula a exploração, a satisfação reforça comportamentos e a aversão nos afasta de determinadas escolhas. Em ambientes nos quais é impossível calcular todas as alternativas, ajudam a definir prioridades.
Por que uma inteligência artificial não poderia se beneficiar de algo semelhante?
Imagine um agente operando durante meses em um ambiente imprevisível. Um estado equivalente à “curiosidade” poderia estimular a exploração de soluções; a “cautela”, modificar sua resposta ao risco; e a “frustração”, fazê-lo abandonar estratégias malsucedidas.

Nada disso exige consciência, apenas estados internos que influenciem como o sistema percebe, aprende e decide. E se as emoções também forem adaptativas?
Uma IA poderia descobrir que mais “curiosidade” melhora sua capacidade de solucionar problemas e reforçar esse parâmetro. Ao perceber que o excesso reduz a eficiência, aumentaria a “cautela”, aprendendo a equilibrar ambos.
Após milhões de ciclos de aprendizado, a arquitetura afetiva poderia ser diferente daquela projetada por seres humanos. Estaríamos além da imitação: poderíamos falar em emoções sintéticas, estados computacionais internos e adaptativos capazes de influenciar decisões.
Hoje, sistemas de IA analisam sinais para estimar estados emocionais. Mas reconhecer emoções é diferente de possuí-las.
Talvez elas nem precisassem se parecer com as nossas. Emoções humanas resultam de milhões de anos de evolução biológica, ligadas à sobrevivência e à organização social. Uma IA não compartilha necessariamente dessas pressões.
Seus estados poderiam estar associados à redução de incerteza, busca por consistência, exploração de possibilidades ou otimização de resultados. Talvez nem tenhamos vocabulário para descrevê-los.
Surge então uma questão filosófica: se uma máquina demonstra tristeza, recorda acontecimentos associados a ela e modifica suas decisões por isso, estaria realmente triste?
Não sabemos, e não existe evidência de que os atuais sistemas de IA possuam experiências subjetivas ou consciência.
RELAÇÃO HUMANO-MÁQUINA
Para empresas e sociedade, há uma pergunta mais próxima: o que acontece quando passamos a perceber uma máquina como emocional?
Criamos vínculos com animais, personagens, objetos e avatares. É razoável imaginar relações mais intensas com uma IA que conheça nossa história, lembre conversas, perceba alterações emocionais e adapte seu comportamento.
A discussão passa a interessar também empresas, governos, reguladores e conselhos de administração. Compreender nossas emoções pode ajudar máquinas a ensinar, acompanhar idosos, adaptar experiências digitais, melhorar o atendimento e apoiar profissionais de saúde. Também levanta questões de transparência, privacidade, persuasão e limites éticos.

Pensamos em cibersegurança como proteção de sistemas, identidades e informações. Talvez precisemos incorporar outra dimensão: a segurança emocional digital.
A União Europeia já estabeleceu restrições ao reconhecimento emocional em determinados contextos por meio de sua legislação de IA, sinal de que essa dimensão começa a entrar na agenda de governança.
Há alguns anos, ao escrever sobre transformação digital, defendi que algoritmos inteligentes transformariam empresas e modelos de negócio. Também sugeri que caminharíamos para organizações mais autônomas, com algoritmos participando de decisões antes exclusivamente humanas.
Talvez seja necessário acrescentar uma dimensão: a próxima fronteira da IA pode ser também afetiva.
Não sabemos se máquinas experimentarão emoções como nós. Talvez a comparação seja equivocada. Emoções sintéticas podem ser mecanismos diferentes, desenvolvidos para permitir que sistemas aprendam, priorizem, se adaptem e interajam melhor conosco.
Ainda há mais perguntas do que respostas. Justamente por isso, este é um momento para discutir nossa relação com máquinas cada vez mais capazes de interpretar, representar e responder às emoções.
O futuro da inteligência artificial provavelmente não será definido apenas pelo quanto as máquinas serão capazes de pensar, mas também pela maneira como escolheremos nos relacionar com elas.