Editora transforma livros em séries com IA e reacende debate entre autores

HarperCollins investe em parceria com o estúdio de animação com IA Toonstar, mas enfrenta resistência de escritores

uso de inteligência artificial para escrever livros
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Sage Swaby 3 minutos de leitura

A HarperCollins anunciou uma parceria de vários anos com o estúdio de animação com IA Toonstar para coproduzir séries originais no YouTube baseadas em títulos da editora. É o segundo anúncio seguido envolvendo acordos com empresas centradas em inteligência artificial.

No final de março, a Harlequin (divisão da HarperCollins) anunciou um acordo com a empresa de entretenimento em IA Dashverse para coproduzir 40 microdramas animados. Inspirada nos romances da linha Harlequin, a parceria estreia em abril com uma adaptação de "A Fairy-Tail Ending", de Catherine Mann.

Os acordos evidenciam como editoras estão recorrendo à IA para explorar novos formatos de narrativa, mas também provocam reação negativa de parte da indústria.

No caso da Toonstar, a primeira produção prevista é "Friendship List", baseada na série jovem-adulta homônima escrita por Lisa Greenwald. A animação será acompanhada por uma graphic novel da HarperAlley, selo de quadrinhos da HarperCollins voltado ao público jovem. Segundo a editora, os autores serão consultados e receberão royalties.

Fundada em 2015 por John Attanasio e Luisa Huang, a Toonstar reúne profissionais vindos de empresas como Disney, Warner Bros. e DreamWorks.“Nossa abordagem centrada no artista garante que personagens e histórias permaneçam fiéis à visão original, enquanto nossa tecnologia de produção permite escala com rapidez e alta qualidade”, disse Attanasio.

Alguns autores criticaram abertamente as parcerias com IA. Em resposta ao acordo entre Harlequin e Dashverse, a escritora Sarah MacLean, que se define como “hater de IA”, escreveu no Threads: “se você escreve para a Harlequin, hoje é o dia de enviar um e-mail dizendo que é contra o uso de IA generativa em qualquer forma e pedir que a empresa saia do acordo com a Dashverse.”

A autora Sylvia Day também demonstrou frustração com a parceria com a Toonstar, afirmando que seria problemático se os autores não tiverem a opção de recusar participação. A HarperCollins não respondeu aos pedidos de comentário da Fast Company.

UMA TENDÊNCIA QUE VAI ALÉM DA EDITORA

As iniciativas da HarperCollins refletem um movimento mais amplo nas indústrias criativas, que buscam novas formas de contar histórias com IA. As reações têm sido mistas – de atores, roteiristas, sindicatos e fãs.

Em 2024, a Lionsgate fechou um acordo com a empresa de IA Runway para treinar modelos de geração de vídeo com seu catálogo de filmes e séries. A decisão gerou críticas de artistas preocupados com substituição por automação. A proteção de atores frente à IA é uma prioridade do sindicato SAG-AFTRA e foi tema central das greves de roteiristas e atores iniciadas em 2023.

Mais recentemente, em março, a Netflix adquiriu a InterPositive, empresa fundada pelo ator e diretor Ben Affleck, que defende que a tecnologia não cria vídeos a partir de prompts, mas auxilia na pós-produção.

Ben Affleck vende startup para Netflix (março 2026)
Netflix via Asset Share / BoliviaInteligente via Unsplash

Affleck também defende manter humanos no centro do processo criativo e é signatário da Creators Coalition on AI, que promove discussões sobre o impacto da IA no entretenimento.

Segundo a Netflix, as ferramentas da InterPositive utilizam imagens de produções existentes para construir modelos de IA que trabalham em conjunto com criadores, sem substituir roteiristas, diretores, atores e equipes técnicas.

A aquisição gerou reações divididas. Em um vídeo no TikTok, o criador Daniel Westheimer comentou: “se eu me preocupo com substituir artistas diante das câmeras, devo me preocupar igualmente com substituir os que estão atrás delas.”

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Já Kimberly Owczarski, professora da Universidade Cristã do Texas, afirmou à NPR que Affleck defende um uso responsável da inteligência artificial no cinema.

No fim das contas, a indústria criativa parece estar entrando em uma nova fase: uma em que a IA não apenas acelera a produção, mas redefine quem e como as histórias são contadas.


SOBRE A AUTORA

Sage Swaby é jornalista e colaboradora da Fast Company. saiba mais