Eleitores dos EUA mandam um recado contra a expansão dos data centers

Vitórias de candidatos contrários aos empreendimentos mostram que a resistência das comunidades virou um obstáculo para as big techs

Eleitores dos EUA mandam um recado contra a expansão dos data centers
Créditos: Magnific/ Mick Haupt/ Unsplash

Adele Peters 5 minutos de leitura
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Os data centers estiveram nas urnas nas eleições legislativas nos Estados Unidos. E saíram derrotados.

Embora a apuração dos resultados ainda esteja em andamento, até 4 de novembro, 38 das 39 propostas de restrição à instalação de data centers haviam sido aprovadas.

As medidas vão desde moratórias temporárias para novas construções até proibições completas. Além disso, vários candidatos que fizeram da oposição aos data centers uma das principais bandeiras de suas campanhas também venceram.

Um exemplo é William Lawrence, candidato democrata à Câmara dos Representantes pelo 7º distrito congressional de Michigan, uma região politicamente disputada que Donald Trump venceu por uma pequena margem em 2024.

Lawrence, organizador comunitário progressista e cofundador do movimento Sunrise, era novato na política e enfrentou o desafio de concorrer contra o atual deputado Tom Barrett, apoiado por Trump.

Nas primárias, disputando a vaga com dois democratas ligados ao establishment, que haviam arrecadado mais dinheiro, Lawrence venceu em parte porque prometeu combater a instalação de data centers.

"Ele encontrou uma questão capaz de mobilizar moradores da região, independentemente de suas posições partidárias", afirma Matt Grossman, diretor do Instituto de Políticas Públicas e Pesquisa Social da Universidade Estadual de Michigan.

ESTADOS IMPEDIDOS DE LEGISLAR SOBRE IA

Pesquisas recentes indicam que sete em cada 10 norte-americanos não querem que data centers sejam construídos em suas comunidades. Entre as preocupações estão os possíveis impactos nas contas de energia elétrica, além do barulho e do consumo de água.

Em seu primeiro anúncio de campanha, Lawrence apareceu em uma fazenda e declarou: "bilionários da tecnologia querem transformar este campo em um enorme data center, que vai disparar nossas contas de energia e desvalorizar nossos imóveis".

Depois de participar de reuniões de planejamento local para acompanhar apresentações de empresas interessadas em desenvolver projetos de data centers, ele classificou a situação como um "abuso de poder" contra comunidades que não dispõem de recursos para reagir.

anúncio de campanha do candidato democrata William Lawrence nas eleições de 2026
Crédito: Reprodução/ X

Lawrence também defendeu outras formas de controle sobre o setor de tecnologia, incluindo uma pausa no desenvolvimento de sistemas avançados de inteligência artificial e a adoção de requisitos obrigatórios de segurança para essas ferramentas.

Barrett, seu adversário republicano, havia apoiado a construção de data centers no passado. Isso inclui seu voto a favor de uma versão da lei One Big Beautiful Bill, que teria impedido os estados de regulamentar a inteligência artificial e, provavelmente, também os data centers, durante uma década.

A disposição acabou sendo retirada do projeto. A legislação, no entanto, prevê incentivos fiscais para empresas que investem na expansão da infraestrutura de IA. Barrett também votou a favor da Lei SPEED, que acelera a construção de data centers.

vários candidatos que usaram a oposição aos data centers como bandeira de campanha venceram.

À medida que a reação contrária aos empreendimentos cresceu, Barrett passou a defender que as comunidades deveriam ter autonomia para decidir se os projetos seriam construídos em seus territórios. Mas a mensagem não convenceu os eleitores. Lawrence venceu.

Para Daniel Schiff, professor associado de políticas de tecnologia da Universidade Purdue, ainda é cedo para afirmar que a oposição aos data centers tenha decidido uma disputa eleitoral. Mas os resultados confirmam a força dessa rejeição.

"Se as eleições tivessem apontado na direção contrária, teríamos dito que essa questão dos data centers, na verdade, não preocupa tanto a população quando comparada a outros assuntos", afirma Schiff. Não foi o que aconteceu.

O QUE ISSO SIGNIFICA PARA O SETOR DE TECNOLOGIA

Em outros estados, democratas que fizeram campanha contra os empreendimentos também venceram. No Texas, Gina Hinojosa tornou-se a primeira democrata eleita governadora desde 1990, derrotando o republicano Greg Abbott, que tentava a reeleição.

Durante a campanha, ela defendeu uma moratória para a construção de data centers. Abbott havia chamado o Texas de "epicentro do desenvolvimento de IA" antes de mudar de posição e defender uma pausa na aprovação de novos empreendimentos. Hinojosa prometeu ir além.

Keisha Lance Bottoms comemora a vitória na eleição para governador do estado da Geórgia, nos EUA
Keisha Lance Bottoms (Crédito: Reprodução/ Instagram)

Na Geórgia, a democrata Keisha Lance Bottoms também venceu a disputa pelo governo estadual depois de fazer campanha em defesa de uma moratória para data centers em todo o estado.

No Novo México, a democrata Deb Haaland prometeu implementar uma medida semelhante e conquistou o governo estadual. Em Ohio, a democrata Amy Acton defendeu uma moratória condicionada e derrotou Vivek Ramaswamy na disputa pelo governo.

Vários candidatos ao Congresso também venceram com plataformas contrárias aos data centers. Foi o caso de Sherrod Brown, que conquistou uma vaga no Senado depois de chamar seu adversário republicano de "o rosto dos data centers" em Ohio.

A questão agora é o que a rejeição popular aos data centers significa, na prática, para os planos da indústria de tecnologia em relação à inteligência artificial. Não está claro se a resistência tem tanto a ver com a IA quanto com questões como o preço da eletricidade e os impactos climáticos do aumento vertiginoso do consumo de energia.

ainda é cedo para afirmar que a oposição aos data centers tenha decidido uma disputa eleitoral.

Esses efeitos, porém, não são inevitáveis. É possível, por exemplo, construir data centers abastecidos por energia limpa, com os custos pagos pelas próprias empresas de tecnologia. Ainda assim, o ceticismo em relação a esses empreendimentos está tão enraizado que a tendência é que novas moratórias sejam aprovadas.

As empresas de tecnologia já enfrentam dificuldades para conseguir energia suficiente para abastecer seus data centers. E, à medida que a construção dessas instalações se torna cada vez mais difícil, a expansão da IA também pode desacelerar consideravelmente.

No documento de registro de sua oferta pública inicial de ações (IPO), a Anthropic afirmou que a reação contrária aos data centers pode limitar sua capacidade de crescimento.

Leia mais: Expansão de data centers no Brasil pode multiplicar consumo de energia em 20 vezes até 2038

A indústria de tecnologia investiu bilhões de dólares apostando que conseguiria construir infraestrutura de IA em velocidade suficiente para acompanhar a demanda. Mas os resultados das eleições de meio de mandato indicam que talvez não consiga avançar rápido o bastante para ficar à frente da oposição da população.


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais