Em vez de inteligência artificial, que tal um tricô inteligente?
Projeto da Visit Iceland transforma reuniões on-line em peças artesanais e aproveita o debate sobre excesso de tecnologia para promover o turismo

Enquanto ferramentas de inteligência artificial para fazer anotações ganham cada vez mais espaço nas reuniões corporativas, a Islândia está apostando em uma alternativa de baixa tecnologia. Conheça os AI Knittakers: artesãos islandeses que ouvem reuniões de trabalho e tricotam um resumo de uma única palavra sobre o que foi discutido.
Nesse caso, AI significa Authentic Icelandic (autenticamente islandeses): um grupo de mais de 20 artesãs e artesãos que oferece um serviço gratuito, disponível mediante agendamento – o knittakers é uma brincadeira com as palavras knit (tricotar) e notetakers (anotadores).
Como parte de uma campanha lançada pelo escritório de turismo da Islândia, o Visit Iceland, os tricoteiros participam de reuniões por meio de um link do Google Meet e resumem, de maneira bem-humorada, expressões do jargão corporativo, como "pivotar", "alinhar" ou "redefinir", e até termos mais grosseiros, como "WTF?", usando lã islandesa.
Quando a reunião termina, a pessoa que agendou o serviço pelo site AIKnittaker.com recebe uma fotografia do artesão segurando a palavra pronta, acompanhada de informações sobre quem a produziu, sua história e a região da Islândia onde vive.
Organizadores de reuniões nos Estados Unidos e na Europa também podem solicitar o envio da peça original, feita à mão.
A Visit Iceland está disponibilizando cerca de 330 horários de uma hora com os AI Knittakers durante a campanha, que vai de 29 de outubro a 20 de novembro.
"Queríamos usar essa iniciativa como uma mensagem para incentivar as pessoas a se conectarem mais com o mundo real", afirma Sigríður Dögg Guðmundsdóttir, porta-voz da Visit Iceland.
ISSO PODERIA TER SIDO UM E-MAIL
A campanha da Visit Iceland combina a tradição da ilha na arte do tricô, a sensação de sobrecarga dos trabalhadores com reuniões desnecessárias e a popularização das ferramentas de IA para fazer anotações.
Funcionários afirmam passar pouco menos de oito horas por mês em reuniões desnecessárias, e 68% dizem que muitas delas poderiam ter sido resolvidas por e-mail.
Os dados são de um estudo com quatro mil trabalhadores de colarinho branco nos Estados Unidos e no Reino Unido, realizado pela empresa de pesquisa de mercado e opinião Opinium, a pedido da Visit Iceland.
O tricô está profundamente enraizado na cultura islandesa. A tradição tem origem no isolamento geográfico do país, que levou muitos moradores a confeccionar as próprias roupas.
À medida que a Islândia enriqueceu e passou a exportar mais peças de vestuário, os habitantes dependeram menos do artesanato doméstico. Nos últimos anos, porém, os islandeses mais jovens demonstraram um interesse renovado em preservar a tradição.
Salka Sól Eyfeld, cantora e atriz que ocupa o cargo de "chefe dos AI Knittakers", afirma que existe uma tradição no país de levar todo recém-nascido para casa usando uma peça de roupa tricotada à mão. A maioria das crianças em idade pré-escolar aprende a técnica na escola.
Segundo ela, o projeto da Visit Iceland permite criar "algo com minhas próprias mãos, que posso guardar por muitos e muitos anos. Isso é mais importante hoje, neste mundo dominado pela nuvem e pela inteligência artificial".
MUITO ALÉM DA CAPITAL
Guðmundsdóttir explica que a campanha dos "AI Knittakers" busca incentivar os trabalhadores a aproveitar o tempo economizado para fazer outras coisas, incluindo, é claro, viajar para a Islândia e se desconectar.
Por mais de 15 anos, o país viveu um boom turístico, chegando a registrar 2,3 milhões de visitantes internacionais por ano em 2018, recorde histórico até hoje.
O turismo despencou durante a pandemia de Covid-19. Embora tenha se recuperado nos últimos três anos, o setor continua estagnado e pouco abaixo do pico registrado em 2018, segundo o Conselho de Turismo da Islândia.
O tricô está enraizado na cultura islandesa e os jovens demonstram interesse em preservar a tradição..
A estratégia geral de marketing da Visit Iceland busca estimular o turismo fora da alta temporada e promover passeios por uma variedade maior de destinos.
Os tricoteiros da campanha estão distribuídos pelas sete regiões distintas da ilha, ajudando a chamar a atenção para outras partes do país, que tem 103 mil quilômetros quadrados. A intenção é ir além dos pontos turísticos mais conhecidos, como o spa geotérmico Blue Lagoon e a rota do Círculo Dourado, nos arredores da capital, Reykjavík.
"Queremos desenvolver um turismo sustentável na Islândia", afirma Guðmundsdóttir. "Nosso foco não está apenas nos números, mas em atrair o tipo certo de viajante, aquele que vai aproveitar o que a Islândia tem a oferecer."