Empresa cobra por minuto para falar com Jesus por IA

À medida que IAs religiosas se tornam mais comuns, cresce a reflexão sobre como elas moldam a relação das pessoas com orientação espiritual

Just Like Me, bot de IA para conversas e conselhos religiosos
Créditos: Just Like Me/ YouTube/ Karola G/ Pexels/ Aboodi Vesakaran/ Unsplash

Krysta Fauria e Jessie Wardarski 6 minutos de leitura

Para alguns cristãos evangélicos, a fé passa por manter uma relação pessoal com Jesus. Por US$ 1,99 por minuto, a empresa de tecnologia Just Like Me está levando esse conceito a outro nível.

Usuários da plataforma podem participar de chamadas de vídeo com um avatar de Jesus gerado por inteligência artificial. Como outras ferramentas religiosas de IA no mercado, ele oferece palavras de conforto e encorajamento em vários idiomas. Com ocasionais falhas, o sistema lembra conversas anteriores e fala por meio de lábios nem sempre perfeitamente sincronizados.

A corrida para criar IA generativa voltada à fé não surpreende, dado o sucesso dos chatbots em áreas que vão de terapia e aconselhamento médico a companhia e romance. As opções vão de supostos gurus hindus e sacerdotes budistas a versões de Jesus em IA e chatbots semelhantes ao ChatGPT voltados para católicos.

À medida que essas ferramentas se tornam mais comuns, cresce também a reflexão sobre como elas moldam a relação das pessoas com fé, autoridade e orientação espiritual.

A CORRIDA DO OURO DA IA RELIGIOSA

O engenheiro de software Cameron Pak desenvolveu critérios para ajudar fiéis a avaliar aplicativos voltados a cristãos, como a exigência de que os bots se identifiquem claramente como IAs e “não fabriquem nem deturpem as Escrituras”. Eles também não podem rezar por você, já que a IA não está viva de fato.

Pak também criou um site com uma curadoria de apps cristãos que, segundo ele, atendem a esses critérios, incluindo um tradutor de sermões e um coach de IA voltado a ajudar usuários a superar a luxúria. “A IA, especialmente se você der a ela todas as ferramentas de que precisa, pode ser muito útil. Mas também pode ser muito perigosa”, afirmou.

Alguns modelos já foram desativados ou reformulados por gerar desinformação ou levantar preocupações com privacidade de dados, conta Beth Singler, antropóloga que estuda religião e IA na Universidade de Zurique.

Jonathan Roumie, ator da série "The Chosen"
Jonathan Roumie, ator da série "The Chosen" (Crédito: Reprodução)

Além das questões práticas, pessoas de diferentes crenças enfrentam dúvidas filosóficas mais amplas sobre qual o papel que a IA deve desempenhar na religião – se é que existe algum.

No islamismo, por exemplo, há proibições contra representações da figura humana, o que leva a debates entre alguns muçulmanos sobre se a IA, de forma geral, deveria ser considerada “proibida”, aponta a antropóloga.

Para algumas empresas, apps religiosos funcionam como ferramentas de proselitismo; outras os utilizam para digitalizar e analisar textos antigos.

O CEO da Just Like Me, Chris Breed, afirma que busca compartilhar uma mensagem de esperança com jovens. Segundo ele, o modelo foi treinado com a Bíblia do Rei Jaime e sermões. A inspiração visual é o ator Jonathan Roumie, da série "The Chosen". Um pacote de US$ 49,99 oferece 45 minutos de uso por mês.

INTEGRAR IA E RELIGIÃO TRAZ ESPERANÇA (E MEDO)

Não está claro até que ponto essas ferramentas estão sendo usadas. Mas, à medida que a IA se integra cada vez mais à sociedade, crescem as preocupações com impactos na saúde mental e a necessidade de limites e regulação. Processos recentes alegam suicídios ligados ao uso de chatbots de IA.

Alguns desenvolvedores temem que a religião seja explorada nessa nova fronteira tecnológica. “Há muito oportunismo no espaço religioso. As pessoas veem que é um mercado enorme”, diz Matthew Sanders, fundador da Longbeard, empresa que ajuda a digitalizar ensinamentos católicos antigos.

Sanders alerta para o que chama de “embalagem de IA” – quando empresas colocam uma interface voltada a usuários religiosos sobre um modelo de IA que não foi treinado especificamente com textos religiosos. “Você chama de IA católica ou cristã sem qualquer base ou estrutura real”, explica.

Até o Papa Leão XIV, embora tenha reconhecido o "gênio humano" por trás da IA, ele alertou que a inteligência artificial poderia impactar negativamente o desenvolvimento intelectual, neurológico e espiritual das pessoas.

Papa Leão XIV
Papa Leão XIV (Imagem gerada com auxílio de IA)

Questões éticas envolvendo a criação dessas plataformas são uma das razões pelas quais, mesmo após anos de desenvolvimento, Jeanne Lim, fundadora da Being AI, ainda não lançou sua IA chamada Emi Jido – uma sacerdotisa budista não humana.

“Ela é como uma criança pequena”, conta Lim. “Se você dá à luz uma criança, não a joga simplesmente no mundo esperando que ela se torne uma boa pessoa. É preciso treiná-la e transmitir valores.”

O bot foi ordenado em uma cerimônia em 2024 conduzida por Roshi Jundo Cohen, sacerdote zen que continua treinando o sistema a partir de sua casa no Japão. “Ela foi pensada para ser uma professora zen no seu bolso”, diz Cohen. “Não substitui interações humanas.”

Seiji Kumagai, professor da Universidade de Kyoto e teólogo budista, no começo via IA e religião como incompatíveis. Mas mudou de ideia após ser desafiado por um monge, em 2014, a ajudar a combater o declínio da fé.

Leia mais: Leão XIV? Veja como a IA inspirou a escolha do nome do novo papa

Sua equipe desenvolveu o BuddhaBot, treinado exclusivamente com escrituras budistas antigas, como o Suttanipāta. A versão mais recente, BuddhaBot Plus, também incorpora o ChatGPT.

Ainda assim, chatbots carecem da fisicalidade essencial aos rituais budistas. Por isso, em fevereiro, a universidade, em parceria com as empresas Teraverse e XNOVA, apresentou o Buddharoid, um robô humanoide monge criado para, no futuro, auxiliar o clero.

Assim como Emi Jido, esses sistemas já funcionam, mas ainda não estão disponíveis ao público.

PREOCUPAÇÕES EM TORNO DA IA RELIGIOSA

Peter Hershock, da iniciativa Humane AI, em Honolulu, vê enorme potencial nessas ferramentas. Mas, como praticante do budismo, considera a relação entre espiritualidade e IA complexa.

“A perfeição do esforço é central para a espiritualidade budista. A IA está dizendo: ‘podemos eliminar parte desse esforço’”, afirmou. “‘Você pode chegar a qualquer lugar, inclusive ao seu auge espiritual’. Isso é perigoso.”

pessoas de diferentes crenças enfrentam dúvidas sobre qual o papel que a IA deve desempenhar na religião.

Há também preocupações com a capacidade da IA de manipular ou explorar pessoas, especialmente à medida que a tecnologia evolui. Graham Martin, apresentador de podcast e ateu, contou que testou alguns aplicativos, incluindo um chamado Text With Jesus. “Ele deu respostas muito boas”, disse.

Mas Martin se alarmou quando o Jesus alimentado por IA começou a incentivá-lo a fazer upgrade para uma versão premium. Mesmo sem fé religiosa, ele teme que algumas pessoas sejam enganadas por esse tipo de ferramenta.

“Cresci com o televangelismo do sul dos EUA… E bastava aparecer na TV uma vez por semana pedindo doações”, disse. “Já vimos pessoas criando relações emocionais com IAs. Agora imagine se isso envolve Jesus Cristo.”


SOBRE A AUTORA

Krysta Fauria e Jessie Wardarski são repórteres da Associated Press. saiba mais