Empresas da Irlanda investem US$ 6 bi nos EUA de olho na IA
O boom dos data centers nos EUA é impulsionado em parte pela expertise irlandesa, já que empresas locais investem e contratam nos EUA

A presença econômica da Irlanda nos Estados Unidos volta a crescer. Empresas irlandesas planejam ao menos US$ 6,1 bilhões em novos investimentos no país, expandindo sua atuação em setores como tecnologia, manufatura e alimentos e nutrição.
O movimento acontece em paralelo ao avanço da infraestrutura dos EUA voltada à inteligência artificial e a outras tecnologias de alto consumo energético, refletindo o aprofundamento da relação econômica entre os dois países.
Os laços históricos entre Irlanda e Estados Unidos – e os milhões de norte-americanos que reivindicam ascendência irlandesa – costumam ganhar destaque no discurso político de meados de março.
Enquanto o presidente Donald Trump destacou os investimentos de empresas irlandesas e o número de presidentes dos EUA com origem irlandesa, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, usou um discurso em 17 de março – Dia de São Patrício, o padroeiro da Irlanda – para enfatizar o papel do país europeu na organização trabalhista e em movimentos de solidariedade anticolonial.
Mas as conexões econômicas vão muito além do simbolismo político. A Irlanda já é a quinta maior fonte de investimento estrangeiro direto nos Estados Unidos, segundo a Enterprise Ireland, agência de desenvolvimento empresarial do governo irlandês.
ALÉM DO BOOM DE DATA CENTERS
Nos últimos anos, empresas do país têm investido especialmente no boom de data centers nos EUA, apoiadas em décadas de relacionamento com grandes companhias de tecnologia norte-americanas que operam suas bases europeias a partir da Irlanda.
A chamada Ilha Esmeralda também acumulou experiência na instalação de data centers e na gestão de seus impactos sobre a rede elétrica e outros recursos, embora enfrente crescente oposição interna à expansão desses projetos justamente por esses efeitos.
“As empresas irlandesas refinaram e aperfeiçoaram suas competências e talentos nessas áreas ao longo dos últimos 20 a 30 anos e, de fato, lideraram a construção de data centers em toda a Irlanda e pela Europa”, afirma Jenny Melia, CEO da Enterprise Ireland.

Agora, o foco se volta cada vez mais para os Estados Unidos, onde companhias irlandesas – junto a um número crescente de trabalhadores norte-americanos – atuam na produção de infraestrutura, ferramentas e materiais para sustentar o crescimento dos data centers, impulsionado em parte pela corrida por investimentos em inteligência artificial.
“É basicamente oferta e demanda”, diz David Maher, vice-presidente sênior da H&MV Engineering, sediada na cidade irlandesa de Limerick. “Isso está criando boas oportunidades no momento.”
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A H&MV constrói a infraestrutura que conecta grandes consumidores de energia, como data centers, além de instalações de geração (como usinas de energia solar) às concessionárias e à rede elétrica. A empresa já registra receita superior a US$ 1 bilhão por ano.
Segundo Maher, a demanda por esse tipo de especialização deve ir além do boom atual de data centers, à medida que concessionárias continuam adotando tecnologias como energias renováveis e armazenamento em baterias.
ADAPTAÇÃO A NOVAS FORMAS DE TRABALHO
Essa visão é compartilhada por outras empresas irlandesas em expansão nos Estados Unidos, que também destacam a necessidade de modernizar continuamente data centers existentes para suportar novas tecnologias e melhorar a eficiência.
“Não vejo esse setor como algo de curto prazo, ele está apenas começando”, afirma Orla Good, diretora comercial da Portwest, empresa sediada em Westport e uma das principais fabricantes de equipamentos de proteção.

Segundo Good, a expertise técnica das empresas irlandesas não surgiu por acaso. “A Irlanda tem uma forte tradição de adaptação a novas formas de trabalho, inovação por meio de ideias criativas e resolução de problemas, além de uma base sólida em STEM [ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês] no sistema educacional”, diz.
Empresas irlandesas também estão levando tecnologias que tornam mais eficientes a construção e a operação de data centers e de outras estruturas. A Midland Steel, por exemplo, firmou no ano passado um acordo exclusivo com a Nucor, maior produtora de aço dos Estados Unidos, para licenciar sua tecnologia de vergalhões FasterFix, capaz de acelerar o tempo de construção e reduzir desperdícios ao se integrar aos sistemas de reciclagem da Nucor.
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Já a Evercam, que desenvolve tecnologias para monitorar obras com câmeras e drones e verificar se a execução corresponde aos projetos criados em softwares de modelagem da informação da construção (BIM), anunciou recentemente planos de expansão na América do Norte.
“A grande vantagem de operar globalmente é justamente poder compartilhar conhecimento entre esses mercados”, diz o diretor-geral Nick Leysath, o que inclui adaptar políticas de proteção de dados da Europa e do Oriente Médio para os Estados Unidos, além de desenvolver pesquisa e desenvolvimento local com base em parcerias com startups de robótica e IA.