Empresas de IA estão comprando livros usados aos milhares – e os sebos já sentem o efeito

Uma decisão judicial sobre direitos autorais abriu caminho para que empresas de IA comprem livros e os usem no treinamento de seus sistemas

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Créditos: Unsplash/ Magnific

Chris Morris 4 minutos de leitura
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Há não tantos anos, antes do surgimento dos Kindles, os sebos eram um refúgio para leitores vorazes que precisavam economizar. À medida que o setor evoluiu, muitos desses estabelecimentos sofreram. Agora, eles estão vendo as vendas ressurgirem, mas os clientes, cada vez mais, não são amantes de livros. São empresas de inteligência artificial.

A Barter Books, por exemplo, costuma vender entre dois mil e três mil livros por semana, o que não é nada mal para um sebo em Northumberland, o condado menos densamente povoado da Inglaterra. Mas recentemente o proprietário recebeu de uma empresa canadense um pedido equivalente a esse volume em apenas um dia.

Várias outras livrarias da região estão observando uma demanda semelhante. E, embora não possam afirmar com certeza para que os livros estão sendo usados, uma decisão judicial recente oferece uma pista. O destino desses livros também pode ser bastante sombrio.

As empresas de IA vêm enfrentando problemas com o mundo literário nos últimos meses. A Anthropic recentemente chegou a um dos maiores acordos de indenização por violação de direitos autorais da história, concordando em pagar US$ 1,5 bilhão a mais de 300 mil escritores que apresentaram uma queixa contra a gigante de IA dois anos atrás.

A OpenAI, por sua vez, ainda enfrenta diversos processos por violação de direitos autorais movidos por diferentes partes, incluindo o "The New York Times", a Enciclopédia Britânica e vários autores de não ficção.

Eles acusam a empresa de copiar seus livros para treinar seu grande modelo de linguagem e afirmam que a OpenAI obteve “enorme ganho financeiro com a exploração de material protegido por direitos autorais”.

ESCANEAR TODOS OS LIVROS DO MUNDO

Mas o processo contra a Anthropic pode ter aberto um caminho para as empresas de IA. O tribunal decidiu que não era ilegal para a Anthropic treinar sua IA com obras protegidas por direitos autorais, desde que pagasse pelos livros utilizados. Um juiz diferente chegou a uma conclusão semelhante no ano passado em um processo envolvendo a Meta.

Livros usados oferecem às empresas de IA uma maneira mais barata de adquirir material de treinamento. Alguns editores também podem se recusar a fornecer cópias diretamente a uma empresa de IA se souberem o que ela pretende fazer com elas.

O processo da Anthropic revelou um programa chamado Projeto Panamá, que a empresa descreveu como seu “esforço para escanear destrutivamente todos os livros do mundo”.

Foto de biblioteca em notebook e tablet
Créditos:Pixabay.

Um memorando apresentado como prova no julgamento explicou que a empresa usava um codinome para o método de treinamento “porque não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso”.

A digitalização destrutiva desmonta fisicamente livros encadernados para que suas páginas individuais possam passar por scanners de alta velocidade e ser ingeridas por um grande modelo de linguagem. Depois que o processo de digitalização é concluído, as páginas são descartadas, recicladas ou transformadas em polpa.

Leia mais: Por que empresas de IA estão destruindo livros antigos?

Embora talvez não seja um problema tão grande quando uma edição de bolso comercial é destruída (algo que acontece o tempo todo), os amantes de livros temem que obras raras, frequentemente vendidas por sebos a colecionadores, também possam acabar sendo levadas nesse processo.

A Anthropic disse à BBC que não é isso que está acontecendo. Em um comunicado, a empresa afirmou que “nenhum de nossos programas de aquisição de dados compra e destrói livros raros ou antiquários”.

DIGITALIZAÇÃO DESTRUTIVA

No entanto, é improvável que a Anthropic seja a única empresa de IA a utilizar esse método para treinar seus sistemas. Outras empresas podem não ter as mesmas restrições quanto ao que submetem à "digitalização destrutiva".

Afinal, livros antigos e raros muitas vezes contêm informações ausentes em outras obras, o que pode torná-los particularmente valiosos como material de treinamento.

Um carregamento recente contendo pelo menos um livro raro, por exemplo, foi rastreado até uma instalação de treinamento de IA da Amazon em Las Vegas, local que realiza a digitalização destrutiva de livros para esse fim.

Colagem mostra três fragmentadoras de papel diante de pilhas de livros.
Créditos: Aleksandar Kosev/ Adobe Stock/ William Notman/ The Metropolitan Museum of Art

A maioria dos vendedores de livros usados ​​não consegue identificar com certeza quem está comprando grandes quantidades de suas obras. Os pedidos chegam por meio de plataformas como a Biblio, que mantém o anonimato dos compradores.

Só que, quando milhares de livros são encomendados de uma só vez, é pouco provável que todos se destinem a leitores ávidos que buscam ampliar suas coleções particulares.

Embora alguns proprietários de livrarias possam ter ressalvas éticas sobre o destino dos livros, a injeção de recursos é bem-vinda. As vendas do setor atingiram o auge em 2007 e vêm caindo desde então.

Apesar de o setor ter apresentado uma leve recuperação nos últimos três anos, muitas livrarias ainda precisaram reavaliar seus modelos de negócios ou encerrar as atividades.


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é jornalista, escritor, editor e apresentador especializado em tecnologia, games e eletrônicos. saiba mais