Especialistas reagem à comparação de Altman sobre energia da IA

Em comentário que gerou controvérsia, CEO da OpenAI defendeu o uso intensivo de recursos por parte da IA

Sam Altman em frente a torre de energia elétrica
Crédito: mammuth/ Getty Images

Kristin Toussaint 4 minutos de leitura

O CEO da OpenAI, Sam Altman, saiu em defesa do uso intensivo de recursos pela inteligência artificial ao compará-lo a toda a energia e comida que os seres humanos consomem ao longo da vida. A analogia provocou uma onda de críticas nas redes sociais.

Para especialistas em clima e tecnologia, a comparação é equivocada, minimiza os riscos ambientais associados à IA e escancara o abismo entre executivos do Vale do Silício e o restante da sociedade.

Altman fez os comentários durante entrevista ao jornal "The Indian Express", no India AI Impact Summit. Questionado sobre críticas recorrentes à IA – incluindo o volume de energia e água exigido pela tecnologia – ele respondeu: “Uma das coisas que sempre é injusta nessa comparação é que as pessoas falam sobre quanta energia é necessária para treinar um modelo de IA em relação ao custo de um ser humano fazer uma única consulta”, afirmou.

“Mas também é preciso muita energia para treinar um humano”, continuou. “São cerca de 20 anos de vida e toda a comida que você consome nesse período antes de se tornar inteligente. E não só isso: houve toda a evolução amplamente disseminada dos 100 bilhões de pessoas que já viveram.”

Ao considerar a energia necessária para “treinar um humano”, Altman afirmou na entrevista que a IA “provavelmente” já alcançou os humanos em termos de eficiência energética.

COMPARAÇÃO EQUIVOCADA

A analogia direta do executivo é “equivocada”, afirma Sasha Luccioni, líder de clima da plataforma de IA Hugging Face. “Em um nível fundamental, humanos e modelos de IA não usam energia e recursos naturais da mesma maneira e compará-los não faz sentido”, afirma.

Os modelos de IA são treinados com dados produzidos por humanos, ressalta Luccioni. Portanto, se a ideia é comparar os dois, “também seria preciso levar em conta o tempo e os recursos investidos na escrita dos livros e na criação dos dados usados para treinar esses modelos”.

Não existe economia possível em um planeta morto.

Para ela, as declarações de Altman revelam um “descompasso fundamental” entre líderes das big techs e a sociedade em geral. “Esses bilionários construíram suas fortunas explorando o conhecimento humano e os recursos naturais da Terra e continuam tratando ambos como garantidos, enquanto ficam mais ricos a cada dia”, acrescenta.

A Fast Company procurou a OpenAI para comentar o caso.

CONSUMO DE ÁGUA E ENERGIA DA IA

A comparação de Altman gerou indignação especial entre especialistas em clima, incluindo o climatologista Michael Mann, coautor, ao lado do cientista Peter Hotez, do livro "Science Under Siege: How to Fight the Five Most Powerful Forces That Threaten Our World" (A ciência sob ataque: Como combater as cinco forças mais poderosas que ameaçam o nosso mundo, em tradução livre).

Na obra, os autores argumentam que forças como “plutocratas, profissionais de fachada, petroestados, farsantes e a imprensa” promovem uma retórica anticientífica que compromete a capacidade da humanidade de enfrentar desafios que vão de pandemias à crise climática.

Os cálculos exatos sobre o uso de água e energia pela IA variam, mas diversos especialistas vêm soando o alarme sobre sua demanda massiva por eletricidade e recursos naturais.

consumo de energia e impacto ambiental da IA
Crédito: Steve Helber/ AP

Um relatório de 2026 da Global Water Intelligence projeta que “a demanda por água da nova economia impulsionada por IA deve crescer 129% até 2050”, aumentando ainda mais a pressão sobre sistemas de abastecimento já sobrecarregados pelas mudanças climáticas. A Agência Internacional de Energia estima que o consumo total de data centers deve dobrar até 2030.

Embora tenha minimizado preocupações com o uso de água, Altman reconheceu que o consumo de energia é um problema e afirmou que, como “o mundo está usando tanta IA”, será necessário migrar rapidamente para energia nuclear, eólica e solar.

Até agora, no entanto, o boom da IA tem levado ao aumento da construção de usinas movidas a gás natural, mesmo com projetos de energia limpa sendo, em muitos casos, mais baratos de construir e operar.

LONGO PRAZO E TECNO-UTOPIA

Para Mann, os comentários de Altman ecoam opiniões controversas – e potencialmente perigosas – comuns entre executivos de tecnologia, como o "longoprazismo e o “tecno-utopismo”.

O primeiro sustenta que influenciar positivamente o futuro de longo prazo é um imperativo moral central, crença frequentemente associada ao movimento do “altruísmo eficaz”.

Conceito de Inteligência Artificial

Em tese, uma visão de longo prazo deveria implicar preocupação com as mudanças climáticas, já que os efeitos das emissões de combustíveis fósseis terão impactos desastrosos por décadas.

Mas, segundo críticos, os que defendem o "longoprazismo" tendem a não tratar a crise climática como um “risco existencial”, concentrando-se em ameaças que acreditam poder ser resolvidas pela tecnologia.

O tecno-utopismo, por sua vez, é a crença de que avanços tecnológicos são o caminho para alcançar uma sociedade futura “perfeita”.

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Na avaliação de Mann, Altman e outros CEOs de tecnologia promovem a ideia de que a sociedade deve se concentrar nos benefícios da IA e de outras inovações, “minimizando implicitamente os riscos e ameaças imediatas, incluindo a crise climática”.

“Não existe – como eu lembraria Altman e seus pares – economia possível em um planeta morto”, conclui Mann.


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais