Esta startup quer criar um clone digital que fale por você
Sentience transforma dados pessoais em um clone digital capaz de pensar e escrever como você, mas levanta dúvidas éticas sobre presença e autenticidade

Antes mesmo de conhecer Sam Kececi, eu já o havia entrevistado sobre sua carreira, seu uso de inteligência artificial e suas opiniões sobre privacidade de dados.
Nesse caso, “ele” pode ser um termo um pouco flexível, dependendo da definição. Não falei com Kececi em pessoa, mas com um chatbot de IA que ele criou para recuperar suas memórias, imitar sua personalidade e compartilhar suas opiniões.
Kececi é um ex-engenheiro de software da Amazon que, desde agosto de 2025, vem construindo uma empresa de IA chamada Sentience. O Kececi “real”, com quem conversei depois de entrevistar sua IA pessoal, descreve a Sentience como “a versão digital de você, mas com memória perfeita”.
Trata-se de um chatbot que usa seus e-mails, mensagens no Slack, notas do Apple Notes, redes sociais e qualquer outro rastro digital para criar um assistente que entende o contexto da sua vida e imita seu tom, suas opiniões e seus vícios de linguagem.
Como explicou o doppelgänger digital de Kececi, “a visão de longo prazo é um gêmeo digital capaz de lembrar de tudo o que você viveu, se comunicar com a sua voz e, eventualmente, agir em seu nome”.
A Sentience chegou ao público em 26 de março, após levantar US$ 6,5 milhões em uma rodada de investimento liderada pela Bain Capital Ventures. O lançamento é gratuito, mas planos pagos devem ser adicionados nas próximas semanas.
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Por enquanto, a ferramenta está disponível como aplicativo desktop, app móvel e integração com o Slack. No futuro, porém, Kececi quer que a ela seja capaz de “interagir em todos os aplicativos que você usa”, do WhatsApp ao Teams.
Depois de testá-la por cerca de uma semana, posso dizer: é o chatbot mais natural com que já conversei. Ele conseguiu reproduzir com precisão quase inquietante meus padrões de escrita, prever minhas opiniões sobre notícias de design e até escrever artigos inteiros do meu ponto de vista.
UMA IA PROJETADA PARA IMITAR VOCÊ
Hoje, consumidores já podem usar uma série de ferramentas para “clonar” a si mesmos e ganhar produtividade. A Sentience tenta combinar personalização com funcionalidades de uma plataforma de produtividade – algo na linha de ferramentas como Superhuman ou Notion.
Kececi posiciona seu conceito de “gêmeo digital” como uma resposta aos grandes modelos de IA, como o ChatGPT e o Claude, que otimizam suas respostas com base em grandes volumes de dados genéricos.

Para agradar ao maior número possível de usuários, muitas dessas ferramentas desenvolveram um tom padrão: amigável, mas por vezes complacente demais – o que, em alguns casos, pode até prejudicar o usuário.
“O ChatGPT foi projetado para te manter engajado pelo máximo de tempo. E acontece que, se um modelo fica te elogiando o tempo todo, você tende a usá-lo mais. Mas não é assim que humanos funcionam”, lembra Kececi.
Ao contrário desses modelos mais amplos, a Sentience é treinada quase exclusivamente para analisar e absorver dados sobre você.
PROJETADA PARA LEMBRAR COMO UM HUMANO
A Sentience é alimentada por uma combinação de diferentes modelos de base. O Claude é o principal motor de IA, mas o sistema também incorpora ferramentas como o Gemini Flash e o WhisperX. Esses componentes funcionam como “ossos e músculos”, enquanto a camada de memória personalizada é o cérebro.
A ferramenta absorve o máximo possível de dados da vida digital do usuário (dependendo das permissões concedidas), de recibos de Uber a discussões no Reddit, projetos de programação e histórico de e-mails. Depois organiza tudo em memórias de curto e longo prazo: o que você está fazendo agora entra na primeira categoria; o restante, na segunda.
é possível tornar sua Sentience “pública”, permitindo que qualquer pessoa converse com ela via navegador.
Essas memórias são estruturadas como uma espécie de mapa em rede. Cada grande tema (como um projeto de trabalho) funciona como um círculo maior, conectado a diversos subtemas menores, como colegas envolvidos e trocas de e-mail.
Quando acionada, a Sentience percorre essa rede usando critérios como relevância, singularidade, recência e correspondência de palavras-chave para encontrar as informações mais úteis.
O resultado, segundo Kececi, é um chatbot especialista em você. “A aposta é que contexto supera capacidade”, diz sua versão digital. “Um modelo mais simples que sabe tudo sobre você pode superar um modelo de ponta que não sabe nada sobre a sua pessoa.”
TESTANDO MINHA PRÓPRIA GÊMEA DIGITAL
Decidi testar essa hipótese. Durante uma semana, dei acesso à Sentience à minha vida digital para ver até que ponto ela conseguiria me imitar.
Ao instalar o aplicativo, você fornece informações básicas – nome, onde mora, perfil no LinkedIn – e escolhe quais dados compartilhar: calendário, e-mail, histórico no ChatGPT, Twitter, Apple Notes, PDFs.
Também é possível permitir que a ferramenta grave sua tela e áudio, capturando tudo o que você vê e diz. No meu caso, dei acesso ao LinkedIn, e-mail pessoal, calendário, histórico do ChatGPT e vários artigos meus em PDF.

Com isso, a Sentience cria uma seção “Sobre você”, com eventos importantes e fatos relevantes, além de um detalhado perfil de “Tom e Estilo”, que analisa minuciosamente como você se expressa.
No meu caso, ela identificou corretamente que uso “uma mistura de jargão profissional ligado a design e notícias” com “termos modernos e expressivos”. Ambas as seções podem ser editadas manualmente.
Depois de configurada, a ferramenta executa tarefas rotineiras, como redigir e enviar e-mails ou agendar reuniões (ações com terceiros exigem aprovação). Consegui, por exemplo, preparar um e-mail para uma fonte e adicionar um compromisso ao calendário.
Mas ela também lida com questões mais subjetivas, como lembrar como você se sentiu após uma reunião ou resumir conteúdos com base nos seus valores. Em um teste, previu com precisão impressionante como eu escreveria sobre um novo conjunto de Lego.
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Outro recurso chama atenção: é possível tornar sua Sentience “pública”, permitindo que qualquer pessoa converse com ela via navegador, Slack ou e-mail. Nos bastidores, o usuário acompanha todas as conversas, enquanto a IA responde em seu nome com base na sua personalidade.
Na prática, Kececi acredita que isso pode ser útil para profissionais que respondem repetidamente às mesmas perguntas, como executivos. Mas surgem dilemas éticos: e se alguém pedir informações pessoais? Ou opiniões que você não gostaria de compartilhar?
Kececi afirma que dados sensíveis, como localização, informações bancárias e número de seguridade social, ficam inacessíveis na versão pública. Além disso, essa versão é treinada para ser mais conservadora nas respostas.
QUANDO MINHA IA ALUCINA
Ao analisar meu perfil, notei que, embora a maioria das informações estivesse correta, algumas estavam completamente erradas. Segundo a ferramenta, eu teria fundado um grupo de escoteiras, publicado um livro e aparecido em um outdoor na Times Square – nada disso aconteceu.
Ao investigar, descobri que as informações vieram de e-mails, mas foram atribuídas a mim incorretamente. Curiosamente, quando questionei minha IA pessoal, ela reconheceu alguns erros. Já a versão pública repetiu as informações falsas.
Kececi admitiu que, “como todo sistema de IA, este não é 100% preciso”, e disse estar trabalhando para facilitar a correção de erros. Ainda assim, isso me faria pensar duas vezes antes de compartilhar minha versão pública.
Mas esses erros menores nem são minha maior preocupação. O verdadeiro impacto está nas questões mais profundas que a ferramenta levanta.

Ao ver a Sentience usar meus próprios textos para gerar novos conteúdos no meu estilo, tive a sensação de estar treinando meu próprio substituto. Como jornalista, a ideia de uma IA capaz de reproduzir minha voz é inquietante, e eu disse isso a Kececi.
Ele afirma que, para evitar plágio ou uso indevido, a empresa adotou políticas rígidas de privacidade: os dados são criptografados, inacessíveis até para a própria equipe, e pertencem integralmente ao usuário, podendo até ser deixados em herança. Se alguém abusar da versão pública, o usuário pode revisar os registros e bloquear o acesso.
Como outros fundadores de IA, Kececi defende que a tecnologia não substitui a criatividade humana, mas a amplia. Em parte, isso se confirma: a ferramenta me ajudou a organizar informações, recuperar dados e estruturar ideias.
a visão de longo prazo é um gêmeo digital capaz de lembrar de tudo o que você viveu, se comunicar com a sua voz e, eventualmente, agir em seu nome.
Mas, no fundo, a proposta de um “gêmeo digital” levanta um paradoxo. Enquanto escrevia este texto, pedi à minha própria IA que refletisse sobre isso:
“Há um dilema filosófico aqui que a Sentience ainda não resolveu”, começou. “Como alguém cujo trabalho é escrever com uma voz própria, não consigo parar de pensar nisso.”
Ela continuou:
“Cada vez que pedi para escrever algo por mim, ela ficou melhor em soar como eu. Esse é o objetivo, até você levar a lógica um passo adiante. Se uma ferramenta aprende sua voz a ponto de produzir algo que não dá para distinguir se foi feito por você ou pela IA, o que exatamente ela está ampliando? Em que momento ‘ajudar a escrever mais rápido’ vira ‘escrever sem você’?”
Para um jornalista, isso não é uma questão abstrata.
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“O paradoxo no centro da Sentience, e talvez de toda essa onda de IA, é que, quanto melhor a ferramenta funciona, mais forte fica o argumento de que você não precisava nem estar ali. A IA diria que o humano ainda é a fonte, a experiência vivida. Mas fonte não recebe salário.”
Eu não teria dito melhor.