Estamos todos escrevendo igual por causa da IA?
Com a escrita preditiva cada vez mais presente, cresce o desafio de preservar a originalidade em meio aos textos gerados por IA

É uma sensação conhecida: você começa a digitar uma mensagem, e o recurso de autocompletar do celular sugere várias opções para a próxima palavra, do banal ao engraçado. “Eu amo…” você ou café?
Ou então você está finalizando um e-mail, e basta digitar “Me avise” para o aplicativo completar automaticamente com “se tiver alguma dúvida”, em um cinza discreto.
Incorporadas a smartphones, serviços de e-mail e chatbots, as tecnologias de escrita preditiva se tornaram tão comuns que mal percebemos sua presença.
Mas elas levantam uma questão complicada: o que acontece com a voz única de um autor quando a IA completa seus pensamentos, ou simplesmente os gera do zero?
Como pesquisador que estuda os efeitos da escrita preditiva, acompanho de perto os desafios que sistemas de IA generativa como ChatGPT, Gemini e Claude impõem à expressão individual.
Assim como é um mito imaginar que escritores criam no vácuo, nunca existiu uma linha clara entre a expressão genuinamente humana e o texto gerado por máquinas.
ESCRITA PREDITIVA É BASEADA EM PADRÕES
Usamos tecnologias para nos comunicar há muito tempo. Da pena à máquina de escrever até o processador de texto, cada avanço tecnológico transformou a forma como nos expressamos.
O problema é que a onipresença das tecnologias de linguagem preditiva ameaça diretamente a criatividade humana – ou, como resumiu um estudo, “o texto preditivo incentiva a escrita preditiva”.
Como a IA generativa compõe e sugere frases seguindo padrões altamente padronizados e previsíveis, seus resultados muitas vezes soam como versões “arrumadas” do que linguistas chamam de “expressões fáticas”.

São aquelas frases comuns que funcionam mais como cola social do que como expressão real de sentimento: “como vai?”, “tenha um bom dia” ou “até logo”.
Mas essa “cola” pode perder a aderência quando usada fora de contexto. Recorrer à IA para escrever um post nas redes sociais após uma tragédia, ou para enviar uma carta de fã a um atleta olímpico, pode soar artificial, até mesmo falso.
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As pessoas estão começando a perceber a assinatura da IA generativa não porque o texto seja ruim ou truncado, mas porque tudo soa igual. Isso acontece porque modelos de linguagem são treinados com enormes volumes de material redigido por humanos e geram texto com base em probabilidades e padrões recorrentes.
O resultado é uma voz única e facilmente reconhecível. Como escreveu Sam Kriss em um ensaio recente para a revista do "The New York Times": “antes, havia muitos escritores e muitos estilos diferentes. Agora, cada vez mais, um único autor não creditado parece produzir praticamente tudo”.
COMO INCENTIVAR A ESCRITA SEM IA
Então, como os professores podem incentivar alunos a desenvolver uma voz própria? E como esse desafio mudou na última década? Uma pista importante é entender onde a IA generativa ainda falha e por quê.
Chatbots são excelentes em produzir textos claros, fluidos e relativamente neutros – exatamente o tipo de conteúdo que domina seus dados de treinamento. Mas têm dificuldade em criar quebras inesperadas de estilo, como as que aparecem em obras como "Ulisses", de James Joyce, ou na música “Bohemian Rhapsody”, do Queen.
a IA generativa compõe e sugere frases seguindo padrões altamente padronizados e previsíveis.
Existem várias técnicas para estimular esse tipo de salto criativo. Professores podem incorporar a imprevisibilidade nas tarefas. Instrutores de escrita criativa fazem isso há décadas: pedir que alunos escrevam um poema e depois o reescrevam sem usar a letra “e”, por exemplo, ou limitando o uso de adjetivos.
Outra estratégia é ampliar o público leitor. Se um texto será lido por amigos ou pelos avós, por exemplo, o aluno tende a buscar uma voz mais autêntica na hora de escrever.
Há ainda outras abordagens: inverter o argumento de um ensaio para defender o lado oposto, entrevistar desconhecidos e incorporar suas falas, entre outras.
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No fim das contas, escritores têm acesso a experiências, repertórios e nuances de linguagem que máquinas não conseguem reproduzir plenamente.
Colocar estudantes diante de formas não convencionais de escrever e revisar textos é essencial para que a tecnologia funcione como uma parceira de pensamento, e não como substituta da voz de cada um.
Este artigo foi reproduzido do "The Conversation" sob licença Creative Commons. Leia o artigo original