Funcionária recusa aumento de 90% e deixa empresa após demissões por IA
A cientista de dados disse que a IA foi "enfiada goela abaixo de todo mundo" na empresa mas que viu "ganhos de produtividade muito limitados"

Quando a fintech Block demitiu 40% de sua força de trabalho na semana passada, o CEO Jack Dorsey explicou a decisão em um memorando enviado aos funcionários e publicado nas redes sociais.
Segundo ele, mais de quatro mil empregos estavam sendo eliminados em nome da eficiência proporcionada pela inteligência artificial, mesmo com a lucratividade da empresa em alta.
Grande parte da carta foi direcionada aos funcionários que estavam perdendo seus empregos. No final, porém, Dorsey deixou uma mensagem para quem permaneceria na empresa. “O que estou pedindo de vocês é que construam comigo”, escreveu. “Vamos construir esta empresa com inteligência no centro de tudo o que fazemos – na forma como trabalhamos, criamos e atendemos nossos clientes.”
Mas, ao que tudo indica, pelo menos uma funcionária que sobreviveu aos cortes decidiu sair mesmo assim. Naoko Takeda respondeu ao post de Dorsey com uma carta que rapidamente viralizou. Nela, contou que deixou seu cargo de cientista de dados na Cash App (subsidiárias da Block) apenas um dia após as demissões.
“Imaginei que uma empresa capaz de estalar os dedos como e apagar metade dos funcionários não precisaria de um aviso prévio meu de duas semanas”, escreveu no LinkedIn. “Sou apenas mais uma colaboradora individual que facilmente poderia ter feito parte desses 40%.”
"ESCOLHER SAIR COM DIGNIDADE"
Segundo Takeda, em um intervalo de apenas 10 minutos, ela descobriu que 70% da sua equipe direta e das equipes associadas seriam demitidas. “Na minha equipe, só sobramos eu e uma pessoa recém-contratada que tinha começado três dias antes”, escreveu. “Senti um medo enorme e também a culpa de ter sobrevivido.”
Esse sentimento ficou ainda mais forte depois da proposta feita pela empresa aos funcionários que ficaram. Takeda afirma que, no seu caso, a oferta incluía um aumento salarial de cerca de 75%, além de um bônus que elevaria o total para um aumento de quase 90%.

“Basicamente, vi minha empresa descartar metade dos meus colegas e dobrar meu salário. Isso não é uma honra. Parece vergonhoso e desumanizante. Eu preferiria ver meus colegas manterem seus empregos do que lucrar pessoalmente com o trauma deles.”
A Fast Company procurou a Block para comentar os detalhes citados na publicação de Takeda.
Depois de receber a notícia das demissões, ela afirma que chegou a perguntar se poderia ser incluída no corte.
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“Claro que todos responderam ‘não’”, escreveu. “Porque, afinal, por que você deveria poder escolher sair com dignidade quando vê toda a sua equipe – as pessoas com quem trabalhou duro para construir uma relação positiva ao longo de um ano e meio – desaparecer? Mas tome este salário gordo, muito acima do mercado, porque nós realmente valorizamos você!”, escreveu.
DEMISSÕES POR IA VALEM A PENA?
No memorando, Jack Dorsey afirmou que a implementação de inteligência artificial na Block estava “permitindo uma nova forma de trabalhar”. Takeda, porém, descreveu um cenário bem diferente sobre como a IA vinha sendo usada internamente.
“No último ano, a inteligência artificial foi enfiada goela abaixo de todo mundo. Tudo era sobre IA. Diziam para usarmos IA o máximo possível”, escreveu. “É algo quase distópico ser forçado a usar justamente as ferramentas que aceleram o desaparecimento dos empregos dos quais depende o nosso sustento.”
Mais de 4 mil empregos foram eliminados na Block em nome da eficiência proporcionada pela IA.
Após as demissões, a Block passou a ter cerca de 5,9 mil funcionários em tempo integral. Dados da Comissão de valores Mobiliários dos EUA mostram que esse número é praticamente o mesmo que a empresa tinha em 2020, antes de um forte ciclo de contratações durante a pandemia elevar o quadro para 12.985 funcionários em 2023.
Sem a explicação baseada em IA dada por Dorsey, esse retorno aos níveis pré-Covid poderia parecer apenas uma correção natural após um período de muitas contratações. Mas, depois do memorando, a lógica real por trás das demissões ficou menos clara.
“Pessoalmente, vi ganhos de produtividade muito limitados com IA, nada nem de longe suficiente para justificar jogar fora metade da força de trabalho da empresa, junto com todo o conhecimento institucional e a experiência acumulada”, escreveu Takeda.
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“Então 40% dos funcionários não tiveram escolha a não ser aceitar a indenização e sair. Os 60% restantes receberam salários inflados para ficar e limpar a bagunça criada pela nossa ‘liderança’, tudo para continuarmos contribuindo para um futuro em que a IA nos deixará todos desempregados. Não, obrigada. Estou fora!”, escreveu ela.