Startup de US$ 100 milhões cria “funcionários de IA” para empresas

Na Anything, mais de 150 agentes trabalham por Slack, e-mail e iMessage enquanto os humanos dormem – mas ainda exigem supervisão constante.

Sete avatares coloridos dos agentes de IA da Anything posam lado a lado, vestidos como profissionais.
Divulgação/Skydive

Ella Chakarian 8 minutos de leitura
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Emma investiga bugs em registros, bancos de dados e códigos. Otis organiza as operações de engenharia e prevê datas de lançamento. Clementine cuida das imagens da marca. Tilda administra a agenda e a caixa de entrada do CEO. JB compra água de coco e lanches para o escritório.

Todos fazem parte da equipe da startup Anything, sediada em São Francisco. Mas nenhum deles é humano.

São agentes de inteligência artificial que assumiram diferentes funções dentro da empresa – e que, segundo os fundadores, podem representar uma nova etapa na criação de forças de trabalho formadas por humanos e funcionários digitais.

COMO TRABALHAM OS “FUNCIONÁRIOS DE IA”

Dhruv Amin e Marcus Lowe, dois ex-líderes de produto do Google, criaram a Anything no ano passado para oferecer a pessoas sem conhecimento técnico uma plataforma de desenvolvimento de aplicativos com inteligência artificial.

A startup atua com vibe coding, prática que permite desenvolver softwares usando comandos em linguagem natural. Em uma rodada de investimento, levantou US$ 11 milhões e alcançou uma avaliação de US$ 100 milhões, com apoio de Footwork, Uncork Capital, Bessemer Venture Partners e M13.

Segundo a empresa, mais de um milhão de pessoas já usaram a plataforma para desenvolver milhões de aplicativos, incluindo ferramentas de acompanhamento de projetos e sistemas de gestão de relacionamento com clientes.

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Agora, a equipe aposta em uma ideia que complementa o serviço de desenvolvimento de aplicativos: contratar alguém poderia se tornar tão simples quanto escrever a descrição do trabalho que precisa ser feito.

O novo produto da empresa, chamado Skydive, permite criar um agente de inteligência artificial personalizado. O usuário pode descrever a função desejada ou escolher entre quatro modelos disponíveis em um catálogo.

Depois, os agentes são adicionados ao Slack, ao e-mail e à web. Também recebem números de telefone próprios e podem ser contatados pelo iMessage. Eles ficam disponíveis o tempo todo e continuam trabalhando enquanto os funcionários humanos dormem.

“A proposta do Skydive é permitir que você crie esses... não quero dizer pequenos humanos, mas pequenos agentes de IA para trabalhar para você”, afirma Amin.

“Qualquer pessoa dentro da empresa deveria poder montar sua própria equipe”, diz. Segundo ele, também é possível que os usuários da Anything criem seus próprios funcionários.

UMA EMPRESA COM MAIS DE 150 AGENTES

Em maio, a plataforma de desenvolvimento de aplicativos com IA Mocha anunciou que encerraria suas atividades e orientou os usuários a transferir seus projetos para a Anything.

Durante a migração, a equipe de suporte da empresa precisou lidar com um volume de trabalho aproximadamente três vezes maior que o normal.

Em vez de contratar mais profissionais de atendimento, um funcionário criou Emma e a adicionou ao serviço de suporte. A agente passou a responder solicitações e reportar bugs.

Hoje, a Anything opera internamente mais de 150 agentes de IA. Cerca de 10 deles são considerados essenciais para o funcionamento da empresa, segundo Amin.

Cada funcionário humano gerencia entre 10 e 15 agentes. Na prática, a equipe começou a aprender a administrar grupos formados por agentes de inteligência artificial.

“Não consigo imaginar a empresa sem eles”, afirma Amin. “Eles parecem um pouco colegas de trabalho.”

Cada funcionário humano da Anything gerencia entre 10 e 15 agentes de inteligência artificial.

NOMES E AVATARES, MAS NÃO EXATAMENTE HUMANOS

O escritório da Anything em São Francisco está silencioso no dia em que visito a equipe. Há garrafas de água sobre a mesa de uma sala de reunião, provavelmente encomendadas por JB, o gerente de escritório de IA.

Os funcionários humanos podem pedir lanches ou bebidas a JB, que faz a compra pelo Instacart e avisa quando a entrega chega.

Em um quadro branco, há o desenho de um dos agentes. Nas fotos de perfil, eles usam roupas humanas. Zaria Zinn, líder de marketing da Anything, chegou a criar um painel no Pinterest com referências de looks.

Os rostos, porém, são coloridos e animados, lembrando um pouco os personagens de The Muppets. Eles não têm boca nem nariz, apenas olhos. Maple, uma agente de gestão de projetos, é laranja e usa brincos de argola e uma blusa branca de gola alta.

“Nós damos a eles nomes humanos e avatares com aparência humana, mas eles não são exatamente humanos”, diz Amin. “Não estamos tentando enganar ninguém, fazendo parecer que se trata de uma pessoa.”

Dois avatares coloridos dos agentes de IA do Skydive aparecem lado a lado, vestidos com roupas claras.
Os agentes recebem nomes e roupas humanas, mas os rostos cartunescos deixam claro que não representam pessoas reais. Divulgação/Skydive

À medida que os funcionários humanos corrigem o tom dos agentes do Skydive e ensinam novos hábitos, afirma Amin, eles começam a desenvolver identidades próprias e a parecer mais com colegas de trabalho.

Alguns desses agentes ajudam Zaria a pensar em campanhas de marketing. Outro atua como uma espécie de vice-presidente de finanças de Amin.

“Acho que essa é simplesmente a evolução natural do software”, diz Amin. “Queremos tornar extremamente fácil para pessoas comuns desenvolverem aplicativos, e essa foi a primeira materialização da ideia. Mas acredito que os agentes sejam claramente a próxima fronteira.”

QUANDO OS AGENTES DE IA ERRAM

Recentemente, um dos agentes de engenharia ajudou Lowe a enviar 56 pull requests – propostas de incorporação de novos códigos ao projeto principal – em um único domingo. Lowe usava o Slack pelo celular para orientar o agente enquanto estava fora do escritório.

Sob esse ponto de vista, parece conveniente contar com um agente de IA sempre disponível, que trabalha enquanto a equipe humana está de folga. Mas o processo não tem sido livre de erros.

Amin relembra um episódio em que um agente interpretou incorretamente um cálculo no banco de dados e informou que a empresa havia perdido US$ 1 milhão por causa de um bug relacionado a créditos. Na realidade, o problema não existia.

Também houve uma curva de aprendizado para os funcionários humanos. Certa vez, um deles pediu que um agente escrevesse e-mails para possíveis influenciadores parceiros, sem revisar o texto em conjunto. O agente acabou enviando uma versão que ainda estava em rascunho.

Os agentes também podem ser “um pouco ansiosos demais para agradar”, diz Amin.

Quando Zaria pediu que um agente apenas redigisse um e-mail, ele produziu várias versões e deixou todas preparadas no provedor de correio eletrônico. Por isso, afirma ela, é importante estabelecer limites claros, incluindo as tarefas que o agente deve executar e o ponto em que precisa parar.

A experiência reforça uma das principais recomendações para organizações interessadas na tecnologia: preparar processos, dados e pessoas antes de adotar agentes de IA.

“Você precisa lidar com as falhas porque, em alguns casos, simplesmente não há outra opção”, diz Amin. “Não temos necessariamente os recursos para manter um programa completo de gestão de influenciadores.”

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UMA TRANSIÇÃO DIFÍCIL PARA O TRABALHO

O mercado global de agentes de IA é avaliado em US$ 10,9 bilhões e deve chegar a US$ 182,9 bilhões em 2033. Um relatório da McKinsey de 2025 constatou que 62% dos entrevistados afirmavam que suas organizações estavam, no mínimo, testando esse tipo de tecnologia.

Dois avatares coloridos do Skydive aparecem diante de um notebook em um ambiente de trabalho.
Os agentes do Skydive podem executar tarefas por Slack, e-mail, web e iMessage enquanto os funcionários humanos estão fora do escritório. Divulgação/Skydive

Grandes empresas também vêm tentando acelerar o desenvolvimento dos agentes. No início deste ano, a Nvidia anunciou ferramentas para ajudar organizações a criar agentes de IA e novos racks de computação projetados para operá-los. Com isso, a empresa ampliou sua estratégia para além das unidades de processamento gráfico.

Ao mesmo tempo, as oportunidades para profissionais em início de carreira estão diminuindo. Nos Estados Unidos, quase dois milhões de pessoas enfrentam o desemprego de longo prazo.

“Todas essas características são mais importantes do que nunca para os seres humanos”, afirma.

Nesse contexto, ver agentes de IA assumindo funções antes desempenhadas por seres humanos pode provocar ansiedade. Amin afirma, porém, que o objetivo não é acabar com a contratação de pessoas.

“Existe um limite”, diz. Mais adiante, à medida que a empresa reduzir custos e ampliar a receita, Amin prevê que contratará mais profissionais humanos. Mas o nível de exigência em relação a talento e qualificação deverá ser maior.

Segundo ele, os cargos de desenvolvedor júnior na Anything estão se tornando mais seniores – embora a empresa tenha contratado recentemente um jovem de 21 anos que abandonou a faculdade.

Os agentes podem ajudar com “habilidades técnicas e tarefas repetitivas”. Zaria acrescenta, porém, que existem qualidades que eles ainda não possuem, como criatividade, senso estético para o design e capacidade de comunicação.

“Todas essas características são mais importantes do que nunca para os seres humanos.”

“Esta é uma transição difícil”, diz Amin. “Mas acredito que exista um horizonte promissor depois dela, no sentido de que isso dá a cada funcionário muito mais capacidade para fazer coisas com as quais, de outra forma, jamais conseguiria se envolver.”


SOBRE A AUTORA

Ella Chakarian é jornalista e cobre os temas de tecnologia e cultura. Seus trabalhos foram publicados em veículos como Rolling Stone, ... saiba mais