Google pode voltar a usar informações dos e-mails para publicidade com IA
Empresa afirma que não usa dados do Gmail para publicidade hoje, mas documentos sugerem que isso pode mudar com recursos de IA

Desde 2017, o Google promete não exibir anúncios com base nas mensagens dos usuários no Gmail. Embora essa política não esteja mudando agora, a empresa pode estar preparando o terreno para anúncios personalizados baseados nas informações que sua IA extrai das caixas de entrada.
Documentos de suporte do Google já reconhecem que a companhia pode exibir anúncios com base nas interações dos usuários com recursos de inteligência artificial. E, com as novas funcionalidades de Personal Intelligence (inteligência pessoal) na Busca do Google, essas interações podem incluir dados do Gmail.
Imagine, por exemplo, que você esteja pesquisando um carro novo. O recurso de Personal Intelligence pode fazer recomendações analisando seus e-mails para descobrir qual veículo você dirige atualmente, para que tipo de atividade pretende usá-lo e quem costuma viajar com você.
A IA permite que o Google monte um retrato muito mais detalhado de quem você é. A dúvida é se essas interações, que envolvem dados pessoais, passarão a servir também para direcionar publicidade.
Allie Bodack, porta-voz do Google, afirma que a empresa não utiliza dados do Gmail para anúncios segmentados neste momento. Ela citou uma declaração recente ao site Search Engine Land, segundo a qual usuários que ativam o Personal Intelligence atualmente não veem anúncios no Modo IA da Busca do Google.
Questionada sobre o uso do Personal Intelligence para direcionar anúncios em outros serviços, como a busca tradicional do Google, Bodack respondeu que "esse não é o caso hoje".
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Mas nem essa resposta nem a declaração enviada ao Search Engine Land descartam que anúncios baseados em dados do Gmail possam surgir no futuro. A própria empresa reconhece que publicidade será incorporada ao Modo IA, inclusive para usuários que ativarem o Personal Intelligence.
Embora o Google esteja agindo com cautela por causa da natureza sensível das comunicações por e-mail, os insights obtidos a partir desses dados podem ser valiosos demais para serem ignorados.
COMO E-MAILS PODEM VIRAR INSIGHTS PARA ANÚNCIOS
O Google apresentou o Personal Intelligence em janeiro e disponibilizou o recurso para todos os usuários dos Estados Unidos em março. Depois de ativado, ele permite que a empresa utilize informações do Gmail, Google Agenda e Google Fotos para responder perguntas feitas no aplicativo Gemini ou no Modo IA e da Busca.
Se você estiver procurando roupas, por exemplo, o Google pode analisar recibos de compras armazenados no Gmail para identificar quais marcas e estilos prefere. Se pedir sugestões de viagens, a IA pode consultar seus e-mails e fotos para descobrir quais destinos você já visitou.
Segundo um documento de suporte da empresa, essas respostas passam a integrar o Search Services History, o histórico das interações do usuário com os serviços de busca vinculados à conta.

O mesmo documento afirma que esse histórico é utilizado para personalizar anúncios. O Google também usa essas interações para treinar seus modelos de IA, embora remova informações pessoais nesse processo.
"Seu histórico salvo ajuda a personalizar sua experiência nos serviços de Busca e em todo o Google", afirma a documentação. Segundo a empresa, ele permite revisitar pesquisas anteriores e receber recomendações e anúncios personalizados de acordo com as configurações de personalização do usuário.
Isso não significa que o Google esteja analisando toda a caixa de entrada para criar perfis publicitários. A interpretação mais provável é que, quando o usuário faz uma pergunta cuja resposta depende de informações presentes em seus e-mails, essa interação passe a integrar o conjunto de dados que pode ser usado para personalização de anúncios.
Documentos do Google reconhecem que a empresa pode mostrar anúncios com base nas interações dos usuários com IA.
"Os dados de e-mail são particularmente valiosos porque revelam sinais de alta intenção sobre viagens, compras, assinaturas, eventos de vida e interesses profissionais, que muitas vezes são mais preditivos do que o comportamento de navegação", afirma Nikhil Lai, analista da Forrester.
"Embora o Google enfatize que o Personal Intelligence foi criado para melhorar as respostas da IA, os consumidores provavelmente vão questionar onde termina a personalização e começa a publicidade."
O Personal Intelligence é um recurso opcional. Existe uma página do Google que permite conectar ou desconectar contas do Google Workspace (como Gmail, Agenda e Drive) e também do Google Fotos.
Ainda assim, a empresa vem promovendo a funcionalidade por meio de mensagens no aplicativo Gemini, o que pode levar usuários a ativá-la sem entender totalmente suas implicações.
POR QUE ISSO IMPORTA
É verdade que o Google já dispõe de inúmeras formas de entender quem você é. Muitos sites e aplicativos incorporam códigos de rastreamento da empresa para monitorar a atividade dos usuários fora de seus próprios serviços.
Além disso, produtos como Chrome e Google Search oferecem uma visão detalhada do comportamento de navegação. Com o Personal Intelligence, porém, o Google ganha a capacidade de produzir análises ainda mais profundas sobre a vida dos usuários.
Uma reportagem publicada em junho por David Pierce, do The Verge, ilustra esse potencial. Ao testar um futuro agente de IA do Google chamado Spark, Pierce permitiu que o sistema acessasse seu Gmail. A IA conseguiu identificar as preferências alimentares de sua esposa, as idades exatas de seus dois filhos e os nomes de toda a família, incluindo os pais.
Transformar esse tipo de informação em matéria-prima para publicidade seria um passo lógico para uma empresa cuja controladora, Alphabet, obteve 73% de sua receita com anúncios no ano passado. Embora o Google afirme que não faz isso atualmente, também não garante que não vai alterar essa política no futuro.
Lena Cohen, especialista em tecnologia da organização Electronic Frontier Foundation (EFF), afirma que novos recursos frequentemente criam maneiras adicionais para empresas coletarem ou utilizarem dados pessoais e que os usuários merecem mais transparência sobre como essas informações serão empregadas.
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"É inaceitável que seja preciso um jornalista fazer essa pergunta à empresa e que continue tão pouco claro para os usuários comuns do Google como seus e-mails podem ou não ser conectados ao sistema de segmentação de anúncios por meio desse novo recurso de IA", diz Cohen.
Por enquanto, a política de privacidade do Google continua explícita ao afirmar que "não mostramos anúncios personalizados com base no conteúdo do Drive, Gmail ou Fotos". Mas vale acompanhar se essa promessa continuará valendo nos próximos anos.