Até a IA com aparência feminina recebeu 10% menos pelo mesmo trabalho

Experimento com 189 profissionais revela diferenças na remuneração atribuída a assistentes virtuais idênticos e mostra como preconceitos podem afetar nossa relação com a tecnologia.

Montagem com dois assistentes virtuais, um azul e outro rosa, acompanhados de rostos humanos e pilhas de moedas douradas de alturas diferentes.
Créditos: Freedomz, volodyar via Adobe Stock / Steve A Johnson, Michelangelo Buonarroti via Pexels

Jude Cramer 5 minutos de leitura
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Nem mesmo os assistentes de inteligência artificial estão imunes aos preconceitos humanos. Em um experimento sobre o uso da IA no ambiente de trabalho, um agente virtual com aparência feminina recebeu uma recompensa financeira 10% menor do que outro com aparência masculina, mesmo utilizando a mesma tecnologia e desempenhando as mesmas funções.

O estudo, realizado por pesquisadores das universidades de Zurique, na Suíça, e Limerick, na Irlanda, em colaboração com a SKEMA Business School, reuniu 189 profissionais em um escritório de realidade virtual. Os participantes precisaram trabalhar com assistentes de inteligência artificial e avaliar sua confiabilidade, a qualidade de suas contribuições e quanto mereciam receber pelo trabalho realizado.

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Os resultados revelaram uma contradição. Embora a maioria dos entrevistados afirmasse que o gênero de uma IA não deveria influenciar suas avaliações, as decisões tomadas durante o experimento mostraram diferenças.

O assistente virtual apresentado como homem recebeu, em média, uma recompensa maior do que sua versão feminina.

A DESIGUALDADE SALARIAL CHEGOU À INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL?

No experimento, os pesquisadores criaram dois assistentes virtuais com características humanas: Johan e Johanna.

Os dois utilizavam o mesmo modelo de linguagem e tinham funcionalidades idênticas. A diferença estava na forma como eram apresentados aos participantes: um tinha aparência masculina e o outro, feminina.

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Cada profissional realizou tarefas de trabalho em um escritório virtual, incluindo atividades que exigiam colaboração e geração de ideias.

Depois, os participantes avaliaram a confiabilidade dos assistentes, o reconhecimento que mereciam por suas contribuições e o quanto pareciam humanos.

Também receberam a possibilidade de distribuir até quatro francos suíços entre si e o assistente de IA, como recompensa pela atividade. O valor não destinado ao agente poderia ser mantido pelo participante.

Foi nessa etapa que apareceu uma das principais diferenças: Johanna recebeu 10,25% menos dinheiro do que Johan.

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Os dois assistentes tiveram avaliações semelhantes em relação ao reconhecimento pelo trabalho e à confiabilidade. O agente masculino obteve resultados ligeiramente superiores nesses aspectos, mas as diferenças não foram estatisticamente significativas.

Já a diferença nas recompensas financeiras foi significativa. Johanna também foi considerada menos humana do que Johan, apesar de ambos utilizarem a mesma tecnologia.

Os resultados fazem parte do estudo Human-Like and Male? How AI Assistant Design Relates to Trust and Monetary Reward at Work in VR, publicado em outubro de 2026.

O QUE AS PESSOAS DIZEM É DIFERENTE DO QUE FAZEM

Após o experimento, os pesquisadores entrevistaram 34 participantes para entender como haviam percebido os assistentes.

A maioria afirmou que o gênero não deveria fazer diferença na relação com uma inteligência artificial.

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"Se fosse uma IA homem ou uma IA mulher, eu confiaria nos resultados da mesma forma", afirmou um dos entrevistados.

Outro participante argumentou que máquinas não têm gênero e que, independentemente de sua aparência, continuariam sendo sistemas tecnológicos. Apenas três dos 34 entrevistados reconheceram explicitamente que a apresentação de gênero poderia influenciar suas avaliações.

"Acho que sentimos que isso não tem impacto, mas acredito que tem um impacto muito forte. É aí que entram os diferentes preconceitos nas relações interpessoais", afirmou um deles.

O contraste entre discurso e comportamento chamou a atenção dos pesquisadores.

Em entrevista publicada pela Universidade de Zurique, Thomas Fritz, professor de informática e coautor do estudo, afirmou que o resultado pode estar relacionado a vieses dos quais as próprias pessoas não têm consciência.

Os pesquisadores, porém, fazem uma ressalva: como o experimento utilizou apenas um avatar masculino e um feminino, não é possível concluir que o gênero, isoladamente, tenha provocado a diferença.

A aparência e o grau de semelhança dos personagens com seres humanos também podem ter influenciado os resultados.

A descoberta chama a atenção por reproduzir, em um ambiente virtual, diferenças que persistem no mercado de trabalho.

Nos Estados Unidos, mulheres receberam, em 2025, cerca de 78 centavos para cada dólar ganho pelos homens. Quando a comparação considera apenas pessoas que trabalharam em tempo integral durante todo o ano, a proporção sobe para 84 centavos por dólar, segundo os dados apresentados pela Fast Company US.

QUANTO MAIS HUMANA A IA, MAIOR A CONFIANÇA?

A pesquisa também investigou como a aparência dos assistentes influencia a relação com os usuários.

Além de Johan e Johanna, os participantes trabalharam com um chatbot de texto e um pequeno robô posicionado sobre a mesa do escritório virtual.

Todos utilizavam o mesmo modelo de linguagem e sistema de interação. A diferença estava na maneira como se apresentavam.

Os assistentes com aparência humana receberam avaliações mais positivas em relação à confiança e ao reconhecimento pelo trabalho do que o robô.

Também receberam recompensas financeiras maiores.

Uma participante contou que decidiu dar mais dinheiro a Johanna porque conseguia se identificar com a maneira como ela conversava. O fato de enxergá-la como uma figura feminina, e não simplesmente como uma máquina, influenciou sua percepção.

Outra afirmou que a presença de Johanna ao seu lado fazia com que sentisse estar conversando com uma colega de trabalho, o que a levou a reconhecer mais suas contribuições.

Curiosamente, nas entrevistas, muitos participantes disseram preferir sistemas que fossem claramente identificados como máquinas, em vez de assistentes com aparência humana.

A diferença entre essas preferências declaradas e as decisões tomadas no experimento reforça uma das questões centrais do estudo: a maneira como a inteligência artificial é apresentada pode influenciar o comportamento das pessoas, mesmo quando suas capacidades técnicas são iguais.

Para os pesquisadores, os resultados trazem um alerta para empresas que desenvolvem assistentes virtuais com nomes, vozes e características humanas.

À medida que esses sistemas passam a atuar como colaboradores digitais, as escolhas de design podem afetar a confiança dos usuários e a valorização do trabalho realizado.

O desafio também está em evitar que ferramentas tecnológicas reproduzam estereótipos e desigualdades presentes nas relações humanas.


SOBRE O AUTOR

Jude Cramer é um jornalista e crítico premiado pela NLGJA e indicado ao GLAAD Media Award, com foco em histórias sobre entretenimento,... saiba mais