IA está destruindo livros para aprender? Entenda a polêmica que preocupa o mundo
Uso de obras físicas no treinamento de inteligência artificial levanta debates sobre a preservação e direitos autorais

Livros antigos, edições fora de catálogo e títulos difíceis de encontrar passaram a despertar um interesse inesperado no mercado de inteligência artificial.
O movimento chegou a distribuidoras e livrarias de diferentes países, que começaram a receber grandes pedidos de exemplares sem saber exatamente quem estava por trás das compras.
O destino de parte dessas obras ajuda a explicar a preocupação: empresas ligadas ao setor de IA têm recorrido a livros físicos para ampliar a quantidade de textos usados no desenvolvimento de seus modelos. O processo, porém, pode exigir o desmonte e a destruição dos exemplares depois da digitalização.
POR QUE EMPRESAS DE IA QUEREM LIVROS?
Livros se tornaram uma fonte valiosa para o treinamento de inteligência artificial por reunirem grandes volumes de textos produzidos e revisados por humanos. A procura, porém, chamou atenção ao chegar a obras antigas, usadas e difíceis de encontrar.
Conforme mostramos aqui na Fast Company Brasil, distribuidoras e livrarias passaram a receber grandes pedidos de exemplares, aumentando as dúvidas sobre o destino dessas publicações e reacendendo discussões sobre direitos autorais.
COMO O PROCESSO DESTRÓI OS LIVROS?
O procedimento pode ser chamado de digitalização destrutiva. Em vez de fotografar cada página mantendo o livro intacto, as máquinas removem ou cortam a lombada para separar as folhas.
As páginas soltas podem então passar rapidamente por scanners industriais. Depois que a empresa transforma o livro em arquivo digital, os restos físicos vão para o descarte ou para a reciclagem.
A técnica permite processar grandes quantidades de material em menos tempo, mas torna praticamente impossível remontar o exemplar original.
O QUE É PROJECT PANAMA?
Um dos casos que tornou a prática conhecida envolve a Anthropic, empresa responsável pelo Claude. Documentos judiciais revelados em um processo de direitos autorais mostraram que a companhia iniciou, em 2024, uma operação interna chamada Project Panamá.
Segundo documentos analisados pelo The Washington Post, a Anthropic gastou dezenas de milhões de dólares na compra de milhões de livros físicos. O projeto removeu as lombadas dos livros, digitalizou as páginas e posteriormente descartou o material.
O material digitalizado foi utilizado para formar uma biblioteca de textos destinada ao desenvolvimento dos modelos de inteligência artificial da empresa. A operação veio a público a partir de milhares de páginas de documentos judiciais relacionados a uma ação movida por autores.
A PRÁTICA PREOCUPA
A digitalização destrutiva preocupa principalmente quando envolve livros antigos, raros ou fora de catálogo, já que determinados exemplares podem ser difíceis de substituir e possuem características que não são preservadas em uma simples cópia digital.
A prática também amplia o debate sobre direitos autorais e o uso de obras no treinamento de IA. Assim, a discussão envolve não apenas o destino dos livros físicos, mas também os limites para utilização de seu conteúdo pelas empresas de tecnologia.