IA é apenas fast food para o cérebro

Assim como as empresas de fast-food aprenderam a explorar nosso desejo por praticidade, as empresas de tecnologia estão tornando a terceirização do pensamento mais fácil do que nunca.

Ilustração compara a oferta automática de inteligência artificial ao aumento de porções em redes de fast-food.
Quando a ajuda da IA se torna automática, recusar seu uso passa a exigir um esforço consciente.

David Rock 11 minutos de leitura
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Geralmente não é um bom dia quando seu contador diz algo que te dá arrepios. No entanto, isso não tinha nada a ver com minhas finanças e tudo a ver com uma decisão tomada por grandes empresas de tecnologia que, de alguma forma, eu não tinha percebido.

“É irritante pra caramba!”, exclamou ele quando perguntei sobre o uso que faz da inteligência artificial (IA) generativa, algo que tenho perguntado a todo mundo nos últimos tempos. “Em tudo que faço, mesmo só escrevendo um e-mail, a IA fica me incomodando e se oferecendo para ajudar. Tenho que fazer um esforço consciente para dizer ‘não’.”

Como alguém que construiu sua carreira estudando como pensamos e nos comportamos, comecei a imaginar o que isso significava para o cérebro de qualquer pessoa que usa um computador ou celular — o que, basicamente, é todo mundo —, e meu cérebro começou a explodir.

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Acontece que as pessoas que estão construindo nosso mundo digital tomaram, por volta de 2024, a decisão de fazer com que a inteligência artificial generativa oferecesse ajuda em praticamente todas as tarefas, em vez de deixar que os usuários buscassem orientação conforme o necessário. Seja ao escrever um e-mail, preparar uma apresentação, criar uma imagem ou desenvolver uma estratégia de negócios crucial, a IA generativa agora aparece e incentiva você a usá-la para que não precise se esforçar tanto para pensar. Em termos simples, isso significa que os seres humanos hoje precisam se esforçar mentalmente para dizer “não” à IA quando ela tenta pensar por eles.

O EFEITO PADRÃO 

Na ciência comportamental, isso está relacionado ao chamado “efeito padrão”. Trata-se da nossa tendência, quando nos é dada uma escolha, de nos contentarmos com uma opção pré-selecionada de forma passiva, em vez de optarmos ativamente por outra.

O efeito padrão é um fenômeno poderoso na ciência da tomada de decisões. Sabendo que tendemos a aceitar qualquer escolha feita por nós, é possível criar uma arquitetura de escolha que exija que as pessoas optem por não participar, em vez de optar por participar. (Por esse motivo, gosto de me referir ao efeito padrão como o “efeito de exclusão”)

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Quer maximizar sua taxa de assinaturas? Cobre dos cartões de crédito dos assinantes todo mês, automaticamente, a menos que eles tomem alguma atitude para cancelar. Quer que as pessoas doem seus órgãos? Torne essa a opção padrão no formulário da carteira de motorista, em vez de exigir que elas se inscrevam para doar. Como preferimos não fazer nada a fazer alguma coisa, a adesão a qualquer iniciativa é radicalmente maior com essa estratégia. De fato, no caso da doação de órgãos, 90% das pessoas doam em países que exigem que se opte por não doar, em comparação com cerca de 10% quando as pessoas precisam escolher doar.

Se você é da minha geração, provavelmente se lembra do documentário de 2004 “Super Size Me - A Dieta do Palhaço”, do falecido Morgan Spurlock. A partir de 1978, os caixas do McDonald’s eram obrigados a perguntar à maioria dos clientes: “Deseja aumentar o tamanho do seu pedido?”. Na maioria das vezes, quando as pessoas eram convidadas a fazer isso, elas aceitavam.

A ciência por trás do motivo pelo qual isso funciona é simples. Não precisar pensar é uma das coisas mais atraentes e deliciosas que podemos oferecer ao cérebro humano. Desenvolvidas ao longo de milênios, quando os recursos metabólicos eram escassos, as redes de recompensa robustas se ativam sempre que detectamos uma oportunidade de alcançar um objetivo com menos recursos físicos ou mentais. Uma motosserra em vez de um machado? Brilhante. Um aspirador em vez de uma vassoura? Fantástico. Uma IA em vez do seu cérebro? Sim, claro.

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O esforço cognitivo necessário para optar por não participar é apenas uma das razões pelas quais o efeito padrão funciona. A segunda é que também presumimos que buscar ajuda da IA generativa seja a decisão certa. Afinal, provavelmente sua empresa vem incentivando você a usá-la o máximo possível. A terceira razão é a crença de que usar a IA em vez de pensar é a norma social, e aderir às normas sociais é um dos maiores motivadores do comportamento humano.

As redes de fast-food aprenderam a lucrar bilhões a mais manipulando o desejo natural do cérebro de economizar recursos, e as empresas de tecnologia de hoje estão fazendo o mesmo. Hoje, neste exato momento, elas estão levando qualquer pessoa que use tecnologia, em qualquer lugar, a pensar menos por conta própria. Essa é agora a opção mais fácil. A opção mais difícil — aquela que exige esforço — é pensar por conta própria.

O problema dessa estratégia, pelo menos para o bem-estar da população em geral, é que ela funciona. No mundo do fast-food, as pessoas acabam comendo muito mais. No mundo digital, as pessoas acabam pensando muito menos.

A IA PODE MINAR NOSSAS HABILIDADES

Talvez você esteja se perguntando por que isso é um problema. Usar uma calculadora para poupar o cérebro de cálculos matemáticos complexos não ajuda a resolver problemas de nível mais avançado? E não podemos decidir quando devemos ou não usar essas ferramentas e utilizá-las nos momentos certos?

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Pesquisas mostram que isso é um pouco mais complicado do que se imagina. Vários estudos indicam que delegar uma habilidade à IA resulta na perda dessa habilidade de forma surpreendentemente rápida. Um estudo revelou que, após a incorporação de ferramentas de IA aos fluxos de trabalho dos médicos, a capacidade deles de detectar indicadores específicos de saúde diminuiu significativamente. E, em outro estudo, as habilidades de programação foram prejudicadas assim que as pessoas receberam ajuda da IA, mesmo entre aquelas com anos de experiência.

Uma maneira de entender isso é como um problema de motivação. Imagine que, normalmente, você leve três horas para preparar uma apresentação e, então, descobre uma maneira de fazer isso em 10 segundos. Depois de algumas semanas fazendo isso em 10 segundos, parece insuportável voltar às três horas. Seu cérebro se rebela. Ele envia um alerta de que algo está errado, de que existe uma maneira de você economizar recursos. O resultado no cérebro é semelhante a sentir dor de verdade, no sentido de que fica incrivelmente difícil se concentrar. Além de ser tão doloroso, ao longo dessas poucas semanas seu cérebro iniciou o processo de reciclagem das conexões que você havia construído para o método de várias horas. Ele estava tão certo de que essa habilidade não seria necessária no futuro, que começou a excluir essas conexões de suas redes.

Isso está acontecendo em questão de semanas ou meses, mesmo no caso de uma habilidade desenvolvida ao longo de décadas. Ser altamente proficiente em uma tarefa não oferece tanta proteção quanto imaginamos.

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É aqui que a coisa realmente fica assustadora. Um estudo recente do Boston Consulting Group explorou os tipos de habilidades que provavelmente perderemos quando começarmos a usar a IA generativa de forma ampla. As duas habilidades que correm maior risco? “Julgamento e tomada de decisão” e “compreensão e enquadramento de problemas”. Essas são exatamente as habilidades necessárias para decidir se devemos ou não usar a IA e se seus resultados estão corretos. A consequência é um aumento rápido no uso dessas ferramentas para tudo. É uma espiral descendente acelerada.

Isso significa que usar muito a IA nos torna menos capazes de discernir quando e como usá-la. Quando combinamos isso com o fato de que a ajuda da inteligência artificial é oferecida automaticamente em quase todas as tarefas digitais, acabamos entrando em uma ladeira escorregadia que nos leva a usá-la para tudo. Por que isso importa? Bem, considere um segundo estudo realizado em 2026 com 3.000 pessoas. Em resumo, os participantes responderam a perguntas com ou sem a ajuda da IA. Quem usou a IA para responder às perguntas disse “não sei” em apenas 3% das vezes, em comparação com 44% das vezes em que não usaram a IA. Em outras palavras, as pessoas sentiam que tinham respostas para suas perguntas quase o tempo todo. Ao mesmo tempo, a confiança no que se compartilhava ao usar a IA aumentou de 30% para 76%. Mas eis o ponto crucial: ao usar a IA, a precisão das respostas caiu de 27% para 9%.

Pense nisso por um momento... Pegue a falta de curiosidade, misture com um pouco de falsa confiança e, em seguida, acrescente o fato de se estar muitas vezes errado. Agora multiplique isso por cerca de 6 bilhões de pessoas, que estão usando cada vez mais essa ferramenta para tudo. Talvez você entenda porque meu cérebro começou a entrar em colapso enquanto conversava com meu contador.

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Usar a IA para tarefas esporádicas não é um grande problema. O desafio está na dependência constante dela. Ou, como afirma o estudo mencionado acima: “À medida que as sugestões da IA se tornam onipresentes e não solicitadas, elas podem não afetar apenas a precisão das respostas; podem até mesmo alterar o limiar metacognitivo a partir do qual as pessoas decidem se sabem o suficiente para responder.”

E lembre-se: uma das habilidades que estamos perdendo mais rapidamente é o bom senso, o que inclui saber como usar essa tecnologia da melhor forma. Em resumo, as empresas de IA estão oferecendo porções gigantescas em cada garfada de cada refeição, para todas as pessoas, o dia inteiro, todos os dias. E estamos devorando tudo isso.

É PRECISO QUE O USO SAUDÁVEL DA IA SEJA A NORMA

Não estou sugerindo que devemos eliminar a IA generativa de nossa rotina. Existem maneiras saudáveis de utilizá-la. No entanto, não podemos assumir que as grandes empresas de tecnologia farão a coisa certa e nos incentivarão a um uso saudável. Elas nunca fizeram isso com as redes sociais, o que afetou negativamente a saúde mental de toda uma geração, e provavelmente não o farão com essa tecnologia agora.

Proponho que caiba aos responsáveis pelos ecossistemas digitais em nossas escolas e organizações — diretores e administradores, CEOs, COOs, CTOs e CHROs — fazer o que é certo.

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A primeira coisa é que precisamos parar de incentivar o uso mais amplo possível dessas tecnologias e, em vez disso, promover um uso mais consciente, em que os seres humanos continuem sendo os responsáveis pelo raciocínio. Trata-se do conceito de “liderança humana”, em que a inteligência artificial é uma ferramenta para nos ajudar a pensar melhor. Como parte disso, precisamos mostrar às pessoas como usar bem a IA, o que significa pensar de forma mais profunda. A missão das áreas de RH e gestão de talentos passa, então, a ser facilitar esse raciocínio profundo, em vez de deixar que a falta de reflexão seja a norma.

Em segundo lugar, precisamos desativar a pergunta automática - “Deseja aumentar o tamanho da porção?” - dentro dos ecossistemas digitais de nossas empresas e escolas, para que sejamos obrigados a tomar a decisão consciente de buscar ajuda da IA. Se as pessoas tiverem que optar por usar a inteligência artificial para aquele e-mail, documento ou apresentação, esse momento de escolha lhes dará espaço para tomar a decisão certa. O padrão deve ser pensar bem, não delegar.

A IA generativa é como quando os automóveis substituíram os cavalos. Agora, todos estamos indo mais rápido. Deixar crianças dirigirem não é uma boa ideia, nem permitir que os carros andem da forma mais veloz possível. Ainda temos tempo para estabelecer algumas regras de trânsito e limites de velocidade. O McDonald’s deixou de oferecer a opção para aumentar a porção quando o documentário foi lançado, cerca de 20 anos depois de ter adotado essa prática. Alguém, em algum lugar daquela organização, tomou a decisão de que, apesar de ser excelente para os lucros, era a coisa errada a se fazer. Não tenho certeza se queremos esperar duas décadas para que as empresas de tecnologia de hoje decidam o mesmo.


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