IA já é usada por crianças. E agora, como explicar para elas?
O desafio das famílias é ajudar crianças e adolescentes a fazer perguntas, avaliar informações e utilizar a IA sem abrir mão do próprio senso crítico

Surge a cada ano um convite para refletir sobre a infância e o mundo em que nossas crianças estão crescendo. A realidade vivida por elas é diferente daquela que marcou a infância de seus pais.
Hoje, telas, redes sociais e internet fazem parte desse cenário, que passa a incluir ferramentas de IA generativa. De acordo com a pesquisa da TIC Kids Online Brasil 2025, 65% das crianças e adolescentes de nove a 17 anos que usam internet no país já utilizam ferramentas para pelo menos uma das finalidades investigadas.
Entre os usos estão pesquisas escolares ou estudos (59%), busca por informações (42%), criação de conteúdos, como textos e imagens (21%), e conversas sobre problemas pessoais ou emoções (10%).
Para Luísa Adib, coordenadora da TIC Kids Online Brasil, os resultados mostram que a inteligência artificial foi incorporada às práticas digitais de crianças e adolescentes em pouco tempo. Em entrevista à Fast Company Brasil, ela destacou que o uso para atividades relacionadas aos estudos acompanha uma prática já comum entre os jovens.
“As atividades mais realizadas na internet, historicamente, são a busca de informação e o entretenimento. A busca para trabalhos escolares continua sendo a principal utilização da IA generativa”, aponta.
QUEM ESTÁ ENSINANDO?
Crianças e adolescentes já recorrem a ferramentas de IA para digitar comandos, solicitar imagens ou pedir resumos escolares. No entanto, saber usar essas ferramentas não significa compreender como elas funcionam ou avaliar criticamente as respostas que produzem.
Luísa diferencia as habilidades operacionais da capacidade de avaliar as informações recebidas. “Elas podem ter habilidades operacionais bastante desenvolvidas, de fato (...) mas as habilidades críticas, não. Nem teria como ser, porque isso é parte do desenvolvimento", explica a coordenadora.
não dominar todos os detalhes da IA não é impedimento para os pais orientarem seus filhos.
Um dos indicadores investigados pelo levantamento ajuda a dimensionar esse desafio: cerca de metade dos participantes de 11 a 17 anos considera verdadeira a primeira informação apresentada em uma busca na internet.
Embora o dado não se refira especificamente à inteligência artificial, ele evidencia a importância de aprender a questionar as informações encontradas no ambiente digital.
Mas como os pais e responsáveis podem orientar as crianças sobre uma tecnologia que eles próprios ainda estão aprendendo a utilizar?
APRENDIZAGEM INTERGERACIONAL
A relação das famílias com a tecnologia não acontece em uma via de mão única. No dia a dia digital, pais e filhos também trocam conhecimentos.
De acordo com a TIC Kids Online Brasil 2025, realizada pelo Cetic.br, do NIC.br, 31% das crianças e adolescentes de nove a 17 anos dizem ajudar os pais ou responsáveis em atividades online que eles não sabiam realizar.
Além disso, 50% dos pais e responsáveis admitem recorrer às próprias crianças e aos adolescentes como fonte de informação sobre o uso seguro da internet.
Os dados apontam para uma troca de conhecimentos entre gerações, mas não significam que os mais jovens dominam todas as habilidades necessárias para avaliar riscos e informações no ambiente digital.

Diante desse cenário, a mediação familiar se torna mais complexa. Luísa Adib enfatiza que não basta cobrar dos pais que orientem os filhos sobre tecnologias que também estão aprendendo a utilizar.
Segundo ela, os adultos precisam de informação e capacitação para compreender esses ambientes. A escolaridade dos responsáveis também influencia sua relação com as tecnologias e as possibilidades de mediação.
Por outro lado, não dominar todos os detalhes da IA não é impedimento para os pais orientarem seus filhos.
A orientação dos adultos precisa considerar a idade e a realidade de cada criança.
Para a neurocientista Helena Levorato, CEO da Sociedade Brasileira de Inovação, os adultos não precisam conhecer todas as funcionalidades de uma ferramenta para conversar sobre seu uso. A mediação pode começar pela disposição de ouvir e aprender junto com as crianças.
"Os pais não têm que competir com seus filhos sobre esse tipo de conhecimento tecnológico, quem sabe mais, quem começou primeiro. Eles podem inclusive permitir que os filhos ensinem como determinada ferramenta funcione, deixá-los mostrar o que estão fazendo. Isso vai fortalecer o diálogo", destaca Helena.
Abrir espaço para que as crianças compartilhem o que sabem pode fortalecer o diálogo entre pais e filhos sem eliminar o papel dos adultos. Cabe a eles contribuir com discernimento, estabelecer limites e ajudar as crianças a desenvolver uma postura crítica diante da tecnologia.
NÃO BASTA SABER USAR
Para Helena, a melhor forma de explicar a IA às crianças é compará-la a alguém que consultou uma biblioteca gigantesca. “Essa pessoa acessou vários livros dessa biblioteca, leu muitas coisas, mas isso não quer dizer que ela compreende tudo o que está dizendo”, pontua.
A comparação ajuda a mostrar que, embora a inteligência artificial produza respostas rápidas e bem articuladas, isso não significa que ela compreenda o que diz como um ser humano compreende. A ferramenta não tem consciência nem empatia e suas respostas podem conter erros.
Leia mais: 5 princípios básicos para adoção da IA generativa no ensino fundamental
Outra dimensão essencial é mostrar que a tecnologia pode ampliar as possibilidades de aprendizagem sem substituir o raciocínio dos estudantes.
A inteligência artificial pode colaborar nas tarefas escolares, estimular a criatividade e auxiliar na resolução de problemas, mas há uma diferença entre usar o recurso para aprender e delegar a ele a tarefa de pensar.
MEDIAR É MELHOR DO QUE CONTROLAR
Acompanhar a relação de crianças e adolescentes com a inteligência artificial exige mais do que restringir o acesso a plataformas ou verificar o histórico de uso.
A mediação familiar deve priorizar o diálogo, enquanto os recursos técnicos de proteção funcionam como complemento. A orientação também precisa considerar a idade e a realidade de cada criança, aponta Luísa Adib.
Na prática, essa presença pode se traduzir em conversas sobre como a IA foi utilizada, por que determinada resposta pareceu confiável e como seria possível conferir a informação em outras fontes.
A proposta é estimular uma postura crítica diante do conteúdo produzido pela tecnologia, em vez de aceitar suas respostas sem reflexão.
Mais do que dominar todas as respostas sobre uma tecnologia em constante transformação, o desafio das famílias é ajudar crianças e adolescentes a fazer perguntas, avaliar informações e utilizar a inteligência artificial sem abrir mão do próprio senso crítico.