O que são as chamadas “IA slops”? Modinha “esquisita” da internet
O termo AI slop é usado para definir conteúdos produzidos por inteligência artificial de forma rápida

Os efeitos do consumo excessivo de conteúdos absurdos gerados por inteligência artificial (IA) nas redes sociais são maléficos, por mais bobo que o conteúdo seja, como indica um estudo divulgado por pesquisadora da Universidade IPB, na Indonésia.
A pesquisa analisa como vídeos e imagens hiper irreais, que se popularizaram em plataformas como TikTok, Instagram e YouTube, podem afetar o desenvolvimento cognitivo, emocional e social, especialmente de crianças e adolescentes.
O fenômeno, conhecido como AI slop, cresce impulsionado por algoritmos, monetização e pela facilidade de criação com ferramentas de IA.
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O QUE É AI SLOP
O termo AI slop é usado para definir conteúdos produzidos por inteligência artificial de forma rápida, repetitiva e com baixa preocupação estética, narrativa ou informativa, segundo a reportagem publicada na BBC.
São vídeos, imagens ou animações que misturam elementos absurdos, chocantes ou emocionalmente apelativos, criados principalmente para gerar engajamento.
Entre os exemplos mais comuns estão animais usando roupas humanas, personagens religiosos surgindo de forma aleatória, crianças em situações irreais de pobreza extrema, monstros, parasitas, transformações corporais impossíveis e cenas que imitam documentários, mas sem qualquer base na realidade.
Apesar do aspecto “tosco” ou claramente artificial, esse tipo de material costuma alcançar milhões de visualizações, curtidas e compartilhamentos.
Uma das características mais marcantes dessas modinhas é o absurdo visual e narrativo. Tubarões usando sapatos, gorilas levantando peso em academias, xícaras de café com corpos humanos, personagens religiosos surgindo em situações banais ou cenas de sofrimento exagerado envolvendo crianças e animais são exemplos recorrentes.
O conteúdo não precisa fazer sentido, quanto mais estranho e inesperado, maior a chance de reter a atenção por alguns segundos, tempo suficiente para gerar visualização, curtida ou comentário.
Esse modelo favorece a produção em massa. Criadores reutilizam os mesmos comandos de IA, mudam pequenos detalhes e publicam dezenas de vídeos semelhantes por dia.
A MODINHA ESQUISITA
O AI slop se consolidou como uma moda digital nos últimos anos, acompanhando a popularização de geradores de imagem e vídeo baseados em IA.
O apelo está na combinação de estranhamento, surpresa e estímulos rápidos, elementos que favorecem a retenção da atenção em feeds de rolagem infinita.
Plataformas passaram a ser inundadas por esse conteúdo, muitas vezes sem identificação clara de que se trata de material artificial. Em alguns casos, usuários acreditam estar diante de cenas reais ou educativas, o que aumenta a confusão e a desinformação.
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ESTÍMULOS EXCESSIVOS
A pesquisa, conduzida pela professora Melly Latifah, da área de Desenvolvimento Infantil da Universidade IPB, analisou o impacto desse tipo de conteúdo em diferentes faixas etárias.
Segundo o estudo, crianças pequenas, que ainda não distinguem bem fantasia e realidade, podem ter sua compreensão do mundo comprometida ao consumir imagens hiper absurdas.
A exposição constante tende a gerar estímulos excessivos de dopamina, dificultando o foco, a regulação emocional e a construção da linguagem.
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Entre adolescentes, o risco está na formação de padrões de pensamento ilógicos. O estudo aponta que o consumo repetido reforça a ideia de que quanto mais absurdo, mais interessante, o que pode prejudicar o raciocínio estruturado, a empatia e a interpretação de contextos reais.
“BRAIN ROT” E A FADIGA MENTAL DIGITAL
A pesquisa associa o AI slop ao conceito de brain rot, expressão usada para descrever a deterioração cognitiva ligada ao consumo excessivo de conteúdos rápidos, fragmentados e sem profundidade.
De acordo com o estudo, esse padrão de consumo pode levar à redução da capacidade de concentração, sobrecarga mental, empobrecimento do vocabulário e dificuldade de manter atenção em atividades mais longas, como leitura ou estudo.
Os sinais variam conforme a idade. Crianças podem imitar comportamentos absurdos vistos nos vídeos. Em idade escolar, há relatos de queda no desempenho acadêmico.
Entre adolescentes, a comunicação tende a se tornar cada vez mais baseada em memes, frases desconexas e referências visuais.
NEM TUDO É PREJUÍZO, MAS EXIGE MEDIAÇÃO
A pesquisadora ressalta que o conteúdo absurdo não é, por definição, totalmente nocivo. Quando bem mediado, pode estimular criatividade e flexibilidade cognitiva. O problema está no consumo excessivo, sem explicação ou contexto.
O estudo recomenda ações práticas, como alfabetização digital, limitação de tempo de tela, incentivo à análise crítica do conteúdo e períodos de desintoxicação digital, especialmente quando o uso se torna compulsivo.
UM FENÔMENO QUE VEIO PARA FICAR
O crescimento do AI slop está diretamente ligado ao modelo econômico das redes sociais, baseado em engajamento e volume de visualizações. Especialistas alertam que, sem mudanças estruturais nas plataformas, esse tipo de conteúdo tende a se multiplicar.
Enquanto isso, a reação de parte dos usuários cresce, com críticas nos comentários e iniciativas para expor conteúdos enganosos. Ainda assim, o estudo da Universidade IPB indica que o impacto mais profundo não está apenas na estética “esquisita”, mas na forma como esse material molda atenção, pensamento e percepção da realidade.
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Em um ambiente digital cada vez mais dominado por IA, o desafio passa a ser menos tecnológico e mais educativo.