Anthropic revela prejuízo bilionário e coloca boom da IA à prova com IPO

Com prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões, empresa busca avaliação de US$ 1,5 trilhão e enfrenta dúvidas sobre a sustentabilidade do negócio

IPO da Anthropic
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Chris Stokel-Walker 5 minutos de leitura
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O segredo mais mal guardado do setor de tecnologia finalmente veio à tona: a Anthropic protocolou seu documento S-1 junto à SEC (a Comissão de Valores Mobiliários dos EUA).

Isso abre caminho para uma oferta pública inicial de ações (IPO) e para uma rodada de apresentações a investidores, que, segundo relatos, deve começar já em 9 de novembro. O objetivo é despertar um interesse à altura da avaliação pretendida de US$ 1,5 trilhão.

Com isso, a empresa abriu seus livros contábeis, permitindo que potenciais investidores tenham o primeiro vislumbre de suas finanças. E os números impressionam. A companhia registrou um prejuízo líquido de US$ 80,7 bilhões sobre uma receita de US$ 16,3 bilhões, embora os prejuízos operacionais estejam diminuindo.

Cerca de 250 clientes pagam à empresa mais de US$ 10 milhões por ano em contratos, enquanto mais de 10 mil desembolsam pelo menos US$ 100 mil. Sua taxa de retenção de receita líquida está em torno de 900%. Além disso, cada funcionário contribui com US$ 6,6 milhões para a receita da companhia. São números que qualquer empresa invejaria.

No entanto, o documento S-1 também revela uma série de possíveis problemas pela frente. Entre cinco e sete centavos de cada dólar que a Anthropic recebe dos clientes vêm de usuários que a empresa não quer em sua plataforma e que, presumivelmente, pretende remover por violarem seus termos de serviço ou suas políticas de uso.

Quase metade da receita nos primeiros seis meses do ano veio de marketplaces de computação em nuvem operados por Amazon, Google e Microsoft. Essas empresas são, ao mesmo tempo, suas fornecedoras de capacidade computacional, parceiras comerciais e concorrentes.

NÚMEROS GRANDIOSOS, PROBLEMAS AINDA MAIORES

O IPO será um grande teste do apetite do mercado para investir nas promessas e no potencial da inteligência artificial, inaugurando uma era em que a tecnologia terá de provar seu valor na prática.

“O IPO da Anthropic está se configurando como um grande teste do apetite dos investidores pela IA”, afirma Susannah Streeter, estrategista-chefe de investimentos do Wealth Club, serviço de investimentos que não oferece consultoria financeira, “especialmente porque chega em um momento particularmente turbulento para os mercados”.

Os prejuízos são enormes, mas os investidores estarão concentrados na trajetória de crescimento até 2027 e 2028.

Durante anos, investidores apostaram no potencial da IA para transformar a economia, beneficiando-se das avaliações cada vez mais elevadas de empresas em todo o ecossistema da tecnologia.

O investimento privado em empresas de IA aumentou 48 vezes desde 2013. No ano passado, os aportes chegaram a US$ 290 bilhões, ante US$ 131 bilhões em 2024.

Mas esses investidores, tanto privados quanto públicos, esperam obter retorno – e está longe de ser certo que isso acontecerá. Torsten Slok, economista-chefe da gestora de ativos Apollo Global Management, alertou que a IA “não gerou nenhum retorno financeiro para as empresas norte-americanas fora do setor de tecnologia”. Slok se recusou a comentar para esta reportagem.

OTIMISTAS x PESSIMISTAS

Tae Kim, responsável pela newsletter Key Context, discorda da ideia de que a IA já deveria estar proporcionando ganhos financeiros mensuráveis em toda a economia.

Ele argumenta que a tecnologia ainda está em seus estágios iniciais, o que torna prematuras essas expectativas. “É uma afirmação e uma tese ridículas, porque representam uma maneira muito míope de pensar sobre o assunto”, diz.

Kim aponta o crescimento extraordinário da Anthropic como evidência de que a demanda já está se consolidando. A receita da empresa aumentou 1.300% em relação ao ano anterior, passando de US$ 1,2 bilhão para US$ 16,3 bilhões, enquanto os gastos dos clientes atuais dispararam.

bolha da IA
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Kim argumenta que a enorme demanda por capacidade computacional demonstra o quanto as empresas estão ansiosas para adotar a tecnologia. O custo do aluguel de GPUs H100 da Nvidia, por exemplo, subiu quase 40% entre outubro de 2025 e março de 2026, segundo a empresa de pesquisa SemiAnalysis.

Ele também destaca a escassez de chips especializados e de memória necessários para operar sistemas de IA. Grande parte da produção de memória de alta largura de banda da Micron já está vendida para 2027, e a expectativa é que a escassez continue até 2028.

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Outros, porém, adotam uma postura mais cautelosa, e os argumentos dos pessimistas também são convincentes. Os prejuízos líquidos da Anthropic superam em muito sua receita. “Há alguns fatores de risco preocupantes, embora não inesperados, no documento S-1, incluindo a capacidade computacional”, escreve Dan Ives, sócio e diretor gerente da Yorkville Ives & Co.

“No geral, os números mostram um crescimento impressionante e extraordinário, impulsionado por um grupo cada vez maior de clientes. Os prejuízos no curto prazo são enormes, mas os investidores no IPO estarão concentrados na trajetória de crescimento até 2027 e 2028, à medida que a próxima fase desta revolução da IA ganhar força”, acrescenta Ives.

BOOM OU COLAPSO?

A grande questão para os investidores que consideram apostar na Anthropic é se o boom da IA reproduz a bolha das empresas pontocom ou representa uma transformação tecnológica mais duradoura.

Kim acredita que essas comparações não fazem sentido e argumenta que os investidores ainda estão “sofrendo de estresse pós-traumático” após o estouro da bolha pontocom.

Desta vez, segundo ele, o cenário é diferente porque a infraestrutura de IA já está sendo amplamente utilizada e a oferta de chips é limitada pela capacidade de fabricação. Isso diferencia o atual boom da IA da construção excessiva de redes de fibra óptica durante a expansão da internet, argumenta.

Talvez não demore para descobrirmos qual visão está correta, até porque a Anthropic não é a única empresa de IA que se prepara para submeter seu desempenho financeiro ao escrutínio do mercado. A concorrente OpenAI também deve realizar seu próprio IPO em 2027, com uma avaliação comparável à da Anthropic.

Segundo relatos, a OpenAI está buscando captar outros US$ 30 bilhões, com uma avaliação de US$ 1,25 trilhão. Os investidores que a empresa está cortejando provavelmente se aos que a Anthropic espera atrair, aumentando a preocupação dos céticos de que uma bolha já inflada esteja prestes a estourar.

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No fim das contas, a questão não é simplesmente se os investidores aceitarão a avaliação da Anthropic em seu primeiro dia de negociação. O que está em jogo é se o crescimento extraordinário que sustenta essa avaliação poderá se traduzir, no futuro, em lucros sustentáveis e se o impacto econômico da IA irá além das empresas que vendem a tecnologia.

Com a entrada da Anthropic e, possivelmente, da OpenAI nos mercados públicos, os investidores terão mais oportunidades de confrontar essas premissas com resultados financeiros concretos.


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais