Se a IA é inevitável, por que tantos manifestos?
Zuckerberg, Altman, Amodei e Andreessen apresentam como destino um futuro que ainda depende de chips, energia, regulação, capital e clientes.

Mark Zuckerberg é o mais recente a engrossar uma estante que começa a vergar sob o peso de tantos calhamaços. A esta altura, é quase mais fácil apontar quais líderes da tecnologia ainda não escreveram um manifesto do que listar aqueles que já fizeram isso.
O gênero inclui The Intelligence Age e The Gentle Singularity, de Sam Altman; Machines of Loving Grace e The Adolescence of Technology, de Dario Amodei; o Techno-Optimist Manifesto, de veia poética questionável, de Marc Andreessen; o extenso Situational Awareness, de Leopold Aschenbrenner; e o manifesto da Palantir, extraído do livro de seu CEO, Alex Karp — que também pode ser considerado um manifesto.
Há algo peculiar em tudo isso.
Manifestos costumam ser escritos por pessoas de fora, iconoclastas interessados em derrubar a ordem estabelecida. O melhor exemplo talvez seja o manifesto mais famoso de todos.
Quando Karl Marx escreveu O Manifesto Comunista com Friedrich Engels, vivia exilado em Bruxelas, com suas atividades restringidas e sob vigilância. Menos de uma semana depois da publicação, foi preso e expulso da Bélgica.
Mais recentemente, o manifesto Dogma 95, que pretendia romper com as convenções do cinema, foi escrito por dois diretores dinamarqueses, e não pelos grandes estúdios de Hollywood.
Os autores dos manifestos sobre IA, porém, não são pessoas de fora batendo às portas. Eles comandam algumas das instituições mais ricas e poderosas do mundo. Movimentam enormes volumes de capital, empregam milhares de pessoas e têm acesso direto a governos.
Manifestos são armas de quem não tem poder. Esses homens estão longe disso.
Então, o que está acontecendo? Quando os textos são lidos em conjunto, surge uma resposta simples e importante: apesar de todo o poder que possuem, os autores não controlam o que acontecerá a seguir.
Eles ainda precisam de algo do restante de nós. E os manifestos revelam o que é.
A IA É INEVITÁVEL — POR ISSO PRECISA DE MANIFESTOS
Zuckerberg começa seu ensaio afirmando que o surgimento da superinteligência nos próximos anos é um fato consumado.
Manifestos são armas de quem não tem poder. Esses homens estão longe disso.
Amodei diz que a criação da IA “provavelmente se tornou inevitável no instante em que a humanidade inventou o transistor — ou, talvez, ainda antes, quando aprendemos a controlar o fogo”.
Também afirma que chegamos a um ponto em que “a ideia de interromper ou mesmo desacelerar substancialmente a tecnologia é fundamentalmente insustentável”.
O curioso é que, se algo é realmente inevitável, ninguém precisa escrever manifestos a respeito. Quando foi a última vez que você encontrou um manifesto sobre o nascer do sol? Quando viu homens ricos — e são homens — fazendo discursos eloquentes sobre as promessas incalculáveis da estrela mais próxima da Terra?
Nunca.
Essa insistência revela algo: os manifestos tratam a IA como inevitável porque seu desenvolvimento, na forma imaginada por esses executivos, ainda não está garantido.
Para entender esse argumento, precisamos separar dois sentidos diferentes de inevitabilidade.
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INEVITABILIDADE FRACA E FORTE
Os manifestos exploram uma ambiguidade entre dois sentidos nos quais a IA pode parecer inevitável. Podemos chamá-los de inevitabilidade fraca e forte.
A inevitabilidade fraca diz que a IA não será desinventada. As capacidades existentes, o conhecimento técnico acumulado e os incentivos comerciais não vão desaparecer.
Os manifestos partem dessa constatação e avançam para algo muito maior: superinteligência, enormes projetos de infraestrutura e uma implantação acelerada da tecnologia em toda a economia.
O futuro ainda depende de decisões humanas. O discurso da inevitabilidade forte tenta esconder esse fato
Essas são afirmações de inevitabilidade forte. E elas estão longe de ser inevitáveis.
Esse futuro exige uma mobilização contínua de chips, energia, terras, capital, regulação e, acima de tudo, clientes. Em outras palavras, continua sujeito a escolhas humanas. A inevitabilidade fraca é praticamente incontestável. A forte não é.
Mesmo que o mundo termine parecido com o descrito nesses manifestos, ainda não está decidido que chegaremos lá. O que já foi descoberto pode ser impossível de reverter. A escala, a velocidade e o sucesso do que será construído ao redor dessas descobertas continuam em aberto.
O futuro ainda depende de decisões humanas. O discurso da inevitabilidade forte tenta esconder esse fato. A pergunta relevante é por que seus defensores se esforçam tanto para fazer isso.
O PARALELO COM A ENERGIA NUCLEAR
Um paralelo histórico ajuda a entender por que os defensores da inevitabilidade ficaram mais insistentes: a tecnologia nuclear.
Andreessen apresenta a energia nuclear como uma solução definitiva. Para ele, interromper “a implantação em larga escala da energia nuclear civil” foi “talvez o erro mais catastrófico da sociedade ocidental” durante sua vida.
As decisões de uma sociedade não devem ter como objetivo proteger os interesses de quem escreve manifestos sobre tecnologia.
Amodei coloca a energia nuclear no topo da lista de tecnologias que “funcionam bem do ponto de vista técnico”, mas foram limitadas por “regulações ou medos equivocados”.
A tecnologia nuclear não desapareceu como o concreto romano. A humanidade não perdeu o conhecimento necessário para utilizá-la, e reatores continuam em funcionamento.
Sua trajetória, porém, ficou muito distante do que poderia ter sido. Em vez de uma adoção ampla, o mundo assistiu a um desenvolvimento limitado e fragmentado.
Na década de 1960, a Comissão de Energia Atômica estimava que mais de mil reatores estariam em funcionamento nos Estados Unidos até o ano 2000. Em março de 2026, eram 96.
A semelhança com a IA é fácil de perceber: uma tecnologia de enorme poder pode enfrentar restrições por causa das preocupações da sociedade com seus riscos.
Para os autores dos manifestos — e para todos que vincularam reputações, balanços e IPOs à tese da inevitabilidade forte —, esse cenário seria um desastre.
As decisões de uma sociedade não devem ter como objetivo proteger os interesses de quem escreve manifestos sobre tecnologia.
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QUEM DEVE TOMAR ESSAS DECISÕES?
Se o formato exato da adoção da inteligência artificial não é inevitável, resta saber quem deve defini-lo.
Em uma sociedade democrática, a resposta parece evidente. Decisões sobre a estrutura da economia, a concentração de poder e a ruptura dos meios de sustento de centenas de milhões de pessoas deveriam passar por processos democráticos.
Em um mundo ideal, eleições seriam disputadas em torno dessas questões. Legisladores analisariam os diferentes interesses envolvidos com inteligência e responsabilidade moral. O debate público seria conduzido com rigor, honestidade e boa-fé.
Tudo isso aconteceria dentro de instituições livres e independentes, sem submissão a interesses econômicos ou políticos.
Parece bom. Também parece distante da realidade.
É importante defender a renovação democrática e trabalhar para construí-la. Essa renovação dificilmente chegará no mesmo ritmo em que a tecnologia avança.
Essa distância coloca uma responsabilidade especial sobre as lideranças empresariais.
O PODER QUE AS EMPRESAS NÃO ESCOLHERAM TER
Os manifestos sobre IA vêm de pessoas e instituições com profundos interesses comerciais.
Os laboratórios que desenvolvem os modelos de fronteira são empresas. Eles precisam de clientes, parceiros e organizações dispostas a reorganizar suas operações em torno dos produtos oferecidos.
As enormes apostas feitas por fundos de venture capital, private equity, bancos, fundos de hedge e investidores institucionais dependem do sucesso comercial da tecnologia. Dependem de empresas comprando o que os fornecedores de IA vendem.
Isso significa que a velocidade e a escala da implantação da IA passam pelas áreas de compras, pelos orçamentos de tecnologia e pelas aprovações dos conselhos de administração.
As lideranças empresariais têm mais influência sobre a trajetória da IA do que a maioria dos políticos — e muito mais do que eleitores individuais.
Decisões de compra não substituem processos democráticos. Também não são escolhas neutras.
Adotar a tecnologia automaticamente, no ritmo e sob o enquadramento do fornecedor, equivale a votar por uma versão específica do futuro.
Quer gostem ou não, líderes empresariais enfrentam decisões com grandes implicações sociais. Precisam fazer essas escolhas de forma ativa, sem apenas aceitar aquelas que os autores dos manifestos tentam impor.
São essas lideranças que definirão o ritmo e as condições do desenvolvimento que suas empresas estão financiando.
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ESCOLHER O FUTURO EM QUE QUEREMOS VIVER
Nada disso é um argumento contra o desenvolvimento da IA, muito menos um veto.
A tese da inevitabilidade fraca é verdadeira. A tecnologia existe e muitas de suas aplicações são úteis. Avançar rapidamente, integrar a IA às operações e aceitar os termos oferecidos pode ser a decisão correta para uma organização.
Sou otimista em relação ao poder da inteligência artificial para ampliar o potencial humano.
Foi esse otimismo que me levou a escrever este texto. O potencial da IA é tão grande que a sociedade deve decidir como implementá-la, em vez de deixar essa tarefa nas mãos dos autores de manifestos.
Nas condições particulares deste momento, as lideranças empresariais estão na linha de frente dessas decisões.
Elas precisam escolher de forma consciente.