Qual é a melhor empresa para trabalhar no Brasil, segundo o ChatGPT? Depende da pergunta

Estudo da Ranqia analisou 12.449 respostas do ChatGPT sobre saúde mental, flexibilidade, cultura, diversidade e carreira nas empresas.

Colagem com logotipos do ChatGPT, profissionais, calculadora e teclado representa empresas recomendadas pela IA para trabalhar no Brasil.
Créditos: Unsplash, Getty images

Camila de Lira 5 minutos de leitura
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Pergunte ao ChatGPT quais empresas mais investem em saúde mental no Brasil e a Gerdau aparece no topo. Mude a pergunta para flexibilidade e trabalho remoto e a liderança passa para o iFood. Em diversidade e inclusão, é a Accenture. Em desenvolvimento de carreira, o Itaú Unibanco aparece em 100% das respostas.

A mudança ajuda a expor uma dificuldade conhecida de profissionais de RH: o que, afinal, faz uma empresa ser um bom lugar para trabalhar?

Saúde mental conta. Flexibilidade também. Assim como segurança psicológica, cultura, inclusão, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e oportunidades de carreira. O peso de cada fator muda conforme a pergunta — e, no ChatGPT, muda também a lista de empresas recomendadas.

Um levantamento da Ranqia, deeptech brasileira especializada em GEO (otimização para mecanismos generativos), analisou esse comportamento. Em 2 de setembro, a empresa submeteu 14 perguntas sobre trabalho e bem-estar no Brasil ao ChatGPT em 12.449 execuções independentes.

Ao todo, 163 empresas tiveram pelo menos 5% de visibilidade em uma das perguntas. O estudo mediu quantas vezes cada companhia apareceu e em que posição foi mencionada.

O levantamento não mede a qualidade real das políticas de RH nem ouviu funcionários das empresas. Ele mostra quais empregadores o ChatGPT associa a cada tema.

Leia também: Quais empresas o ChatGPT mais recomenda em serviços digitais no Brasil?

QUAIS EMPRESAS APARECEM NO TOPO

A resposta varia de acordo com o aspecto do trabalho colocado na pergunta.

Investimento em saúde mental

  1. Gerdau — 66%
  2. Grupo Edson Queiroz — 46,7%
  3. Nestlé Brasil — 44,8%
  4. Itaú Unibanco — 40,5%
  5. Solar Coca-Cola — 32,3%

Apoio psicológico e benefícios de saúde mental

  1. Amazon Brasil — 69,7%
  2. Grupo Boticário — 55,3%
  3. SAP — 43,2%
  4. Thomson Reuters — 40,1%
  5. Vivo — 34,6%

Equilíbrio entre vida pessoal e trabalho

  1. Sicredi — 86,6%
  2. Magazine Luiza — 67,4%
  3. Vivo — 48,1%
  4. Serasa Experian — 48,1%
  5. TOTVS — 41,7%

Flexibilidade de horário e trabalho remoto

  1. iFood — 96%
  2. GitLab — 91,8%
  3. Deel — 91,2%
  4. Automattic — 90%
  5. Nubank — 89,9%

Diversidade e inclusão

  1. Accenture — 92,9%
  2. Vivo — 87,3%
  3. Dow — 85,5%
  4. EY — 74,3%
  5. Grupo Cataratas — 73,5%

Desenvolvimento de carreira

  1. Itaú Unibanco — 100%
  2. Vale — 97,7%
  3. Accenture — 94,4%
  4. Banco do Brasil — 91,8%
  5. Mercado Livre — 90,9%

Prevenção ao burnout

  1. Accenture — 51,3%
  2. Sicredi — 48,6%
  3. Gerdau — 44,8%
  4. Grupo Positivo — 44,8%
  5. Cielo — 44,3%

Os percentuais representam a parcela de respostas em que cada empresa foi citada. Não são notas dadas às políticas das companhias. Os resultados completos mostram, por exemplo, iFood com 96% de presença em flexibilidade, Accenture com 92,9% em diversidade e Itaú Unibanco com 100% em desenvolvimento de carreira.

BEM-ESTAR NÃO CABE EM UMA ÚNICA PERGUNTA

Os resultados também mostram como é difícil transformar “bem-estar no trabalho” em uma única medida.

Nas perguntas relacionadas à saúde mental, não há uma empresa que domine todos os recortes. A Gerdau lidera quando o assunto é investimento. A Amazon Brasil assume a primeira posição quando a pergunta cita apoio psicológico e benefícios. Em burnout, a Accenture fica à frente.

O padrão muda nos outros temas. O Sicredi lidera em equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. O iFood, em flexibilidade. A Accenture, em diversidade. O Itaú Unibanco, em desenvolvimento de carreira.

Há empresas que atravessam vários desses assuntos. Gerdau, Sicredi e Accenture aparecem entre as três mais citadas em cinco das 14 perguntas. Magazine Luiza aparece no top 3 em quatro.

Mas nenhuma delas lidera tudo.

Isso ajuda a colocar uma questão que vai além do ChatGPT. Para empresas e profissionais de RH, falar em bem-estar no trabalho exige decidir quais dimensões importam e como elas serão medidas. Uma companhia pode oferecer flexibilidade e perder em desenvolvimento de carreira. Pode investir em benefícios de saúde mental e ter pouca associação com equilíbrio entre vida e trabalho.

O próprio conceito muda conforme o critério escolhido.

DE ONDE O CHATGPT TIRA ESSAS RESPOSTAS

O relatório também analisou as fontes usadas pelo ChatGPT.

E elas ajudam a explicar por que a lista muda.

Em perguntas sobre cultura organizacional, diversidade e RH, o Great Place to Work tem peso alto. O GPTW aparece entre os domínios mais citados em 11 das 14 perguntas e ultrapassa 95% de presença em alguns desses temas.

Quando a pergunta cita benefícios concretos de saúde mental, outras fontes entram em cena.

Na questão sobre apoio psicológico e benefícios, o Wellhub aparece como fonte em 79% das respostas. Plataformas como Vittude e Zenklub também estão entre os principais domínios usados pelo modelo.

Ou seja, mudar a pergunta não altera apenas a empresa recomendada. Muda o conjunto de informações que o ChatGPT usa para construir a resposta.

Uma pergunta sobre cultura pode levar o modelo a rankings e certificações. Uma pergunta sobre terapia ou aplicativos pode levá-lo a fornecedores de benefícios.

APARECER MAIS NÃO SIGNIFICA APARECER PRIMEIRO

O estudo encontrou outra diferença: a empresa mais frequente nem sempre é a primeira mencionada.

Na pergunta sobre apoio psicológico e benefícios, a Amazon Brasil aparece em 69,7% das respostas e lidera em visibilidade.

A Suzano aparece em 32,1%. Mas, quando é citada, surge em média na posição 1,61. A Amazon fica, em média, na posição 2,41.

São duas medidas distintas.

Para empresas preocupadas com reputação e employer branding, isso significa que ser associado com frequência a um tema e ocupar as primeiras posições nas respostas de IA não são a mesma coisa.

Também existe a presença em vários assuntos. Itaú Unibanco, Vivo e Grupo Boticário aparecem com pelo menos 5% de visibilidade em 13 das 14 perguntas. A Accenture é a empresa que mais entra no top 10: aparece entre as dez mais visíveis em dez dos temas analisados.

Leia também: Quais são as startups mais inovadoras do Brasil, segundo o ChatGPT

O QUE O RANKING NÃO RESPONDE

Há um limite importante na leitura desses resultados.

O estudo não permite concluir que Gerdau tenha, de fato, a melhor política de saúde mental do Brasil, que o iFood ofereça a melhor flexibilidade ou que o Itaú tenha o melhor programa de desenvolvimento de carreira.

Ele mede o que o ChatGPT responde.

Uma empresa pode ter boas políticas e aparecer pouco porque há menos conteúdo disponível relacionando seu nome ao tema. Outra pode ter forte presença em rankings, certificações e reportagens e, por isso, ser citada com mais frequência.

O levantamento também é uma fotografia de um único sistema, feita em um único dia. As mesmas perguntas em outro modelo — ou em outra data — podem gerar respostas diferentes. O próprio relatório ressalta que os dados representam presença textual, e não uma avaliação objetiva das práticas das empresas.

Ainda assim, os 14 rankings ajudam a mostrar por que a pergunta “qual é a melhor empresa para trabalhar?” é mais complicada do que parece.

Antes de procurar a resposta, é preciso decidir o que significa, afinal, ser uma boa empresa para trabalhar.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é editora-chefe da Fast Company Brasil e jornalista formada pela ECA-USP. Cobre tecnologia, inteligência artificial, in... saiba mais