Qual é a melhor empresa para trabalhar no Brasil, segundo o ChatGPT? Depende da pergunta
Estudo da Ranqia analisou 12.449 respostas do ChatGPT sobre saúde mental, flexibilidade, cultura, diversidade e carreira nas empresas.

Pergunte ao ChatGPT quais empresas mais investem em saúde mental no Brasil e a Gerdau aparece no topo. Mude a pergunta para flexibilidade e trabalho remoto e a liderança passa para o iFood. Em diversidade e inclusão, é a Accenture. Em desenvolvimento de carreira, o Itaú Unibanco aparece em 100% das respostas.
A mudança ajuda a expor uma dificuldade conhecida de profissionais de RH: o que, afinal, faz uma empresa ser um bom lugar para trabalhar?
Saúde mental conta. Flexibilidade também. Assim como segurança psicológica, cultura, inclusão, equilíbrio entre vida pessoal e trabalho e oportunidades de carreira. O peso de cada fator muda conforme a pergunta — e, no ChatGPT, muda também a lista de empresas recomendadas.
Um levantamento da Ranqia, deeptech brasileira especializada em GEO (otimização para mecanismos generativos), analisou esse comportamento. Em 2 de setembro, a empresa submeteu 14 perguntas sobre trabalho e bem-estar no Brasil ao ChatGPT em 12.449 execuções independentes.
Ao todo, 163 empresas tiveram pelo menos 5% de visibilidade em uma das perguntas. O estudo mediu quantas vezes cada companhia apareceu e em que posição foi mencionada.
O levantamento não mede a qualidade real das políticas de RH nem ouviu funcionários das empresas. Ele mostra quais empregadores o ChatGPT associa a cada tema.
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QUAIS EMPRESAS APARECEM NO TOPO
A resposta varia de acordo com o aspecto do trabalho colocado na pergunta.
Investimento em saúde mental
- Gerdau — 66%
- Grupo Edson Queiroz — 46,7%
- Nestlé Brasil — 44,8%
- Itaú Unibanco — 40,5%
- Solar Coca-Cola — 32,3%
Apoio psicológico e benefícios de saúde mental
- Amazon Brasil — 69,7%
- Grupo Boticário — 55,3%
- SAP — 43,2%
- Thomson Reuters — 40,1%
- Vivo — 34,6%
Equilíbrio entre vida pessoal e trabalho
- Sicredi — 86,6%
- Magazine Luiza — 67,4%
- Vivo — 48,1%
- Serasa Experian — 48,1%
- TOTVS — 41,7%
Flexibilidade de horário e trabalho remoto
- iFood — 96%
- GitLab — 91,8%
- Deel — 91,2%
- Automattic — 90%
- Nubank — 89,9%
Diversidade e inclusão
- Accenture — 92,9%
- Vivo — 87,3%
- Dow — 85,5%
- EY — 74,3%
- Grupo Cataratas — 73,5%
Desenvolvimento de carreira
- Itaú Unibanco — 100%
- Vale — 97,7%
- Accenture — 94,4%
- Banco do Brasil — 91,8%
- Mercado Livre — 90,9%
Prevenção ao burnout
- Accenture — 51,3%
- Sicredi — 48,6%
- Gerdau — 44,8%
- Grupo Positivo — 44,8%
- Cielo — 44,3%
Os percentuais representam a parcela de respostas em que cada empresa foi citada. Não são notas dadas às políticas das companhias. Os resultados completos mostram, por exemplo, iFood com 96% de presença em flexibilidade, Accenture com 92,9% em diversidade e Itaú Unibanco com 100% em desenvolvimento de carreira.
BEM-ESTAR NÃO CABE EM UMA ÚNICA PERGUNTA
Os resultados também mostram como é difícil transformar “bem-estar no trabalho” em uma única medida.
Nas perguntas relacionadas à saúde mental, não há uma empresa que domine todos os recortes. A Gerdau lidera quando o assunto é investimento. A Amazon Brasil assume a primeira posição quando a pergunta cita apoio psicológico e benefícios. Em burnout, a Accenture fica à frente.
O padrão muda nos outros temas. O Sicredi lidera em equilíbrio entre vida pessoal e trabalho. O iFood, em flexibilidade. A Accenture, em diversidade. O Itaú Unibanco, em desenvolvimento de carreira.
Há empresas que atravessam vários desses assuntos. Gerdau, Sicredi e Accenture aparecem entre as três mais citadas em cinco das 14 perguntas. Magazine Luiza aparece no top 3 em quatro.
Mas nenhuma delas lidera tudo.
Isso ajuda a colocar uma questão que vai além do ChatGPT. Para empresas e profissionais de RH, falar em bem-estar no trabalho exige decidir quais dimensões importam e como elas serão medidas. Uma companhia pode oferecer flexibilidade e perder em desenvolvimento de carreira. Pode investir em benefícios de saúde mental e ter pouca associação com equilíbrio entre vida e trabalho.
O próprio conceito muda conforme o critério escolhido.
DE ONDE O CHATGPT TIRA ESSAS RESPOSTAS
O relatório também analisou as fontes usadas pelo ChatGPT.
E elas ajudam a explicar por que a lista muda.
Em perguntas sobre cultura organizacional, diversidade e RH, o Great Place to Work tem peso alto. O GPTW aparece entre os domínios mais citados em 11 das 14 perguntas e ultrapassa 95% de presença em alguns desses temas.
Quando a pergunta cita benefícios concretos de saúde mental, outras fontes entram em cena.
Na questão sobre apoio psicológico e benefícios, o Wellhub aparece como fonte em 79% das respostas. Plataformas como Vittude e Zenklub também estão entre os principais domínios usados pelo modelo.
Ou seja, mudar a pergunta não altera apenas a empresa recomendada. Muda o conjunto de informações que o ChatGPT usa para construir a resposta.
Uma pergunta sobre cultura pode levar o modelo a rankings e certificações. Uma pergunta sobre terapia ou aplicativos pode levá-lo a fornecedores de benefícios.
APARECER MAIS NÃO SIGNIFICA APARECER PRIMEIRO
O estudo encontrou outra diferença: a empresa mais frequente nem sempre é a primeira mencionada.
Na pergunta sobre apoio psicológico e benefícios, a Amazon Brasil aparece em 69,7% das respostas e lidera em visibilidade.
A Suzano aparece em 32,1%. Mas, quando é citada, surge em média na posição 1,61. A Amazon fica, em média, na posição 2,41.
São duas medidas distintas.
Para empresas preocupadas com reputação e employer branding, isso significa que ser associado com frequência a um tema e ocupar as primeiras posições nas respostas de IA não são a mesma coisa.
Também existe a presença em vários assuntos. Itaú Unibanco, Vivo e Grupo Boticário aparecem com pelo menos 5% de visibilidade em 13 das 14 perguntas. A Accenture é a empresa que mais entra no top 10: aparece entre as dez mais visíveis em dez dos temas analisados.
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O QUE O RANKING NÃO RESPONDE
Há um limite importante na leitura desses resultados.
O estudo não permite concluir que Gerdau tenha, de fato, a melhor política de saúde mental do Brasil, que o iFood ofereça a melhor flexibilidade ou que o Itaú tenha o melhor programa de desenvolvimento de carreira.
Ele mede o que o ChatGPT responde.
Uma empresa pode ter boas políticas e aparecer pouco porque há menos conteúdo disponível relacionando seu nome ao tema. Outra pode ter forte presença em rankings, certificações e reportagens e, por isso, ser citada com mais frequência.
O levantamento também é uma fotografia de um único sistema, feita em um único dia. As mesmas perguntas em outro modelo — ou em outra data — podem gerar respostas diferentes. O próprio relatório ressalta que os dados representam presença textual, e não uma avaliação objetiva das práticas das empresas.
Ainda assim, os 14 rankings ajudam a mostrar por que a pergunta “qual é a melhor empresa para trabalhar?” é mais complicada do que parece.
Antes de procurar a resposta, é preciso decidir o que significa, afinal, ser uma boa empresa para trabalhar.
