Na era da IA, preservar o contraditório é uma escolha cultural
Organizações bem-sucedidas são construídas quando as pessoas sabem que podem discordar e, ainda assim, continuar pertencendo

Quase metade dos profissionais brasileiros trabalha em ambientes de insegurança psicológica. O dado é do Censo de Saúde Mental 2025 da Vittude, especializada no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas, que entrevistou mais de 170 mil pessoas.
Na prática, isso se traduz em pequenas situações do cotidiano: alguém deixa de fazer perguntas, ideias nunca são consideradas ou, depois de algumas tentativas, discordar simplesmente não vale mais a pena. Esse talvez seja um dos desafios menos discutidos nas organizações que colocam as pessoas no centro.
Empresas que valorizam escuta, acolhem erros e proporcionam segurança psicológica podem, sem perceber, associar esse cuidado à ausência de conflito. Um ambiente que valoriza pessoas precisa comportar o desconforto da discordância.
Visões diferentes têm que poder coexistir sem que ninguém sinta o pertencimento em risco. O contraditório fortalece as decisões porque amplia perspectivas, questiona certezas e ajuda as organizações a inovar e se adaptar em um contexto de mudança constante.
Como explica a psicóloga Esther Perel, vivemos um momento de "atrofia social", com menos exposição a conversas que desafiam nosso repertório e ampliam nossa forma de enxergar o mundo. A presença cada vez maior da IA torna esse equilíbrio ainda mais delicado, reforçando o que já pensamos e acelerando a chegada a respostas e consensos.
Um estudo da Microsoft em parceria com a Universidade Carnegie Mellon, publicado em 2025, mostrou que, quanto maior a confiança dos profissionais na IA para realizar uma tarefa, menor tende a ser o esforço dedicado ao pensamento crítico.

Por isso, à medida que nossas interações passam a ser mais mediadas por tecnologias desenhadas para apoiar e acelerar o trabalho, mais importante se torna preservar as trocas genuínas entre as pessoas.
É nelas que surgem as perguntas que a IA não faz, os contextos que ela não conhece e os questionamentos capazes de evitar decisões tomadas rápido demais.
Se preservar o contraditório é um desafio cultural, a resposta também precisa ser. Isso significa desenhar processos que reduzam o peso do consenso imediato e incentivem diferentes perspectivas antes das decisões importantes.
Visões diferentes têm que poder coexistir sem que ninguém sinta o pertencimento em risco.
Mas processos, sozinhos, não mudam comportamentos. É nas ações das lideranças que a cultura ganha forma: quando perguntas são mais valorizadas do que respostas prontas, quando opiniões divergentes são tratadas como contribuição, e não como resistência, e quando discordar não coloca em risco a confiança.
Segundo o Gallup, apenas 44% dos gestores receberam treinamento formal para liderar pessoas. O dado reforça que desenvolver boas lideranças continua sendo indispensável.
Mas, para que o contraditório faça parte do cotidiano, ele precisa deixar de depender exclusivamente da sensibilidade ou da habilidade de cada gestor. É a cultura que transforma esse comportamento em prática consistente.
Quanto mais a tecnologia acelera a geração de respostas, maior se torna a responsabilidade das organizações de proteger aquilo que continua sendo essencialmente humano: a capacidade de questionar, discordar e reconsiderar uma decisão.
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Preservar o contraditório é uma escolha cultural. É ela que fortalece as decisões e faz a empresa evoluir. Organizações bem-sucedidas não são construídas quando todos concordam. Elas são construídas quando as pessoas sabem que podem discordar e, ainda assim, continuar pertencendo.