Imperfeita e humana: a animação chinesa que virou fenômeno anti-IA
O sucesso de Niu Lai mostra que, na era do AI slop, o público ainda quer conteúdo feito por humanos — mesmo quando ele é ruim.

Niu Lai tinha tudo para desaparecer dos cinemas. A animação chinesa vendeu menos de 300 ingressos nos primeiros dez dias, foi ridicularizada nas redes sociais e chegou a ser descrita como uma das piores produções do ano.
Foi justamente por isso que virou um fenômeno.
A qualidade rudimentar despertou a curiosidade do público e transformou o filme em uma espécie de protesto involuntário contra a inteligência artificial. Para parte dos espectadores, as imagens são ruins demais para terem sido produzidas por IA — e esse passou a ser um dos seus principais encantos.
Seja pela ironia do “é tão ruim que fica bom” ou pelo desejo de apoiar uma obra feita por pessoas, a popularidade de Niu Lai cresceu rápido.
COMO NIU LAI VIROU UM SUCESSO DE BILHETERIA
A premissa é simples: um bezerro tímido tenta realizar o sonho de crescer ao lado de uma cotovia e de um leopardo.
O filme de 86 minutos foi produzido ao longo de cerca de cinco anos por Xin Yumeng e sua mãe, Sun Lifang. O orçamento teria sido de apenas US$ 200, embora o valor varie entre as reportagens e não tenha sido confirmado de forma independente.
Nos primeiros dez dias em cartaz na China, Niu Lai arrecadou 7,7 mil yuans — cerca de US$ 1.145 — e vendeu menos de 300 ingressos. A trajetória mudou quando cenas do filme começaram a circular nas redes sociais.
Até domingo, 23 de agosto, a bilheteria já havia ultrapassado 45 milhões de yuans, o equivalente a aproximadamente US$ 6,7 milhões, segundo dados da plataforma Lighthouse publicados pelo Global Times.
A quantia ainda é pequena diante das grandes produções de Hollywood. Para um filme criado com equipamentos usados e um orçamento mínimo, representa um retorno extraordinário.
Algumas reportagens chegaram a apresentar Niu Lai como o filme mais lucrativo da história em proporção ao custo de produção. Como o orçamento não foi auditado e aparece com valores diferentes, o suposto recorde deve ser tratado com cautela.
A atenção inicial veio das críticas à animação 3D. Os personagens ficam em uma região desconfortável do chamado “vale da estranheza”, enquanto os cenários — quando existem — fazem Minecraft parecer altamente detalhado.

Usuários começaram a fazer piada com a qualidade do filme. Há relatos de jovens que recomendavam o longa aos amigos como uma espécie de pegadinha. A fama na internet alimentou a curiosidade, que rapidamente se transformou em venda de ingressos.
“Todo mundo sabe que é ruim. É tão ruim que precisamos assistir”, escreveu um usuário no X.
A popularidade também obrigou funcionários dos cinemas a improvisar. Como o filme não tinha uma campanha convencional de divulgação, algumas salas passaram a produzir cartazes à mão.
RUIM, MAS FEITO POR GENTE
A animação rudimentar abriu uma discussão sobre o tipo de conteúdo que as pessoas querem promover nas redes sociais.
Muitos usuários destacaram que, apesar da qualidade terrível, Niu Lai representa um alívio em meio à enxurrada de conteúdo produzido por inteligência artificial.
O fenômeno dialoga com o cansaço provocado pelo chamado AI slop, conteúdo artificial de baixa qualidade que ameaça dominar a internet.
“Só para constar: prefiro minha animação slop, meu CGI ruim e meus filmes de baixo orçamento FEITOS POR HUMANOS”, escreveu um usuário no X.
LEIA TAMBÉM:
- Não é só o slop. Uso de IA está deixando tudo mais parecido
- Botão anti-slop chega ao LinkedIn — e deve ser a próxima onda das redes sociais
No Letterboxd, o filme recebeu uma avalanche de avaliações e alcançou nota 3,5 de cinco estrelas.
“Meus olhos e meus ouvidos foram abençoados. Estou chorando. Este é genuinamente o filme do ano”, comentou um usuário. Outro descreveu a produção como “futuro clássico cult e pioneiro do movimento anti-IA”.
O sucesso de Niu Lai deixa uma pista sobre o que parte do público procura na era do AI slop: sinais de autoria, esforço e imperfeição humana.
“Foi feito por uma mãe e um filho, que animaram e dublaram o filme inteiro sozinhos”, escreveu outro usuário no X. “Sim, a produção é ruim, mas esse é o ponto: no fim das contas, a arte humana vence a IA.”