O risco criativo de deixar a IA fazer todo o trabalho

Estudos revelam que colaboração entre humanos e IA aumenta produtividade, mas pode corroer pensamento original

uso de inteligência artificial em trabalhos que demandam criatividade
Créditos: All Vision/ Getty Images

Natalie Nixon 4 minutos de leitura

Imagine contratar todas as estrelas disponíveis no mercado, pagar salários astronômicos e terminar a temporada em sexto lugar no campeonato. Foi exatamente o que aconteceu com o time do Liverpool F.C. de Sinan Aral, na última temporada – e também, segundo ele, uma metáfora quase perfeita para a forma como a maioria das empresas está implantando IA neste momento.

Aral é professor da Escola de Administração Sloan, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), e um dos principais pesquisadores do mundo em colaboração entre humanos e inteligência artificial.

Nos últimos anos, seu laboratório conduziu experimentos em larga escala no mundo real para entender o que realmente acontece quando humanos e IA trabalham juntos. Os resultados deveriam preocupar qualquer líder empresarial.

“Em cerca de 85% dos estudos que vimos, embora adicionar IA aos humanos melhore o desempenho em relação aos humanos sozinhos, na maior parte do tempo ainda é melhor simplesmente deixar a IA fazer tudo sozinha”, afirma.

Esse dado é o que Aral chama de “bifurcação racional”: se a IA sozinha supera equipes compostas por humanos e IA, a decisão lógica para gestores seria substituir funcionários por automação.

Mas, segundo ele, é exatamente aí que essa lógica falha.

Em um estudo marcante, a equipe de Aral dividiu aleatoriamente cerca de duas mil equipes – algumas formadas por humanos e IA, outras apenas por humanos – para criar anúncios de marketing para uma organização real.

As equipes humano-IA produziram 50% mais anúncios por trabalhador, com textos de qualidade superior. Pelos indicadores convencionais de produtividade, seria uma vitória inequívoca. O problema é que os anúncios também começaram a parecer assustadoramente semelhantes entre si.

substituição de trabalhadores por IA
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“Os textos dos anúncios começam a soar iguais. As imagens também começam a parecer iguais”, conta Aral. Ele chama esse fenômeno de “colapso de diversidade”: a lenta homogeneização dos resultados que ocorre quando a IA, treinada na mesma internet pública disponível para todos, começa a suavizar as diferenças que tornam o trabalho criativo realmente diferenciado.

Quanto mais uma equipe delegava tarefas à IA, mais produtiva ela se tornava, e mais vulnerável ficava a esse colapso. Ganhos de curto prazo mascaravam uma erosão criativa de longo prazo. O colapso da diversidade é, no fundo, um problema de pensamento.

AS HABILIDADES QUE ESTAMOS PERDENDO

O artigo mais recente de Aral, “Armadilha da Ampliação por IA”, revela algo ainda mais inquietante. A terceirização cognitiva para a IA – o ato de transferir tarefas que você seria capaz de realizar sozinho – corrói justamente as habilidades que estão sendo delegadas.

Funcionários que dependem fortemente de IA para escrever perdem fluência na escrita. Profissionais juniores sofrem uma perda de habilidades ainda mais rápida do que os mais experientes, que já possuem uma base profissional sólida o suficiente para preservar parte de suas capacidades.

as organizações vencedoras serão as que se tornarem excelentes na colaboração entre humanos e máquinas.

“No longo prazo, isso deixa o trabalhador em situação pior do que se a IA nunca tivesse sido adotada”, explica Aral. O ganho de produtividade no curto prazo é real. A armadilha de longo prazo também.

A produtividade, como a herdamos da Primeira Revolução Industrial, segue um modelo binário focado em velocidade, eficiência e resultados mensuráveis. Esse modelo ignora o que acontece nos períodos de dormência: a maturação lenta das ideias, a síntese, o cultivo gradual do julgamento crítico que torna possível um pensamento verdadeiramente original.

Para Aral, a solução não é evitar a IA, até porque isso não é uma opção realista. “Esta é, possivelmente, a tecnologia mais disruptiva já desenvolvida na história da humanidade”, reconhece. Enfiar a cabeça na areia não é estratégia. O caminho é ser intencional no desenho da colaboração entre humanos e IA.

As recomendações de Aral são práticas:

  • Medir o nível de habilidade humana independentemente dos resultados produzidos com IA;
  • Criar períodos de prática sem assistência de IA, para que os profissionais executem tarefas regularmente sem apoio automatizado;
  • Ampliar as janelas de avaliação de desempenho, evitando que gestores sejam seduzidos apenas por picos de produtividade de curto prazo;
  • Projetar fluxos de trabalho em que os funcionários revisem, avaliem e reformulem os resultados da IA, em vez de simplesmente aceitá-los.

O julgamento humano precisa continuar no circuito não como formalidade, mas como disciplina. E eu iria além: esse julgamento humano deveria ser incentivado explicitamente nos processos de avaliação.

O IMPERATIVO CONTRAINTUITIVO

No fim das contas, os dados de Aral apontam para algo que todo líder precisa ouvir: as organizações vencedoras na Era da Imaginação não serão as que substituírem mais pessoas por IA, mas sim as que se tornarem realmente excelentes na colaboração entre humanos e máquinas.

E isso é uma habilidade. Exige investimento, desenho organizacional e disposição para resistir à sedução dos ganhos fáceis de produtividade.

Leia mais: Na corrida da IA, criatividade pode valer mais que código

A criatividade sempre exigiu o que eu chamo de “o rigor da ambiguidade”: a coragem de conviver com a incerteza em vez de correr para a resposta mais rápida e sem atrito.

A IA oferece um atalho extremamente sedutor. Os líderes que entenderem que esse atalho também representa um risco – e que conseguirem construir organizações capazes de equilibrar o poder da IA com a textura insubstituível do pensamento humano – são os que vão continuarão competitivos daqui a dez anos.


SOBRE A AUTORA

Natalie Nixon é estrategista criativa, palestrante e presidente da  Figure 8 Thinking. saiba mais