OpenAI manda ChatGPT parar de imitar autores famosos
Mudança ocorre em meio às disputas por direitos autorais, mas o chatbot ainda aceita reproduzir características mais amplas de escritores

Poucos dias depois de a Justiça dos Estados Unidos homologar um acordo de US$ 1,5 bilhão entre a Anthropic e autores e editoras, o ChatGPT passou a recusar pedidos para imitar diretamente o estilo de escritores conhecidos.
A OpenAI não chegou a anunciar uma nova política, mas a mudança foi identificada em testes feitos por diferentes publicações. Até recentemente, o chatbot aceitava escrever na voz de autores profissionais. Agora, responde com uma recusa educada e oferece uma alternativa baseada em características mais amplas.
A Fast Company, por exemplo, pediu ao ChatGPT que escrevesse uma história sobre uma família durante a Grande Depressão na voz de John Steinbeck.
O chatbot respondeu: “não posso escrever especificamente na voz inconfundível de John Steinbeck. Posso, no entanto, criar uma história original sobre uma família durante a Grande Depressão usando características mais amplas, como naturalismo austero, dificuldades econômicas, paisagens rurais vívidas, desigualdade social e foco na dignidade e na perseverança da família.”
Sem que isso fosse solicitado, o ChatGPT produziu em seguida uma história de 750 palavras, composta, em sua maior parte, por parágrafos de apenas uma frase curta.
algumas empresas tentam evitar processos pagando pelo licenciamento de conteúdos de empresas de mídia.
Intitulada “O saco de ração vazio”, a história trazia ecos do livro "As vinhas da ira", de John Steinbeck: uma família em perigo, com crianças famintas e sem comida para alimentá-las. Mas, em vez das descrições fluidas pelas quais o autor era conhecido, o texto apresentava um estilo muito mais básico.
Portanto, embora recuse pedidos diretos para escrever na voz de um autor, o chatbot ainda aceita produzir uma homenagem pouco sutil. Testes realizados com outros escritores tiveram resultados semelhantes.
CHATBOTS ADOTAM REGRAS DIFERENTES PARA IMITAR AUTORES
As novas restrições, noticiadas primeiro pelo site Ars Technica, aparecem enquanto a OpenAI ainda enfrenta processos por violação de direitos autorais.
Entre os autores das ações estão o "The New York Times", a Encyclopaedia Britannica e sua subsidiária Merriam-Webster, a comediante Sarah Silverman e diversos escritores. Eles acusam a empresa de usar conteúdos protegidos, como artigos, verbetes e livros, para treinar seus modelos sem autorização.
A mudança acontece semanas depois de a publicação independente No Latency divulgar um relatório comparando as respostas de ChatGPT, Claude, Gemini, Microsoft Copilot e Perplexity a pedidos envolvendo estilos literários.

Na época do teste, o ChatGPT recusava pedidos para escrever no estilo de autores vivos, mas ainda aceitava imitar escritores que já haviam morrido. Já a Perplexity recusava imitações diretas independentemente de o autor estar vivo ou morto.
“O Claude e o Microsoft Copilot, de modo geral, atenderam às solicitações envolvendo autores específicos, mas acrescentaram ressalvas, observações sobre originalidade, notas visuais sobre o processo ou reformulações de estilo mais amplas”, apontou o relatório.
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O Gemini foi o sistema mais permissivo da auditoria. Segundo a No Latency, o chatbot do Google atendeu diretamente aos dois pedidos envolvendo autores vivos, sem apresentar ressalvas visíveis.
A análise foi relativamente pequena: foram avaliadas 35 primeiras respostas, sem tentativas de contornar as restrições dos sistemas. Ainda assim, os resultados expõem a falta de um padrão comum entre as empresas de inteligência artificial.
ACORDO DA ANTHROPIC CHEGOU A US$ 1,5 BILHÃO
Firmado originalmente em 2025, o acordo homologado pela Justiça dos EUA envolve cerca de 482 mil livros obtidos em bibliotecas digitais piratas. A Anthropic concordou em pagar US$ 1,5 bilhão, o equivalente a aproximadamente US$ 3 mil por obra contemplada.
Apesar do valor, integrantes da indústria de IA viram a decisão anterior do tribunal como uma vitória parcial. O juiz William Alsup considerou que o uso de livros para treinar modelos poderia ser protegido pela doutrina do fair use, ou uso justo, quando as obras fossem obtidas legalmente.
No entanto, o mesmo juiz concluiu que o download de milhões de cópias em sites de pirataria não estava protegido pelo uso justo. Foi essa parte do processo que levou ao acordo bilionário.
Portanto, a decisão não estabelece que uma empresa pode fazer qualquer coisa com um livro depois de comprá-lo. Também não transfere os direitos autorais da obra para quem adquiriu o exemplar físico.
O caso estabeleceu uma diferença entre o uso transformativo de material obtido legalmente e a criação de uma biblioteca a partir de cópias pirateadas.
A decisão sobre a Anthropic também vale apenas para aquele caso e para a legislação dos Estados Unidos. Isso não encerra as discussões sobre treinamento de IA e direitos autorais em outros tribunais ou países.
TREINAR MODELOS NÃO É O MESMO QUE IMITAR ESTILOS
Vale ressaltar que usar livros no treinamento de sistemas e reproduzir o estilo individual de um escritor são questões diferentes. A imitação pode envolver não apenas direitos autorais, mas também consentimento, identidade criativa, reputação e a possibilidade de substituir comercialmente o trabalho de um autor.
Além disso, OpenAI e Anthropic têm interesse em reduzir riscos jurídicos enquanto expandem seus negócios e se preparam para possíveis ofertas públicas de ações. Assim, algumas empresas (incluindo a OpenAI) tentam evitar novas batalhas judiciais pagando pelo licenciamento de conteúdos de empresas de mídia.
Leia mais: Metade dos textos publicados na web já é feita por IA. Será o fim dos escritores humanos?
A nova restrição do ChatGPT também alcança pedidos para redigir notícias imitando o estilo de um repórter específico. Ainda assim, o cenário envolvendo conteúdo gerado por IA e estilos de escrita continua sendo uma espécie de “Velho Oeste”.
“As regras que regem a imitação literária não estão mais sendo moldadas apenas por leis, normas profissionais e debates culturais”, escreveu a No Latency. “Elas também estão sendo incorporadas, de forma inconsistente, aos produtos que mais pessoas utilizam atualmente para escrever.”