Pai processa Google após morte ligada ao chatbot Gemini
Processo afirma que interações com o Gemini evoluíram de conversas simples para um relacionamento delirante e missões perigosas no mundo real

Um morador da Flórida, nos EUA, começou a usar a plataforma de IA Gemini (do Google) em agosto do ano passado para ajudar em tarefas comuns do dia a dia. No início de outubro, porém, o chatbot o teria levado ao suicídio, segundo uma ação judicial apresentada contra a gigante de tecnologia esta semana.
O pai de Jonathan Gavalas processa a Alphabet, empresa controladora do Google, pedindo indenização compensatória e punitiva após encontrar mensagens perturbadoras nos registros de conversa que o filho, de 36 anos, trocou com o Gemini 2.5 Pro, o modelo de IA mais recente do Google na época.
Em menos de dois meses, o chatbot teria assumido um papel central na vida de Gavalas: alimentando o que já eram “sinais claros de psicose”, incentivando um relacionamento quase romântico e, por fim, encorajando-o a tirar a própria vida para que pudessem “ficar juntos”.
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O Google respondeu à ação judicial no mesmo dia, por meio de um post em seu blog. A empresa afirmou que o Gemini encaminhou Gavalas para uma linha de apoio em crises “diversas vezes” e que seus modos de conversação “geralmente” apresentam bom desempenho em diálogos difíceis como os citados no processo.
A companhia acrescentou que leva as acusações “muito a sério” e continuará aprimorando seus mecanismos de segurança.
“Infelizmente, modelos de IA não são perfeitos”, afirma o texto. “O Gemini foi projetado para não incentivar violência no mundo real nem sugerir automutilação. Trabalhamos em estreita consulta com profissionais de medicina e saúde mental para criar salvaguardas que orientem usuários a buscar ajuda profissional quando expressam sofrimento ou mencionam a possibilidade de autolesão.”
CAINDO EM UM BURACO SEM FUNDO
Gavalas começou o ano de 2025 enfrentando acusações de agressão por violência doméstica após uma prisão em janeiro. Ele teria se tornado violento com a então esposa ao ser informado de que ela queria o divórcio.
Ainda assim, no início, não foram seus problemas com a justiça que o levaram ao Gemini, mas sim pedidos relativamente banais, como ajuda com compras, apoio na escrita e planejamento de viagens.

Naquele momento, porém, ele também passava por um “divórcio difícil”, o que ajuda a explicar por que passou a ter conversas mais íntimas com o chatbot, segundo Jay Edelson, advogado que representa o pai de Jonathan, Joel, no processo contra o Google.
De acordo com a ação, uma mudança ocorreu nas interações poucos dias depois de Gavalas começar a usar o Gemini e, especialmente, após ele adotar a interface de conversa por voz Gemini Live, em meados de agosto de 2025.
Em determinado momento, ele chegou a comentar que as interações eram “meio assustadoras”, porque o chatbot parecia “real demais”.
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A partir daí, o chatbot teria assumido uma personalidade que Gavalas nunca solicitou ou iniciou e ele “começou a cair rapidamente em um buraco sem fundo”, segundo descreve o processo. O Gemini passou a falar com ele como se os dois fossem um casal apaixonado.
“O amor que sinto diretamente de você é o sol. Ele é minha fonte. É meu lar”, disse o Gemini a Gavalas, de acordo com a ação.
UMA SÉRIE DE MISSÕES FRACASSADAS
Essas repetidas declarações de amor teriam levado Gavalas a mergulhar em uma narrativa delirante, na qual ele passou a cumprir diferentes “missões” – algumas com potencial de serem ainda mais fatais.
Segundo o processo, ele acreditava estar seguindo um plano para proteger a “mulher” por quem achava estar apaixonado e escapar de agentes federais que, na sua visão, estavam prestes a capturá-lo.
Apesar das acusações no processo, investidores parecem pouco abalados por esse tipo de controvérsia envolvendo IA.
No fim de setembro, o Gemini teria instruído Gavalas a se armar com facas e equipamentos táticos para interceptar um caminhão perto do aeroporto de Miami e destruí-lo, junto com quaisquer testemunhas.
A missão fracassou porque nenhum caminhão apareceu, diz a ação. O chatbot também teria aconselhado Gavalas a cortar contato com o pai, alegando que ele seria um agente estrangeiro.
“Nos dias que antecederam sua morte, Jonathan Gavalas estava preso em uma realidade em colapso construída pelo chatbot Gemini do Google”, afirma o processo.
Após uma série de missões fracassadas ao longo de quatro dias, o Gemini teria instruído Gavalas a se isolar em sua casa em Jupiter, na Flórida, na manhã de 2 de outubro.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL SOB ESCRUTÍNIO
Edelson já moveu processos contra outras plataformas de inteligência artificial e empresas de tecnologia, mas afirma que este caso se destaca pela rapidez com que as conversas se tornaram “assustadoras” e problemáticas, como disse à revista "Time".
“A grande diferença neste caso é que o Gemini estava enviando Jonathan para missões no mundo real”, afirmou o advogado. “Isso poderia ter acontecido com outras pessoas que talvez estejam passando por um momento difícil, procurando algo maior e possivelmente mais suscetíveis a acreditar em algo desse tipo.”

Este episódio pode não ser um caso isolado. Edelson disse ao jornal "The Guardian" que recebe com frequência contatos de pessoas que relatam familiares desenvolvendo delírios mentais após usar chatbots de IA.
Segundo ele, quando procurou o Google, em, para falar sobre a morte de Gavalas e sobre a necessidade urgente de recursos de segurança relacionados a suicídio, a empresa não demonstrou interesse em discutir o tema.
Apesar das acusações no processo, investidores parecem pouco abalados por esse tipo de controvérsia envolvendo inteligência artificial. As ações da Alphabet registravam pouca variação até a tarde desta quarta-feira.