Por que o Sora, da OpenAI, nunca entendeu o que faz uma rede social funcionar

Plataforma da OpenAI oferecia criatividade sem limites, mas ignorou o elemento que sustenta TikTok, Instagram e X: a conexão, ainda que imperfeita, com a vida real

Ilustração de uma nuvem com expressão triste, olhos grandes com brilho e lágrimas escorrendo, sobre um fundo de céu noturno estrelado.
Sora e Adobe Firefly

Rebecca Heilweil 4 minutos de leitura

Ding-dong, Sora morreu! É o que diz a equipe executiva da OpenAI, que agora quer que seus talentosos funcionários se despeçam da plataforma de mídia social de IA generativa — que ficou online por apenas alguns meses — e invistam a maior parte de seus esforços em seu negócio principal: serviços corporativos e programação.

Em outras palavras, a OpenAI está voltando a se concentrar em seu objetivo principal (superar a Anthropic), em vez do que o CEO de aplicações da empresa descreveu como uma "missão secundária" (tentar superar o TikTok). A Disney, que esperava licenciar seus personagens icônicos para uso no Sora, agora está abandonando seu investimento na gigante da IA.

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Na verdade, o Sora provavelmente nunca teria sucesso como um serviço de mídia social. As plataformas de mídia social se ancoram no mundo real. Ninguém realmente acha que o TikTok ou o Facebook sejam "vida real", mas os aplicativos nos fisgam prometendo pelo menos a aparência de realidade. As pessoas encontram notícias no X e seus amigos e familiares reais no Instagram. Os influenciadores do TikTok sugerem que você também pode ter aquela aparência, cozinhar daquele jeito, dançar daquele jeito. Sim, algoritmos e desinformação, e agora, cada vez mais, inteligência artificial generativa, estão poluindo esses ecossistemas online. Mas as plataformas partem do princípio de nos conectar ao mundo real, mesmo que também distorçam nossa percepção dele.

Sora era o oposto disso. O universo criativo forjado pelos usuários do Sora era de construção infinita de mundos, uma rolagem infinita de realidades exageradamente renderizadas. O conteúdo disponível no Sora era, de fato, muito legal, mas era algo mais parecido com o que as pessoas procuram quando jogam The Sims (ou se inscrevem em uma aula de arte), não com uma plataforma de mídia social de sucesso. E, de fato, o aplicativo tinha pouco mais de um milhão de usuários semanais no início deste ano, segundo uma estimativa de terceiros. (Para comparação, como apontou o TechCrunch, cerca de 900 milhões de pessoas usam o ChatGPT toda semana).

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Isso não quer dizer que não houvesse nada de bom no Sora. A plataforma ofereceu às pessoas um caminho sem precedentes para produzir seu próprio conteúdo fantástico, canalizando para os usuários uma liberdade artística que, alguns anos antes, poderia ter sido exclusiva de quem trabalhava em estúdios de animação de Hollywood. Que tal um talk show com Caco, o Sapo, explicando o que significa "moderação de conteúdo"? Ou uma transmissão ao vivo de Moisés abrindo o Mar Vermelho? Ou um astronauta dançando balé na Lua? Todos esses trechos de conteúdo, e muito mais, estão disponíveis no Sora, pelo menos antes que a OpenAI o desative oficialmente.

"O que vocês criaram com o Sora foi importante, e sabemos que esta notícia é decepcionante."

Trecho da nota da empresa sobre o fim do Sora

Para aqueles que realmente gostaram do aplicativo, ou pelo menos o usaram como uma forma de expressão, a OpenAI afirma que planeja divulgar em breve mais informações sobre como salvar seus trabalhos antes que o aplicativo seja desativado definitivamente. "O que vocês criaram com o Sora foi importante, e sabemos que esta notícia é decepcionante", disse a empresa em uma publicação no X na terça-feira (24).

No fim das contas, porém, o Sora satisfez a necessidade criativa dos usuários, não seus desejos de consumo.

TERRA DE NINGUÉM

Havia também muitos outros aspectos desagradáveis ​​no Sora. Por exemplo, a maneira ofensiva como o serviço permitia que os usuários trouxessem celebridades de volta à vida, incluindo — até a empresa recuar e, de certa forma, se desculpar — Martin Luther King Jr. Havia a maneira confusa como o aplicativo abordava o conteúdo político. Não, você não podia usar um nome de usuário associado a uma figura política, como relatou a Fast Company, mas podia gerar imagens de um homem que se parecia muito com Donald Trump. Havia imagens geradas por IA de crianças usando cocaína e maconha, além de outras simulações de violência contra jovens, o que, segundo vários especialistas em segurança infantil, não era nada bom.

Crucialmente, o recurso "Cameo" do aplicativo permitia que os usuários emprestassem seus rostos à IA, permitindo que eles (ou amigos aprovados) inserissem sua imagem em todos os tipos de cenários gerados. Isso, é claro, levantou todos os tipos de preocupações, inclusive em relação a menores e direitos autorais.

Mas também não está claro se esse recurso, que visa conectar nosso eu real ao ambiente de IA generativa da Sora, possibilita o tipo de conteúdo que a maioria das pessoas realmente deseja assistir. Adoraria me imaginar em uma nave espacial, ou interagindo com Albert Einstein, ou governando algum reino antigo. E sim, meus amigos provavelmente gostariam de um, talvez alguns desses vídeos. Ainda assim, tenho consciência de que esse não é o conteúdo que eles desejam. Isso é auto-realização da IA, não arte para um público.

A melhor e principal promessa das redes sociais é que todos operamos em um universo digital compartilhado, apesar das fronteiras e limitações da vida real. Podemos ver o mundo inteiro, este mundo, em um único feed. Isso é o oposto do que Sora criou: nos dividir em uma infinidade de universos imaginários.


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