Quer saber se um texto foi escrito por IA? Aqui está a prova

Pontuação e travessão podem levantar suspeitas. Certas palavras que os “robôs escritores” usam em excesso também são indicativos

Quer saber se um texto foi escrito por IA? Aqui está a prova
Alissa Schilling via Unsplash, smartboy10 via Getty images

Jessica Stillman 4 minutos de leitura

Desde que a inteligência artificial passou a ser usada para gerar textos, muita gente começou a procurar sinais de que algo foi escrito por uma máquina. Às vezes, a pontuação levanta suspeitas, o travessão, por exemplo, costuma ser visto como um indício. Em outros casos, são certas palavras que os “robôs escritores” parecem usar em excesso.

Mas e se o maior sinal de que um texto foi escrito por IA não estiver em uma palavra específica ou em um sinal de pontuação, e sim na própria estrutura da frase?

POR QUE É TÃO DIFÍCIL FAZER A ESCRITA DE IA SOAR HUMANA?

A ideia de que determinados ritmos e construções frasais podem denunciar a autoria de uma IA surgiu para mim durante meu trabalho como especialista em linguagem. Recentemente, um potencial cliente entrou em contato pedindo ajuda para aprimorar alguns textos. Como editora, isso não é incomum. O diferencial, porém, era típico da era da inteligência artificial.

O cliente havia feito uma extensa pesquisa para um projeto profissional e, em seguida, pediu a um grande modelo de linguagem (LLM) que sintetizasse as descobertas.

Depois, revisou o material em busca de erros factuais e removeu tudo o que pudesse indicar claramente que o texto havia sido gerado por IA. Ainda assim, algo soava estranho. A pergunta era: seria possível tornar aquele conteúdo realmente humano?

Não havia travessões suspeitos nem palavras típicas de IA. Mesmo assim, a sensação era de que o texto tinha sido produzido por um robô.

Concordei que, apesar do esforço considerável, o texto ainda parecia artificial. E o problema não era fácil de identificar. Os sinais mais comuns já tinham sido eliminados. Não havia travessões suspeitos nem palavras típicas de IA. Mesmo assim, a sensação era de que o texto tinha sido produzido por um robô. O problema era mais profundo do que simples escolhas lexicais.

OS INDÍCIOS VÃO ALÉM DE PALAVRAS E PONTUAÇÃO

Esse dilema não afeta apenas profissionais de comunicação. Empreendedores, profissionais de marketing e gestores também enfrentam a mesma questão: como usar IA para ganhar produtividade sem parecer impessoal ou desconectado?

O escritor Sam Kriss aborda esse tema em um artigo publicado na The New York Times Magazine. Em vez de focar em métricas simples, como frequência de palavras ou sinais de pontuação, ele analisa padrões mais amplos que tornam a escrita de IA estranhamente mecânica.

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Segundo Kriss, a IA não tem experiência direta com o mundo físico. Por isso, seus textos tendem a ser excessivamente abstratos, cheios de metáforas vagas e generalizações amplas.

Há também o uso exagerado da chamada “regra de três” — listas e sequências estruturadas em trios, que soam artificiais quando repetidas em excesso. Além disso, expressões comuns em um contexto cultural são replicadas em outros onde parecem deslocadas.

A CONSTRUÇÃO QUE ENTREGA O TEXTO

Entre as observações de Kriss, uma chama atenção especial: a estrutura “Não é X. É Y.”

Ele afirma que passou a se irritar com qualquer frase que siga esse padrão, ainda que essa construção apareça em obras consagradas da literatura. O problema não é a estrutura em si, mas a frequência excessiva com que ela surge em textos produzidos por IA.

Ao reler o documento do meu cliente, percebi que essa construção aparecia em quase todos os parágrafos. Era um padrão recorrente, quase automático — e, justamente por isso, revelador.

UM SINAL FÁCIL DE ELIMINAR

Eliminar completamente os traços de IA de um texto pode ser trabalhoso. Às vezes, leva mais tempo revisar profundamente um conteúdo gerado por máquina do que escrevê-lo do zero. Além disso, o próprio processo de escrever estimula o pensamento crítico e criativo.

Em determinados contextos, manter um estilo mais mecânico pode não ser um problema. Em um resumo executivo de dados, por exemplo, o mais importante são a precisão e a clareza das informações.

Mas, quando o objetivo é persuadir, vender uma ideia ou estabelecer conexão com o leitor, o cuidado precisa ser maior. A escolha das palavras importa, mas a estrutura das frases importa ainda mais.

Se você quer que um texto gerado por IA soe humano, é preciso ir além da superfície.

Se você quer que um texto gerado por IA soe humano, é preciso ir além da superfície. Não basta substituir palavras ou corrigir possíveis imprecisões. É fundamental revisar o ritmo, a construção das frases e os padrões repetitivos.

E vale prestar atenção especial a estruturas excessivamente previsíveis. Quando uma fórmula aparece repetidamente, o texto perde naturalidade e começa a soar automático.

Afinal, o que torna a escrita humana não é apenas o vocabulário, mas a variação, a nuance e a imprevisibilidade na forma de organizar as ideias.

Este artigo foi publicado originalmente na Inc. Leia o artigo original.


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