Um podcast sobre os arquivos Epstein virou hit – e é 100% IA

Criado por um especialista em dados, o podcast está publicando episódios em um ritmo que as redações tradicionais não conseguem acompanhar

podcast com os arquivos do caso Epstein
Créditos: epsteinfiles.fm/ Yevhenii/ Adobe Stock (via Fast Company)/ Freepik

Chris Stokel-Walker 4 minutos de leitura

Os arquivos sobre o caso Jeffrey Epstein viraram notícia em vários países e estão no topo das manchetes nos EUA. Mas, no ecossistema de mídia, há outro formato atraindo uma audiência massiva: um podcast comandado por alguém que não é jornalista – e inteiramente gerado por IA.

"The Epstein Files" é um podcast documental investigativo que, até o momento desta publicação, já lançou 97 episódios, com novos capítulos publicados duas vezes por dia, e ultrapassou 700 mil downloads em questão de dias. O desempenho o colocou entre os 10 podcasts mais ouvidos do Apple Podcasts e entre os 30 principais do Spotify.

O criador é Adam Levy, um empreendedor com histórico no desenvolvimento de produtos de dados e criação de conteúdo, mas sem experiência em jornalismo.

Levy lançou o podcast no início de fevereiro, após a divulgação pública do enorme conjunto de documentos relacionados ao falecido financista e criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein.

Depois de 48 horas intensas (trabalhando entre 14 e 16 horas por dia), ele construiu um pipeline automatizado capaz de ingerir os arquivos brutos, extrair textos de e-mails e imagens, cruzar fontes e gerar roteiros de episódios narrados integralmente por vozes criadas por IA.

“As pessoas querem algo direto, sem enrolação”, diz Levy. “Tire a emoção, tire o excesso, tire tudo – só me diga o que é e, quando me contar, me ajude a entender os fatos”, afirma.

o fato de um produto tão dependente de IA conquistar uma audiência tão grande é significativo.

A arquitetura do projeto combina múltiplos grandes modelos de linguagem, do Claude, da Anthropic, às ferramentas do Google e da OpenAI. Com isso, consegue conectar nomes, lugares, temas e linhas do tempo ao longo dos 3,5 milhões de arquivos divulgados. As conexões só entram no podcast quando atingem um determinado nível de confiança quanto à veracidade.

Levy também complementa o material bruto com conteúdos do Internet Archive e do Google Pinpoint (ferramenta usada por outros investigadores para indexar partes dos arquivos), além de projetos colaborativos como o Jmail, que transforma os e-mails dos arquivos do caso Epstein em uma caixa de entrada navegável.

Segundo Levy, usar e citar essas fontes foi essencial para mitigar o medo de “alucinações” da IA. “Todo mundo é bastante cético em relação à IA”, afirma. “Era fundamental referenciar todas as fontes utilizadas para construir o episódio.”

USO DE IA NO JORNALISMO

Para Emily Bell, diretora fundadora do Tow Center for Digital Journalism da Universidade Columbia, a popularidade inicial do podcast tem explicação.

“Como o Clawdbot ou muitos experimentos atuais de simulação com IA, ele desperta curiosidade, mas logo se torna cansativo”, diz. “Achei o primeiro episódio bastante audível, mas também claramente gerado por IA para quem já alimentou dados ou roteiros no NotebookLM.”

À medida que ouviu mais episódios, porém, Bell conta que ficou mais difícil manter o interesse. “É uma auditoria útil dos dados, mas não é algo que eu assinaria para ouvir regularmente, a menos que estivesse trabalhando diretamente com os arquivos”, afirma. “Nesse contexto, é bastante útil e um uso interessante das ferramentas.”

capa do podcast "The Epstein Files"
Crédito: Reprodução

Ferramentas essas que Levy conhece bem. “Consegui executar melhor do que qualquer outro veículo que tentou documentar os episódios”, diz. “Eles simplesmente não conseguem produzir na mesma velocidade.”

Isso traz vantagens adicionais, como aproveitar os algoritmos dos aplicativos de podcast. “Isso também ajuda na descoberta. E, para quem gosta de mergulhar em buracos sem fundo, demos um bem profundo para explorar.”

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Independentemente da avaliação sobre a qualidade final do podcast, o fato de um produto tão dependente de IA conquistar uma audiência tão grande é significativo. Suas implicações para jornalistas, especialmente os que cobrem histórias complexas e baseadas em grandes volumes de documentos, são difíceis de ignorar.

“Eu poderia facilmente entrar na linha de pensamento de que essas ferramentas vão me substituir, que estou perdido”, diz Levy. “Ou posso descobrir como abraçá-las e encontrar um novo espaço para mim. Talvez eu não seja mais a voz. Talvez eu me torne o curador.”

VELOCIDADE x QUALIDADE

Nem todos acreditam que velocidade e volume de fontes sejam substitutos suficientes para julgamento editorial. “Só porque algo como [o podcast] "The Epstein Files" pode ser produzido não significa que isso funcione para a maioria das audiências”, afirma Nic Newman, jornalista e estrategista digital que contribui com pesquisas no Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, da Universidade de Oxford.

Ele participou de pesquisas recentes que sugerem que editoras devem ampliar a produção de conteúdo em áudio como forma de defesa contra a IA. “A ideia é que a IA ainda enfrenta dificuldades com empatia e conexão humana, em comparação com apresentadores reais, e que é mais difícil resumir conteúdos em áudio de forma autêntica e íntima”, explica.

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Como mostra a experiência de Bell, o que começa como novidade nem sempre se traduz em audiência fiel. “Se eu não soubesse uma quantidade considerável de informações sobre os arquivos, sobre as investigações e sobre o contexto, teria achado muitos episódios difíceis de acompanhar. E chatos.”

Ainda assim, o público parece continuar e avaliar positivamente: o podcast tem atualmente nota 4,4 no Apple Podcasts.


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais