Uma escola colocou um robô para ajudar alunos. Nem todo mundo gostou da ideia

A Altus Schools afirma que os robôs ajudarão os alunos a aprender. Os críticos questionam por que um experimento de ensino com IA precisava ter aparência humana.

Créditos: Engineered Arts/ Shelby Murphy/ Unsplash

Chris Morris 3 minutos de leitura

O mais novo “professor” da Altus Schools mede cerca de 1,88 metro, tem olhos azuis brilhantes e é careca. Mas há um detalhe: ele é um robô.

Chamado Ameca, o robô é apresentado pela escola como o “robô humanoide movido por IA mais avançado do mundo”. A compra de dois exemplares por meio milhão de dólares chamou a atenção e levantou questionamentos entre pais e membros da comunidade.

A escola espera que os robôs, equipados com tecnologia baseada no ChatGPT, comecem a operar presencialmente no próximo semestre. Em um e-mail enviado às famílias, a diretora Cathryn Rambo afirmou estar “entusiasmada por liderar a primeira escola do mundo a pesquisar o uso da IA física como parceira de ensino”, segundo informações do veículo Voice of San Diego, que teve acesso ao e-mail.

As escolas da rede Altus são voltadas principalmente para estudantes que ficaram para trás academicamente. Elas oferecem a oportunidade de acelerar os estudos e recuperar o conteúdo perdido. Em especial, a unidade de San Diego tem sido reconhecida pelos altos índices de sucesso obtidos por seus alunos.

Normalmente, os estudantes trabalham de forma independente, mas podem recorrer a centros de apoio onde recebem orientação individualizada. É justamente nesse contexto que os robôs entrarão em cena.

O Ameca pode assumir quatro personalidades diferentes. Três delas parecem bastante adequadas ao ambiente escolar: Sage, a Professora; Ari, o Orientador de Faculdade e Carreira; e Lexi, a Tradutora. A quarta personalidade, porém, chamada Remi, a Coach de Bem-Estar, tem gerado preocupação.

Alunos com dificuldades acadêmicas muitas vezes vêm de contextos mais vulneráveis, enfrentando níveis elevados de estresse, ansiedade e problemas de autoestima. Alguns também podem ter dificuldades de socialização. Isso pode torná-los mais suscetíveis a desenvolver relações pouco saudáveis ou até prejudiciais com sistemas de inteligência artificial.

Um estudo realizado em 2025 pela Common Sense Media em parceria com a Universidade Stanford concluiu que plataformas de IA voltadas para companhia emocional apresentam “riscos muito sérios” para adolescentes, ao simularem relacionamentos reais e criarem vínculos emocionais artificiais. Segundo o estudo, isso pode agravar problemas de saúde mental e reduzir o interesse por amizades e interações no mundo real.

“O conteúdo prejudicial continua sendo comum, mesmo com mecanismos de proteção”, afirma o relatório. “Nossos testes mostraram que muitas plataformas ainda permitem conversas inadequadas, conselhos inseguros e reforço emocional prejudicial até mesmo em modos voltados para adolescentes.”

Rambo afirmou ao "Voice of San Diego" que o Ameca não substituirá os serviços tradicionais de apoio psicológico. Segundo ela, a personalidade Remi servirá apenas para oferecer incentivo em situações como ansiedade antes de provas ou outros desafios semelhantes.

“Se um aluno estiver abalado por causa de uma discussão com os pais, jamais vamos colocá-lo diante de um robô”, Rambo afirmou.

Além disso, as crianças não ficarão sozinhas com as máquinas. Para proteger a privacidade dos estudantes, a memória dos robôs será apagada após cada interação e nenhuma informação será armazenada.

Os robôs também foram programados para evitar determinados assuntos. Por exemplo, eles podem falar sobre a presidência de Bill Clinton, mas, se forem questionados sobre o escândalo sexual que marcou seu governo em 1998, responderão de forma menos detalhada. Também conseguem imitar algumas pessoas, embora figuras consideradas controversas estejam fora dos limites permitidos.

Apesar dessas restrições, a inteligência artificial não é perfeita. Embora os modelos mais recentes sejam menos propensos a inventar informações e consigam manter o foco melhor do que versões anteriores, ainda podem ser induzidos a ultrapassar certos limites definidos pelos programadores.

Além das preocupações envolvendo o uso de robôs com IA em uma escola voltada para alunos com dificuldades acadêmicas, existem outras questões importantes. Se a escola realmente está pesquisando o uso da IA como parceira de ensino, como afirmou Rambo no e-mail, com quem exatamente ela está conduzindo esse estudo? E será que era necessário gastar US$ 500 mil em uma época em que tantas escolas enfrentam problemas de financiamento?

Também existe a dúvida sobre a necessidade de utilizar um robô humanoide. Se o verdadeiro objetivo é usar a inteligência artificial como ferramenta educacional, uma assinatura do ChatGPT ou até mesmo uma versão personalizada com filtros para conteúdos inadequados, custaria uma fração desse valor.

São perguntas que provavelmente estarão na pauta das próximas reuniões entre pais e professores.


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é jornalista, escritor, editor e apresentador especializado em tecnologia, games e eletrônicos. saiba mais