“Você usou IA?” é a pergunta errada. Pergunte: “Para quê?”

Constranger quem usa inteligência artificial não resolve o problema. Bons líderes adaptam as regras à finalidade de cada tarefa

Profissional analisa um documento durante uma conversa de trabalho
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Faisal Hoque 8 minutos de leitura
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No fim de julho, um romance policial de estreia se tornou a vítima mais cara até agora da guerra do mercado editorial contra a inteligência artificial. Quatorze editoras haviam disputado o manuscrito, que rendeu ao autor um contrato de US$ 2 milhões. Quando começaram a circular rumores de que o livro teria sido escrito com ajuda de IA, seus próprios agentes retiraram a obra do mercado.

O autor nega ter usado inteligência artificial e lembra que o manuscrito passou por editores e equipes de aquisição de diferentes empresas. O que eles leram foi interessante o suficiente para justificar ofertas milionárias. As palavras continuaram as mesmas, mas as dúvidas sobre sua origem foram suficientes para encerrar o negócio — e, possivelmente, comprometer a carreira do escritor.

Foi pelo menos o terceiro grande escândalo desse tipo no ano. A intensidade da reação é compreensível. Parte do que um leitor procura ao comprar um romance é o ser humano por trás dele. A experiência de entrar em contato com uma obra de arte costuma envolver um encontro entre duas mentes. Por isso, descobrir que a IA participou da produção pode provocar uma sensação de traição.

O problema começa quando essa preocupação legítima alimenta uma suspeita muito mais ampla: a de que qualquer participação da IA em um trabalho antes realizado por pessoas representa uma forma de trapaça.

O resultado é um momento cultural estranho. Ao mesmo tempo que somos pressionados a aprender a usar a tecnologia, muita gente teme ser flagrada utilizando-a.

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Quando a Anthropic anunciou que o Claude passaria a inserir uma marca invisível nos textos processados pelo sistema, a reação expôs essa divisão. Algumas pessoas comemoraram, sob o argumento de que apenas quem pretende mentir teria motivos para rejeitar o recurso. Outras cancelaram suas assinaturas, temendo que qualquer texto revisado pela IA pudesse receber uma espécie de letra escarlate moderna.

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Os funcionários ficam presos em um impasse. Podem evitar ferramentas valiosas de produtividade e ser criticados por chefes e colegas favoráveis à IA. Ou podem utilizá-las e correr o risco de sofrer rejeição por isso.

As lideranças precisam atravessar esse cenário com cuidado. O primeiro passo é abandonar a pergunta “Você usou IA?”. A questão mais importante é outra: “Para que você usou IA?”.

POR QUE IMPORTA SABER QUEM PRODUZIU O TRABALHO?

Em um contexto profissional, existem três coisas diferentes que uma empresa pode querer saber sobre determinado trabalho:

  1. O resultado é bom?
  2. O que esse resultado revela sobre a capacidade de quem o produziu?
  3. O que o processo de produção fez pelas capacidades dessa pessoa?

Historicamente, respondíamos às três perguntas observando o mesmo trabalho. Se um analista em início de carreira produzisse um relatório excelente, concluiríamos que o material era bom, que o profissional era competente e que realizar aquela tarefa o ajudava a desenvolver habilidades essenciais.

A inteligência artificial generativa rompe essa conexão. Um relatório pode ser excelente mesmo que o analista tenha feito pouco além de escrever comandos para um grande modelo de linguagem. Nesse caso, produzir um bom relatório não ajuda necessariamente a pessoa a se tornar uma analista melhor. No máximo, aprimora sua capacidade de orientar modelos de IA.

Diante dessa ruptura, é um erro usar a origem do conteúdo como resposta para as três perguntas. As lideranças precisam adotar uma abordagem mais cuidadosa, na qual a finalidade do trabalho determine como a inteligência artificial pode participar do processo.

PRODUÇÃO: AVALIE O TRABALHO

Quando a finalidade é puramente produtiva, a pergunta é simples: o trabalho é bom?

Independentemente do contexto, líderes devem definir os critérios que caracterizam um bom resultado e avaliar a entrega de acordo com esses padrões.

Nesse caso, o método de produção é secundário. O funcionário pode ter usado o Claude ou recorrido à antiga arte da adivinhação. O que importa é saber se o trabalho atende ao padrão exigido.

Essa indiferença ao método funciona nos dois sentidos. Se o uso da ferramenta não deve gerar punição, também não serve como proteção contra a responsabilidade. Depois que uma pessoa revisa e entrega um trabalho, o resultado passa a ser dela.

“A IA fez isso” não justifica um erro. Da mesma forma, “eu fiz tudo sozinho” não transforma uma entrega medíocre em um bom trabalho.

A regra para tarefas de produção é direta: avalie o resultado e responsabilize quem o entregou.

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AVALIAÇÃO: TESTE A PESSOA

Em algumas situações, a qualidade do trabalho apresentado não é o único elemento importante. Também interessa saber o que aquela entrega revela sobre as capacidades da pessoa que a produziu. Entrevistas de emprego e processos de promoção são exemplos claros.

Nesses casos, a origem do conteúdo se torna mais relevante. Para que uma entrega funcione como evidência de competência, precisa existir uma ligação significativa entre a pessoa e o resultado.

Mesmo assim, perguntar apenas se houve uso de IA oferece pouca informação. É mais útil pedir que a pessoa explique o trabalho: por que escolheu aquela estrutura? Por que considerou determinada evidência importante? Quais são os pontos fracos do argumento?

Esse cuidado é ainda mais necessário diante das limitações atuais dos detectores de IA. A própria Anthropic afirma que sua marca d’água consegue indicar apenas que o Claude provavelmente participou do conteúdo em algum momento.

O mecanismo não revela a extensão nem a natureza dessa participação. E é justamente isso que precisa ser compreendido quando uma entrega é usada para avaliar as competências de alguém.

Em certos casos, pode ser necessário saber se uma pessoa consegue realizar uma tarefa sem assistência. Quando essa capacidade for relevante, deve ser testada diretamente. Não faz sentido transformar toda entrega cotidiana em um teste de pureza.

DESENVOLVIMENTO: PROTEJA O APRENDIZADO

Aprender fazendo sempre foi uma parte importante do desenvolvimento profissional. Muitas empresas aceitam perder eficiência no curto prazo para formar pessoas.

Mesmo que isso aumente o custo de uma tarefa, profissionais em início de carreira recebem determinadas responsabilidades porque realizá-las ajuda a desenvolver o conhecimento necessário para assumir trabalhos mais complexos no futuro.

Se o funcionário simplesmente transfere a atividade inteira para a IA, porém, o trabalho perde essa função.

Em um estudo randomizado com desenvolvedores que aprendiam a usar uma biblioteca desconhecida de Python, os participantes que receberam assistência de IA tiveram desempenho 17% inferior em um teste posterior de compreensão conceitual, leitura de código e depuração.

A empresa pode conseguir uma entrega melhor hoje, mas enfraquecer a formação das pessoas capazes de compreender e utilizar esse trabalho amanhã.

O estudo também descobriu que os participantes que permaneceram cognitivamente envolvidos — fazendo perguntas conceituais ou solicitando explicações sobre o código gerado — preservaram uma parcela maior do aprendizado.

Portanto, não basta concluir que usar IA prejudica o desenvolvimento. O efeito depende de como a tecnologia foi utilizada.

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As lideranças precisam ser intencionais ao desenvolver pessoas por meio do trabalho e da IA. A única constante é que atividades de aprendizagem devem conter algum nível de fricção deliberada, porque aprender exige esforço.

Além disso, não existe uma única regra correta. Em alguns casos, o funcionário poderá usar IA livremente. Em outros, a ferramenta poderá explicar, mas não solucionar. Também haverá situações em que a primeira tentativa deverá ser feita sem assistência.

A restrição adequada depende da capacidade que a empresa pretende desenvolver.

4 MEDIDAS PARA NÃO TRANSFORMAR A IA EM UM TESTE DE PUREZA

Líderes podem adotar quatro medidas para criar uma política de IA que ajude tanto a organização quanto seus funcionários:

  1. Classifique o trabalho. Antes de definir uma regra para o uso de IA, identifique se a finalidade principal da tarefa é produção, avaliação ou desenvolvimento. Muitos cargos envolvem as três dimensões, mas cada atividade costuma se inclinar mais para uma delas.
  2. Adapte a regra à finalidade. Trabalhos de produção devem priorizar qualidade e responsabilidade. Avaliações precisam revelar a capacidade examinada. Atividades de desenvolvimento devem preservar prática humana suficiente para construir as competências necessárias no futuro.
  3. Peça que as pessoas defendam trabalhos importantes. Faça isso como parte da rotina, não como um interrogatório sobre IA. Quando funcionários explicam seu raciocínio regularmente, gestores conseguem observar seu julgamento sem transformar a origem do conteúdo em veredito.
  4. Trate a detecção como evidência, não como julgamento. Uma marca d’água pode indicar que um sistema de IA teve contato com o trabalho. Ela não mostra se a entrega é boa, se o funcionário a compreende ou se o uso da tecnologia ajudou ou prejudicou seu desenvolvimento.

CONCENTRE-SE NO QUE IMPORTA

Uma empresa depende de qualidade, capacidade e aprendizado. A origem de uma entrega é um indicador fraco para avaliar essas três dimensões.

Pergunte para que a inteligência artificial foi usada e julgue o trabalho de acordo com essa finalidade. Deixe as discussões sobre autenticidade para os artistas e seu público.


SOBRE O AUTOR

Faisal Hoque é fundador da Shadoka, que desenvolve aceleradores e soluções tecnológicas para o crescimento sustentável. saiba mais