ZuckOff identifica óculos inteligentes antes que você perceba
Aplicativo usa sinais de Bluetooth para detectar Ray-Ban Meta, Oakley Meta e Snap Spectacles nas proximidades, mas não consegue saber se alguém está gravando.

Você já teve a sensação de que alguém estava te gravando, mas não tinha como provar? Com uma câmera no celular, normalmente é fácil identificar quando alguém está registrando uma imagem. Mas e quando a câmera está escondida em um par de óculos?
É esse tipo de situação que o ZuckOff tenta tornar um pouco menos invisível. O aplicativo gratuito usa sinais de Bluetooth para identificar a presença de determinados modelos de óculos inteligentes nas proximidades, incluindo Ray-Ban Meta, Oakley Meta e Snap Spectacles.
A ferramenta não consegue dizer se os óculos estão gravando, nem quem está usando o dispositivo. Mas pode indicar que existe um aparelho capaz de registrar imagens por perto, uma informação que, até pouco tempo atrás, era praticamente impossível de obter sem perceber a câmera por conta própria.
COMO O ZUCKOFF FUNCIONA
Desenvolvido pelo programador polonês Pawel Szydlowski, de 30 anos, o ZuckOff funciona a partir de uma espécie de impressão digital dos sinais Bluetooth emitidos pelos óculos inteligentes.
Szydlowski coletou sinais de diferentes modelos e criou uma base capaz de identificar determinados dispositivos. Quando o celular encontra uma assinatura correspondente durante a varredura, o aplicativo indica que há um par de óculos compatível nas proximidades.
O sistema também usa a intensidade do sinal para estimar a proximidade do dispositivo. A própria ferramenta classifica as detecções por níveis de confiança, em vez de tratá-las como uma confirmação absoluta.
O ZuckOff foi lançado em agosto e, segundo a WIRED, já havia ultrapassado 5 mil downloads na App Store e chegado a cerca de mil downloads no Google Play quando a publicação reportou o aplicativo em 15 de setembro. A versão básica é gratuita. O aplicativo também oferece recursos pagos, incluindo monitoramento em segundo plano, histórico das detecções e exportação dos registros.
O APLICATIVO SABE SE ALGUÉM ESTÁ GRAVANDO?
O ZuckOff consegue identificar a presença de um dispositivo compatível, mas não consegue determinar se sua câmera está sendo utilizada naquele momento. Também não informa quem está usando os óculos nem para onde eles estão apontados.
Na prática, uma notificação do aplicativo significa apenas que um dispositivo capaz de registrar imagens está próximo. A pessoa pode estar ouvindo música, conversando com o assistente de inteligência artificial, tirando uma foto ou simplesmente usando os óculos sem registrar nada.
O próprio desenvolvedor alerta que uma detecção não prova que alguém está gravando, assim como a ausência de uma detecção não prova que não há ninguém gravando. Isso é importante porque transforma o ZuckOff em uma ferramenta de alerta, não em um detector de gravações.
O PROBLEMA DA CÂMERA QUE PARECE UM ACESSÓRIO
Os óculos inteligentes da Meta foram desenvolvidos para se parecer com óculos convencionais. Ao mesmo tempo, incorporam câmeras, microfones e inteligência artificial em um objeto que pode ser utilizado durante atividades cotidianas.
A Meta afirma que seus óculos possuem mecanismos próprios para informar quando uma imagem ou vídeo está sendo capturado. Na parte frontal, há um LED branco que pisca durante a captura. Segundo a empresa, a luz não pode ser simplesmente desativada: nos modelos de segunda geração em diante, a câmera é desabilitada quando o sistema identifica que o LED foi bloqueado. Em julho, a Meta também anunciou mecanismos para detectar quando o componente foi fisicamente alterado ou destruído.
O problema é que o sistema depende de quem está ao redor perceber o indicador luminoso. E uma pequena luz em um par de óculos pode ser menos óbvia do que uma pessoa segurando um celular apontado para outra.
Ler Mais: https://fastcompanybrasil.com/tech/por-que-os-oculos-de-ia-da-meta-estao-cercados-de-polemicas/
POR QUE ISSO IMPORTA AGORA?
A discussão sobre privacidade acompanha a expansão dos óculos inteligentes. A categoria deixou de ser apenas um experimento de tecnologia vestível e passou a incorporar câmeras, assistentes de IA, tradução, navegação e outras funções que podem ser utilizadas durante o dia inteiro.
A Meta afirma ter vendido milhões de unidades de seus óculos com IA e diz que as vendas mais que triplicaram de um ano para o outro. A empresa também apresentou em junho uma nova linha de Meta Glasses, desenvolvida em parceria com a EssilorLuxottica, com recursos de IA, captura de fotos e vídeos e mais de oito horas de bateria.
Segundo a WIRED, cerca de 7 milhões de óculos inteligentes da Meta foram vendidos em 2025. Ao mesmo tempo em que a categoria cresce, aumentam as discussões sobre o que acontece quando uma câmera passa a fazer parte de um objeto cotidiano que não precisa ser apontado para registrar uma cena.
A própria Meta publicou, em julho, uma explicação sobre os mecanismos de privacidade dos dispositivos. A empresa afirma que, conforme os óculos se tornam mais capazes e comuns, precisa desenvolver formas de torná-los mais seguros e confiáveis.
Ao mesmo tempo, reportagens recentes levantaram casos de uso dos óculos para registrar pessoas sem consentimento. A WIRED relatou, por exemplo, casos de pessoas sendo filmadas sem saber, enquanto outros espaços começaram a restringir ou proibir o uso de óculos com câmeras.
O debate, portanto, não é apenas sobre o que o usuário dos óculos pode fazer. É também sobre o que as pessoas ao redor conseguem saber quando estão diante de uma tecnologia capaz de registrar o ambiente.