5 ideias de futuro das quais precisamos nos desapegar
Robôs domésticos, carros voadores, cidades distópicas e mundos em colapso. Algumas das imagens que usamos para imaginar o amanhã já estão velhas.

Quando pensamos no futuro, recorremos a um repertório conhecido: carros voadores, robôs humanoides, megacidades cobertas de neon, cenários de apocalipse.
Nos estudos de futuro, parte disso tem um nome: “used futures”, ou futuros usados. O conceito, criado pelo futurista Sohail Inayatullah, descreve ideias sobre o amanhã herdadas de outros tempos e que seguimos reproduzindo.
Para Luciana Bazanella, futurista, cofundadora da White Rabbit e coautora do Reimaginação Radical, imaginar outros futuros começa por reconhecer essas referências. “A gente está compilando ideias do passado, reciclando para o futuro, quando a gente tem que imaginar novos futuros”, diz.
Ela chama esse movimento de desapego. “A gente precisa se livrar primeiro desse entulho de imagem de futuro. Precisa primeiro fazer a limpeza.” Luciana é cofundora e diretora de curadoria estratégica do Brasil Futures Forum, que acontece neste fim de semana no Rio de Janeiro e reúne conversas sobre como imaginar e construir futuros a partir de outras referências — ancestrais, regenerativas, tecnológicas e culturais.
A partir dessa provocação, reunimos cinco ideias de futuro que bem poderiam ser desapegadas para a gente imaginar novos espaços no lugar.
1. O FUTURO SERÁ UMA COLEÇÃO DE GADGETS

Referência: Os Jetsons
Robôs cuidando da casa, comida pronta em segundos, carros voadores. A série Os Jetsons ajudou a popularizar uma ideia de futuro movida por tecnologias que tornam a vida individual mais fácil.
Do que desapegar: da ideia de que um futuro melhor depende principalmente de novos objetos. Habitação, mobilidade, alimentação, energia e cuidado exigem mudanças de sistema.
2. O FUTURO AINDA TEM A CARA DOS ANOS 1980

Referência: De Volta para o Futuro II
Em 1989, De Volta para o Futuro II imaginava 2015 com hoverboards, tênis que se amarravam sozinhos e carros voadores. 2015 passou. O repertório ficou, a ponto de muitas empresas de tecnologia ainda estarem atrás de recriar exatamente as mesmas linhas.
“A nossa imagem de futuro ainda está lá naquela estética e nas ideias de De Volta para o Futuro”, diz Luciana. “Em 2026, o nosso futuro de 2050 a gente acha que vai ser como De Volta para o Futuro.”
Do que desapegar: de continuar usando uma visão criada nos anos 1980 para representar 2050.
3. A DISTOPIA AINDA ESTÁ À NOSSA FRENTE

Referência: 1984
Vigilância, controle da informação, perda de privacidade. Desde que George Orwell publicou 1984, em 1949, essas imagens passaram a representar um futuro autoritário.
“A gente ainda está achando que o nosso futuro vai ser aquela distopia, quando aquela distopia já é o nosso presente, amiga”, diz Luciana.
Ela cita a perda de privacidade, a sobrecarga provocada pela tecnologia e formas de controle que já fazem parte da rotina.
Do que desapegar: de tratar como ameaça futura problemas que já estão no presente.
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4. A CIDADE DO FUTURO SERÁ ESCURA E POLUÍDA

Referência: Blade Runner
Chuva, poluição, neon, arranha-céus e grandes corporações. A estética de Blade Runner virou um dos principais atalhos visuais para representar uma metrópole futurista. O filme feito em 1982 representa um futuro escuro e nada otimista.
Assim como 1984, o filme foi criado como uma crítica à sociedade da época. No entanto, ele entra no imaginário como um cenário que ainda pode acontecer.
Do que desapegar: da ideia de que uma cidade mais tecnológica não pode ser um espaço humano, verde e habitável. E de que a humanidade deverá disputar espaço com a tecnologia.
5. O APOCALIPSE CLIMÁTICO É O ÚNICO FINAL

Referência: Mad Max
Escassez, terra devastada, instituições em ruínas e pessoas disputando os recursos que restaram. O colapso virou uma das imagens mais recorrentes do futuro.
Luciana aponta o risco de aceitar esse roteiro como destino e deixar de imaginar um futuro para além da distopia.
“A gente quer fazer produtos para isso, em vez de realmente reimaginar radicalmente nossa economia, nossa forma de produção de riqueza, o que é riqueza”, diz. "Se você fica alternando entre desespero e esperança, então reimaginar o futuro é quase uma condição de sanidade mental", diz Lucina.
Do que desapegar: da ideia de que só nos resta aprender a sobreviver ao colapso.