A comida do seu cachorro pode poluir mais do que a sua

Dependendo do tipo de ração, a dieta do seu pet pode gerar um impacto ambiental maior do que a sua própria

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Créditos: kenko/ Andrea Obzerova/ Getty Images

Kristin Toussaint 4 minutos de leitura

Tutores de cães hoje têm uma infinidade de opções na hora de escolher a ração do pet. Seca ou úmida? Carne bovina ou frango? Congelada, fresca ou crua? As marcas ainda destacam ingredientes “grau humano” e receitas sem grãos.

Se você vai comprar ração para o cachorro, sua decisão pode estar focada nos nutrientes ou no preço. Mas um veterinário que virou pesquisador ambiental quer que você leve em conta também o impacto climático.

E esse impacto pode ser enorme: dependendo do tipo de ração, a dieta do seu pet pode gerar um impacto ambiental maior do que a sua própria. Especialistas em clima concordam que consumir menos carne e mais alimentos de origem vegetal é melhor para o meio ambiente.

Globalmente, a produção de alimentos é responsável por mais de um quarto de todas as emissões de gases de efeito estufa e tem impactos na biodiversidade, no desmatamento e no uso da água.

O que damos para os nossos pets também importa, diz John Harvey, cirurgião veterinário que atua na área de sustentabilidade ambiental na Universidade de Edimburgo.

Em seu estudo mais recente, publicado no "Journal of Cleaner Production", Harvey e outros pesquisadores calcularam a pegada de carbono de quase mil tipos de ração para cachorros disponíveis comercialmente no Reino Unido. A amostra incluiu alimentos secos, úmidos e crus, além de opções sem grãos e até à base de plantas.

Harvey e sua equipe descobriram que, no Reino Unido, a produção de ingredientes de ração para cachorros responde por cerca de 1% de todas as emissões de gases de efeito estufa do país. Embora 1% possa parecer pouco, “faz diferença”, diz Harvey. “É muito.”

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Crédito: Freepik

Quando esse impacto é ampliado, o quadro fica mais claro: se todos os cães do mundo fossem alimentados como no Reino Unido, as emissões geradas para produzir essa ração seriam equivalentes a mais da metade de todas as emissões globais de combustível de aviação comercial.

Com faturamento estimado em R$ 78 bilhões em 2025, o Brasil é o terceiro maior mercado pet do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet). Desse total, mais da metade (55%) corresponde a alimentação industrializada (pet food).

QUAL A RAÇÃO MAIS AMIGA DO MEIO AMBIENTE?

A “pegada ambiental" do seu cachorro depende do que exatamente entra na composição da ração. Conforme os ingredientes, esse impacto pode mudar drasticamente: entre os quase mil tipos analisados, os pesquisadores encontraram uma diferença de 65 vezes entre as opções de menor impacto e as de maior impacto ambiental.

Para comparação, a diferença entre dietas humanas é bem menor: uma dieta média rica em carne emite cerca de 2,5 vezes mais gases de efeito estufa do que uma dieta vegana média. As rações com maiores emissões foram aquelas ricas em carne, úmidas, cruas ou sem grãos, segundo o estudo.

o Brasil é o terceiro maior mercado pet do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China.

“Quando olhamos para a alimentação de um cachorro de 20 quilos com comida crua ou úmida, muitas dessas dietas têm um impacto maior do que uma dieta humana rica em carne”, diz Harvey. As opções úmidas sem grãos e as cruas também apresentam cerca de duas vezes as emissões de uma dieta humana vegana.

Termos como “sem grãos”, “fresca” ou “grau humano” podem soar atraentes para os donos de pets, mas estudos indicam que eles não trazem benefícios claros à saúde ou, em geral, carecem de evidências de que sejam superiores.

TUTORES MAIS CONSCIENTES

Harvey não quer demonizar nenhuma forma de alimentação; ele só quer que os tutores de pets estejam um pouco mais atentos. “Em todas as categorias que analisamos, há oportunidades de escolher uma formulação com impacto ambiental muito menor e também oportunidades para os fabricantes reformularem seus produtos”, destaca.

Proteínas como carne bovina e cordeiro são as piores do ponto de vista climático, por exemplo, o que ajuda a explicar por que rações à base desses ingredientes têm emissões mais altas. Trocar por ração à base de frango já reduz a pegada de carbono da dieta do animal.

Da mesma forma, alimentos feitos com “cortes nobres”, semelhantes aos consumidos por humanos, têm impacto ambiental maior, enquanto aqueles que utilizam subprodutos da carne são mais sustentáveis. Existem ainda rações à base de plantas, que apresentam algumas das menores emissões.

pessoa serve um pote de  ração para o cachorro

Harvey focou na ração para cachorros porque ela tem um impacto considerável e porque é algo que pode ser mudado. Ele mantém, inclusive, um site com mais informações para tutores de animais.

Sua esperança é que os eles se tornem mais conscientes do impacto das dietas de seus cães e que os fabricantes sejam mais transparentes e melhorem a rotulagem dos ingredientes, permitindo escolhas mais informadas.

Com sua formação como veterinário, Harvey sabe o quanto os pets são importantes para as pessoas. E sabe também que estamos vivendo uma crise climática.

“Eu gostaria que as pessoas ainda pudessem ter um animal de estimação à medida que o clima muda”, diz. “Quero que essas duas coisas sejam compatíveis.”

Com informações da redação da Fast Company Brasil


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais