A farmácia de manipulação pode redesenhar o mercado de cannabis
A entrada das farmácias de manipulação no setor amplia oportunidades, acesso e personalização no cuidado à saúde dos brasileiros

A recente atualização regulatória criou um ponto de inflexão no já complexo segmento de cannabis medicinal. Isso ocorre em um momento no qual o mercado já deixou de ser promessa: em 2025, tivemos 873.111 pacientes brasileiros utilizando produtos à base de cannabis sob prescrição médica, confirmando a tendência de dois dígitos de crescimento nos últimos 10 anos.
Este ano, projeta-se que alcançaremos as simbólicas cifras de um milhão de pacientes e mais de R$ 1 bilhão de receita gerada. Definitivamente não se trata mais de apenas um “nicho curioso”. É um setor de saúde em formação.
Até agora, porém, esse setor cresceu de forma fragmentada e um pouco confusa para quem vê de fora. O acesso aos produtos está dividido entre empresas que facilitam importações, associações de pacientes e os produtos vendidos nas farmácias, cada um representando cerca de 30% do segmento.
A importação abriu as portas e ainda traz variedade de produtos, mas acompanhada de flutuação de câmbio, logística, entrega demorada e insegurança. As associações tiveram um papel social e histórico, especialmente para famílias que não encontravam alternativa no mercado formal.

Já a indústria chegou por último e precisou correr atrás do tempo perdido, aguardando a longa fila da autorização sanitária, implorando prescrição dos médicos mais tradicionais, disputando espaço nas gôndolas das redes de farmácias, no que está se tornando um verdadeiro banho de sangue.
A manipulação pode mudar esse equilíbrio de forças. Na minha visão, acabou de nascer uma “terceira via” que deve ser observada de perto.
O Brasil tem um setor de farmácia magistral grande, capilarizado e tecnicamente sofisticado. O país tem cerca de 8,7 mil farmácias de manipulação, uma infraestrutura espalhada, regulada e com um crescimento consistentemente acima do varejo farmacêutico tradicional.
Além do mais, as farmácias já estão acostumadas a transformar prescrições médicas em soluções sob medida para os pacientes, o que combina muito bem com a cannabis medicinal.
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Não se trata de romantismo em torno da fitoterapia; a própria natureza do tratamento exige ajustes individualizados. A dose, a via de administração, o horário de uso e a tolerabilidade variam muito de paciente para paciente.
Um produto industrializado pode ser excelente quando há escala, padronização e indicação clínica bem definida, mas nem sempre resolve o problema de quem precisa deste ajuste fino.
É aqui que a farmácia magistral pode se tornar o verdadeiro “dispensário brasileiro”, um lugar onde a cannabis deixa de ser apenas uma marca na prateleira e vira um mar de soluções possíveis, centrada na necessidade dos pacientes.
Até agora esse setor cresceu de forma fragmentada e um pouco confusa para quem vê de fora.
Para o mercado, isso abre uma avenida que vai muito além de plantar, extrair e produzir remédio. Há oportunidades em insumos farmacêuticos, controle de qualidade, farmacotécnica, educação médica, treinamento farmacêutico e modelos B2B voltados ao abastecimento das farmácias autorizadas. Tudo isso com grande capilaridade e uma burocracia menor do que a exigida pela produção industrial.
Acredito que a indústria sempre terá seu papel (embora estejamos vivendo um oceano vermelho), mas a farmácia de manipulação pode reorganizar toda a lógica do setor porque traz a cannabis medicinal para um local de mais conforto para a sociedade comparado às associações e para além do regime de exceção regulatória que está na origem desse mercado, cerca de 10 anos atrás no Brasil.
Aliado a isso tudo, a classificação do canabidiol acabou de mudar, autorizando os médicos a realizarem prescrições digitais na farmácia magistral. É um outro jogo, de maneira geral, e a grande oportunidade talvez não esteja apenas no produto final, mas na infraestrutura que tornará esse mercado confiável.
Seguramente estamos em um terreno mais fértil e sólido para novos negócios. A cannabis entra em uma nova fase, menos barulhenta, mais técnica e possivelmente mais transformadora pela escala que atinge.
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A pergunta agora não é mais se existe mercado, ele já é concreto. Também não é se existe demanda, pois ela cresce de maneira vertiginosa. A pergunta é quem vai construir o sistema mais confiável para sustentar essa próxima etapa de crescimento.
Olhe ao seu redor, pois já apareceram algumas peças nesse tabuleiro.
