A gente não é o país do Carnaval
Quase oito em cada 10 brasileiros dançaram forró, comeram pamonha e pularam fogueira no último ano. Menos da metade caiu num bloco carnavalesco

Eu tenho aberto minhas palestras com uma pergunta simples, dessas que parecem ter resposta óbvia. Faço para você agora, do mesmo jeito: qual é a maior festa do Brasil?
Pode responder em voz alta. Eu espero.
Se você disse Carnaval, está em ótima companhia. É o que praticamente todo mundo responde. E é o que praticamente todo mundo erra.
Porque a Pesquisa Cultura nas Capitais, feita pela JLeiva com patrocínio do Itaú e do Instituto Cultural Vale, foi medir isso. E o resultado é de cair o quentão da mão: 78% dos brasileiros foram a pelo menos uma festa de São João nos últimos 12 meses.
Carnaval? 48%. Em nenhuma capital do país o Carnaval apareceu na frente do São João. Nenhuma. Nem em Recife, onde a coisa ficou tecnicamente empatada
Deixa eu traduzir isso, porque o número é grande demais para passar batido: quase oito em cada 10 brasileiros dançaram forró, comeram pamonha e pularam fogueira no último ano. Menos da metade caiu num bloco.
A gente não é o país do Carnaval. A gente é o país da fogueira, da pamonha e do forró. E descobriu isso por pesquisa, como quem recebe o resultado de um exame que confirma uma coisa que o corpo já sabia.
O engraçado (ou o triste, depende do humor do dia) é que a gente continua contando para o mundo, e para a gente mesmo, a história errada.
Toda vez que viajo para fora, acontece a mesma cena. Alguém descobre que sou brasileiro, sorri, e dispara o repertório: futebol, Carnaval, praia. Às vezes lembram da Amazônia. Quase sempre lembram do Rio. E eu fico ali, sorrindo de volta, pensando que essas pessoas estão olhando para um país do tamanho de um continente e enxergando um cartão-postal.
Na pesquisa Cultura nas Capitais, em nenhuma delas o Carnaval apareceu na frente do São João.
Mas o que mais me intriga não é o estrangeiro reduzir o Brasil a três coisas. É que a gente faz exatamente a mesma coisa com a gente mesmo. A maior festa do nosso país acontece todo mês de junho, move mais gente que qualquer outra, e ainda assim a tratamos como coadjuvante.
Deixa eu te dar mais uns números, porque eu sei que você, assim como eu, foi educado para só acreditar em algo quando tem cifra do lado. Em 2025, as festas juninas movimentaram cerca de R$ 7,4 bilhões na economia brasileira. Para você ter ideia do tamanho disso: o Carnaval, nosso orgulho de exportação, movimentou algo perto de R$ 12 bilhões.
Ou seja, essa festa que ninguém de fora conhece e que metade do Brasil acha que é "coisa do interior" já bate quase dois terços do nosso evento mais famoso, sendo frequentada por muito mais gente. E ela se espalha por mais de 1,7 mil municípios. Não é um nicho. É o país inteiro dançando agarradinho.
E aí tem os gigantes.
Caruaru, em Pernambuco, recebeu quatro milhões de pessoas em 2025 e injetou R$ 737 milhões na cidade, ao longo de 65 dias de festa. Sessenta e cinco dias. O Carnaval mais esticado do mundo sonha com isso.
Campina Grande, na Paraíba, se autointitula sem cerimônia "O Maior São João do Mundo" e enche o Parque do Povo com milhões de pessoas todo ano.

Petrolina, no sertão pernambucano, movimentou mais de R$ 320 milhões e atraiu cerca de um milhão de gente para o meio do São Francisco. Só Pernambuco faturou mais de R$ 1 bilhão com o ciclo junino no ano passado.
Quer um parâmetro que cabe na cabeça? Pega o Rock in Rio, o nosso maior festival, aquele que para o país quando acontece. Na edição de 2024, a dos 40 anos, ele reuniu 730 mil pessoas em sete dias de evento.
Agora compara: o São João de Campina Grande, sozinho, junta perto de três milhões de pessoas, ao longo de mais de um mês de festa. É de três a quatro vezes o Rock in Rio em público, e várias vezes isso em tempo de duração.
Caruaru, com seus quatro milhões em 65 dias, faz o maior festival do país parecer um ensaio aberto. E ninguém cobra ingresso de centenas de reais para entrar.

Agora me responde com sinceridade: você sabia disso? Eu, que faço questão de andar esse país de ponta a ponta, demorei a entender o tamanho do que estava vendo.
E é aqui que mora o que realmente me interessa nessa conversa.
Existe uma palavra que virou moda na geopolítica: soft power. É o poder de um país influenciar o mundo não pela força ou pelo dinheiro, mas pela cultura, pelo afeto, pelo desejo que ele desperta.
A Coreia do Sul fez isso com o K-pop. O Japão fez com os animes e a comida. Os Estados Unidos fizeram com Hollywood. São países que entenderam uma coisa simples: gente que ama a sua cultura, te ouve, te visita, compra de você, sonha junto contigo.
Leia mais: Brasil é maior potência de soft power do mundo. Por que não nos vemos assim?
O Brasil tem soft power de sobra. A questão é que a gente só investiu, exportou e contou a história de um deles. Mandamos o Carnaval para o mundo, transformamos o futebol em linguagem universal e deixamos o São João trancado dentro de casa, como aquele parente talentosíssimo que a família tem vergonha de levar para a festa dos outros.
E olha o que a gente está deixando na mesa. O São João não é só um forró com fogueira e quentão. É um ecossistema inteiro de tecnologia cultural brasileira funcionando ao mesmo tempo.
Tem os trios de forró pé de serra, que são patrimônio vivo. Tem a comida de milho, que é cozinha ancestral. Tem o couro, o xote, o baião, a sanfona, a roupa, a quadrilha – que, se você parar para pensar, é uma coreografia coletiva tão sofisticada quanto qualquer escola de samba.
E tem, no centro de tudo, os quatro pilares que eu não canso de repetir que sustentam esse país: a Fé em São João, a Festa que não acaba, a Família que se junta, e a Fofoca boa que rola no arraial até o sol raiar.
É cultura de exportação parada na garagem. É um BTS inteiro que a gente tem e nunca botou para tocar lá fora.
FESTA NO INTERIOR
Mas por que a gente não vê? Essa é a pergunta que não me larga.
Eu acho que é porque fomos educados na escassez. Aprendemos a olhar para o Brasil pelo retrovisor de quem nos colonizou, sempre medindo o que falta, o que é "atraso", o que é "do interior", como se interior fosse defeito e não o coração do país.
A gente olha para uma festa de R$ 7 bilhões que move milhões de pessoas e, em vez de pensar "que potência", pensa "que bonitinho". Esse diminutivo é o nosso maior inimigo. É ele que faz a gente tratar o que é colossal como se fosse miudinho.
E não é miudinho. Caruaru sozinha faz, em escala de cidade média do sertão, o que metrópole nenhuma do hemisfério norte sabe fazer: parar a vida inteira por dois meses para celebrar, e ainda sair lucrando, gerando 20 mil empregos, lotando 100% dos hotéis.
Isso não é folclore. Isso é economia criativa de alto nível operando num lugar que o mapa oficial do "Brasil que dá certo" insiste em ignorar.

O São João, para mim, virou a prova mais bonita de uma coisa que eu repito até cansar: o problema do Brasil nunca foi falta de potência. Foi falta de autoestima para enxergar a potência que já temos. A gente é um país míope diante do próprio tamanho.
Vivemos achando que a solução vem de fora, que o modelo certo está em outro lugar, quando o que o mundo está procurando é justamente alegria que junta gente, festa que é tecnologia de pertencimento, cultura que nasce do povo e não do marketing.Isso tudo a gente produz em abundância, todo junho, há séculos, sem nem reparar direito.
Imagina se a gente tratasse o São João com o mesmo orgulho com que trata o Carnaval. Imagina o estrangeiro descendo em Recife em junho do mesmo jeito que desce no Rio em fevereiro. Imagina a sanfona ocupando, no imaginário do planeta, o espaço que hoje é só do tamborim.
Não falta talento, não falta público, não falta dinheiro circulando. Falta a gente acreditar que merece ser visto. Falta parar de chamar de "festinha" o que é, na real, um dos maiores espetáculos culturais vivos do mundo.
Então, neste mês de fogueira acesa, eu queria deixar uma pergunta no ar para você dançar com ela: quantos outros superpoderes esse país tem guardados na garagem, esperando só a gente ter coragem de acender o pavio?
